pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

O nascimento da escrita é a história da imagem

Toda escrita começa com uma imagem. toda imagem é condensação de um texto que ainda não pôde ser dito...E os diálogos de um filmes são a superfície que dão contorno a cena que assistimos, porque o texto, o texto todo, está no contexto exposto nas imagens...E a pintura. a pintura é o movimento primário do homem...


Toda escrita começa com uma imagem. toda imagem é condensação de um texto que ainda não pôde ser dito. quando não sei bem o que dizer eu tiro uma foto. ou procuro outra e olho olho até impregnar o olho que invade a boca e a engorda com adjetivos que projeto na língua que articula através dos meus dedos. preciso dizer o que vejo. tornar a imagem universal. clarear visões alucinadas fragmentadas e cinzas. pura semiótica. imagem é linguagem. e tudo nesse mundo espera ser descrito, receber um nome. mas essas coisas, essas coisas todas que falam e se agitam desejam ultrapassar a barreira do substantivo assim como a cortina verde em que estou tocando agora me apresenta sua textura áspera. um corpo cheio de nervos aguardando alguém que a descubra. assim como a imagem abaixo têm gosto de mar e despedida. Olhares inocentes de incerteza diante do caminho e vontade de descoberta.

10001576_10203602317402578_404077306_n.jpg Ryan McGinley

E os diálogos de um filmes são a superfície que dão contorno a cena que assistimos, porque o texto, o texto todo, está no contexto exposto nas imagens. e é por isso que é impossível confundir um filme do Wes Anderson com um filme do Win Wenders embora seus nomes soem em harmonia. o mundo simétrico de dramas narrados com sutileza de um com a densidade existencial do outro. tudo está dito nas imagens.

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E o Jim, o Jim Morrison só sabia escrever porque sabia ver. todas as suas canções eclodiram de visões fascinantes pelas quais ele foi tomado. e por isso quando ele diz em The End - Ride the snake, ride the snake – sabemos que essa serpente está a sua frente. e em Indian Summer apesar dos poucos versos podemos imaginar uma história que se estende pelo verão inteiro.

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E também é por esse motivo que Howl é um dos maiores poemas de todos tempos. porque ele é imagem. acontece no tempo da imagem, acompanha o frêmito abstrato da efígie e o ritmo do jazz, você pode cantar ou gritar enquanto o lê, isso você pode escolher, você só não pode deixar de ver, desde a primeira linha do poema até a última, você não consegue deixar de ver.

“Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa "hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite...”

Assim como sempre que leio Tabacaria do Pessoa me sinto ao seu lado na janela do quarto pelo qual olha para fora seu heterônimo Álvaro, Álvaro de Campos. a janela que dá para a rua desconhecida que guarda o mistério dos seres e da cousas, a janela em que nos debruçamos analisando a existência até o momento em que nos abana Esteves. o Esteves sem metafísica.

E a pintura. a pintura é o movimento primário do homem. a linguagem originária, ancestral, arcaica e imperecível. no recôndito das cavernas imagens desenhando a história. aquilo que não se sabia dizer em palavras, antes de ser língua uma ou outra. antes de segregar. sem adornos ou acentos. isento de luxúria. cru e puro. ao mesmo tempo em que é prolixo. e permite o delírio e a suposição. e pode incorporar qualquer sentido que lhe dão. sem vírgula sem ponto semseparaçãosemdenominaçõesencaixotadas OUordensqueaprisionamAmãoeatintaAmãonatintaaprimeiraimpressãodaexistência aassinaturadaessênciarecordaçõesdeoutroraReminiscências...

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Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora.
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