pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

Nosferatu no Brasil – O Manifesto Antropófago de Ivan Cardoso

Em 1971 após o convite do diretor Ivan Cardoso, o jornalista e poeta tropicalista Torquato Neto empresta seu corpo a um personagem dantes apresentado às telas do cinema – o Vampiro Nosferatu...Nosferatu no Brasil foi filmado em Super-8, formato de filme que vinha se popularizando no país nessa década por representar um material de baixo custo e proporcionar maior liberdade para a experimentação, e é considerado um marco do gênero Terrir...


Em 1971 após o convite do diretor Ivan Cardoso, o jornalista e poeta tropicalista Torquato Neto empresta seu corpo a um personagem dantes apresentado às telas do cinema – o Vampiro Nosferatu. Contudo, vale ressaltar que nesse curta de pouco mais de 26 minutos, esse emblemático personagem ganhará novíssima configuração.

Ivan Cardoso diz que não sabe direito porque escolheu a figura de Nosferatu para o seu filme, mas refere que gostaria de ter uma figura de peso para ser seu protagonista.

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Nosferatu no Brasil foi filmado em Super-8, formato de filme que vinha se popularizando no país nessa década, por representar um material de baixo custo e proporcionar maior liberdade para a experimentação, e é considerado um marco do gênero Terrir, termo criado pelo poeta concretista Haroldo de Campos, para se referir a filmes que utilizavam de elementos clássicos do terror cinematográfico mesclados com humor, erotismo e cafonices do universo kitsch.

As cenas do filme foram rodadas em cerca de 10 dias, durante os finais de semana, período em que Torquato dispunha de tempo livre. Para o diretor “a atuação do Torquato no Nosferatu deu uma harmonia e uma dignidade muito grande ao filme”.

O filme se inicia no século XIX com Nosferatu ainda em Budapeste. Essa primeira parte é toda filmada em preto e branco. Na sequência temos um corte onde nos é apresentado o título do filme, e dessa forma deduzimos a viagem do personagem para baixo da linha do Equador.

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Por motivos financeiros, todo o filme foi produzido à luz do dia, o que num primeiro momento gerou um problema conceitual em relação ao personagem, já que, segundo as narrativas tradicionais, os Vampiros só podem sair à noite. Contudo, uma solução bastante criativa foi encontrada pelo diretor, que logo no início do filme expõe ao expectador um letreiro dizendo: - ONDE SE VÊ DIA, VEJA-SE NOITE. – Um trocadilho visual feito por Ivan que remete ao poema concreto de Affonso Ávila - ONDE SE VÊ ISSO, VEJA-SE AQUILO.

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No Brasil, o famoso vampiro anda agora pelo Rio e a película ganha cores. Sedento por sangue, o personagem de Torquato saí por aí fazendo uma vítima atrás da outra. Cada cena de seus “ataques” apresentam uma narrativa que remete à linguagem do cinema mudo, afinal, os personagens não possuem fala alguma, são as músicas postas ao fundo que expressam as ações dos atores.

No decorrer da história, as vítimas de Nosferatu despertam transformadas em vampiras e esfomeadas iniciam uma orgia sanguinária. Um letreiro apresenta uma ideia dizendo – SEM SANGUE NÃO SE FAZ HISTÓRIA.

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Fica bem clara que toda essa ‘comilança’ serve à apresentação de um conceito no qual o movimento Tropicalista da época apoiou a sua causa – a ANTROPOFAGIA. A palavra que está associada à prática do canibalismo, ou ato de comer a carne humana, foi utilizada na década de 20 como expressão de um movimento artístico nascente que pretendia resgatar a identidade brasileira e explicitá-la no cenário Moderno, ao mesmo tempo em que, almejava engolir tudo aquilo que lhe era externo/estrangeiro para misturar ao que nos era originário. Antropofagia significa apropriação, mas jamais, imitação. Era dever do artista comer tudo que lhe apetecesse, porém, vomitar utilizando uma nova linguagem.

Trecho do MANIFESTO ANTROPÓFAGO escrito por Oswald de Andrade em maio de 1928:

Só a ANTROPOFAGIA nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões.

De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. [...]

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Os artistas pertencentes à efervescência capitalista demonstram bem como utilizar tal conceito na produção textual, plástica e musical. E associaram rock com baião. E fundiram inglês com português...E assim confundiu-se Godard com Sganzerla. E os Beatles se embaralharam com Os Mutantes. Enfim, as transas deram certo e todo mundo viveu um temporada em transe.

É essa folie a deux que foi ilustrada em Nosferatu no Brasil. Tanto no visual vampiresco de Torquato Neto que não deixou de se apropriar de alguns artifícios da estética gótica tradicional dos vampiros e, adicionou ao personagem componentes visuais correspondentes ao clima quente típico do Brasil - ele usa sandálias ao invés de botas, e aparece muitas vezes usando somente sua capa característica e vestindo sunga. Dessa forma, o ator apresenta ao cinema, um novo conceito de vampiro, um vampiro brasileiro, o Vampiro Tropical - quanto, no festim canibal explicitado pela história desse vampiro voraz vivido pelo poeta.

Após a farra feita no Brasil, Nosferatu regressa para o velho continente, todavia, antes do término da aventura somos advertidos pelo autor que assegura que a marca deixada pelo vampiro não poderá ser apagada:

"A festa antropofágica de linguagem

que deixa a marca do vampiro na jugular do cinema

que deixa a marca do vampiro na menina dos olhos"

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De lá para cá, 44 anos, nunca mais tivemos uma produção cultural tão significativa no Brasil, e ouso dizer que a decadência afetou todo o mundo. Precisamos encontrar novas fontes para deglutir. Alguém saberá dizer onde se pode encontrar um prato, um prato cheio de se engolir, um prato pra se fartar e afetar essa geração que anda de estÂmago tão vazio?

Precisamos ressuscitar Vampiros.


Bruna Regina Pietta Abrahão

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