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Caminhando se vive arquitetura

Guilherme Osterkamp

Arquiteto e Urbanista, afim de uma boa conversa..

Três leituras, mesmo texto

Como se fossem três interpretações de um mesmo texto, as obras de Bjarke Ingels, Daniel Libeskind e do escritório “Brasil Arquitetura”, de Marcelo Ferraz, nos dão a clara dimensão da diversidade da produção arquitetônica atual. O Contemporâneo bebe abundantemente da fonte do moderno, já modificada pelo viés desconstrutivista (herdado da obra de Jacques Derrida), e por vezes bem adaptado à cultura local. Os três arquitetos apresentados neste texto representam bem três formas de se lidar com esse contemporâneo, mas mesmo assim não são parte de determinadas correntes ou grupos de arquitetos. Simplesmente fazem Arquitetura com o seu modo de ver o mundo, dentro da sua ética e suas justificativas.



Os anos 80, em certas análises, são frequentemente apelidados de “década perdida”. Quando falamos de Arquitetura é comum também pensarmos dessa forma devido à grande produção, nesta época, de edificações “complexas e contraditórias” que muitas vezes acabavam por não fazer muito sentido.

Isso foi o Pós-modernismo. Depois de décadas de racionalidade, onde menos era mais e a forma seguia a função, o Movimento Moderno, contestado fortemente desde o final da década de 60, sucumbiu a estes anseios por mudança. E extrapolar foi a forma que muitos arquitetos encontraram para o protesto. Neste desejo de provar que a Arquitetura Moderna não servia de modelo para o mundo atual, surgiram diversas formas do projetar e seus resultados extravagantes.

01-posmod.jpg Obras de Ruy Othake, Sílvio de Podestá e James Stirling Fotos: http://www.holofote.com/sitenovo/imagens/clientes/unique_fachada_01.jpg http://vitruvius.com.br/media/images/magazines/grid_9/e9057f8ee0f0_resenha142.jpg http://static.guim.co.uk/sys-images/Observer/Pix/pictures/2011/3/17/1300380696823/stirling-stuttgart-007.jpg Acesso em [11/05/13, 17:05]

Apesar de poder ser interpretado como um grito non sense por mudança, este foi um meio válido e legítimo de contestação de uma fórmula que realmente mostrava-se ineficaz e carente de respostas.

Com a passagem da década de 90 e o início do novo século, parece que esta mudança tão desejada começa a ser estudada com mais cuidado e interpretada como uma renovação ou releitura do movimento moderno, adequando-se às novas teorias, em um novo mundo. O legado do Modernismo é percebido com muito mais importância em relação a seus defeitos. E especulações como o desconstrutivismo são melhor adequadas à atualidade.

É nessa base teórica mais sólida e com essa motivação por novas respostas que surgem as diversas boas arquiteturas da última década.

Símbolo dessa nova fase é quem dá nome ao escritório dinamarquês BIG: Bjarke Ingels Group.

Bjarke Ingels propõe uma nova abordagem: Todo projeto nasce de um problema, se desenvolve e passa a ser várias propostas, onde a mais preparada vence e torna-se a obra física, apta a abrigar vida. Esse desenrolar do processo criativo, com inspiração escancarada na teoria da evolução de Darwin, faz parte da própria obra arquitetônica. Com esse jeito e conversa de professor, Ingels nos convence que projetos únicos e esteticamente impactantes são a resposta ideal para as mais diversas tipologias.

02 - 57westBIG.jpg Foto: Edifício West 57th street, Nova Iorque http://www.big.dk/#projects-w57 Acesso em [11/05/13, 17:05]

03 - scalaTowerBIG.jpg Foto: Scala Tower, Copenhagen, DK. http://www.big.dk/#projects-sca Acesso em [13/05/13, 18:55]

04 - Big.jpg Foto: Biblioteca Nacional de Astana (Cazaquistão) e Edifício de Residências Eight (Noruega) http://www.big.dk/#projects-anl http://www.big.dk/#projects-8 Acesso em [13/05/13, 18:55]

A forma não segue somente a função, mas tenta responder às mais diversas perguntas que possamos fazer a respeito das suas edificações. Prepotência? O título de um livro do próprio BIG pode explicar: “Yes, is more!”. A intenção é mostrar a importância da Arquitetura como disciplina, e a sua influência direta na vida de todos nós. Abordagem que parece estar mesmo esquecida há um bom tempo. Assim, Bjarke Ingels atinge o objetivo: Seu impacto através da inovação atrai atenções, discussão (e cobertura midiática) à Arquitetura em geral.

Porém, a Arquitetura de hoje em dia não é somente produzida por Arquitetos surgidos nesse milênio:

Polonês naturalizado americano, de fala rápida, emocionada e convincente quando questionado a respeito dos seus projetos, Daniel Libeskind expressa-se através da arquitetura para mostrar a sua visão apaixonada da vida. Uma vida que pretere o silêncio, a padronização e a simplicidade em favor do espetáculo, da surpresa e da complexidade. Apesar de lembrar idéias pós-modernistas nos seus discursos, Libeskind evoluiu nas últimas décadas para uma arquitetura que representa bem uma leitura otimista da realidade, quase sempre nos contando uma história. Frequentemente abusando das formas angulares, muito expressivas, e que aproximam o espectador pela surpresa e contraste com o contexto, as obras de Libeskind podem também confundir qualidade arquitetônica com ostentação. 05-DenverLibeskind.jpg Foto: Museu de Arte de Denver www.architektura.info Acesso em [13/05/13, 19:05]

06-BernaLibeskind.jpg Foto: Shopping e Centro de Lazer, em Berna. http://ad009cdnb.archdaily.net/wp-content/uploads/2011/01/1294346789-001-copy-1000x666.jpg Acesso em [13/05/13, 19:05]

07-berlinLibeskind.jpg Museu Judaico, em Berlim http://ffw.com.br/noticias/files/2012/04/Jewish-Museum-Berlin.jpg Acesso em [13/05/13, 19:05]

Para Daniel Libeskind o que importa na arquitetura é a qualidade do design, a responsabilidade com o resultado estético de cada obra. Nesse sentido, o arquiteto tem êxito. Cada obra sua nos passa uma mensagem instantânea, sem esquecer-se da história, do espírito do local.

Esse “estilo” próprio não só caracteriza sua obra, mas nos causa um sentimento prévio à vivência dos ambientes internos. Vide as fotos desse texto: Ao observar o Museu Judaico, sem referências claras, sabemos que algo lá dentro falará sobre uma história ruim: o holocausto e suas terríveis lembranças. Ou ao avistar o Shopping em Berna teremos a impressão que algo lá deve ser divertido, empolgante ou pelo menos atrativo e incomum.

Talvez um contraponto aos dois exemplos anteriores seja Marcelo Ferraz e seu escritório Brasil Arquitetura.

Esse, assim como o exemplo anterior, não apareceu para a Arquitetura há pouco tempo. Porém, Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci e equipe, têm uma forma diferente de perceber e criar Arquitetura.

Como o nome do escritório revela, temos agora um exemplo mais preocupado com os elementos locais que compõe a sua realidade. O Brasil Arquitetura lê a cidade, o local, o país. E percebem bem seus elementos: História, cultura, potencialidades e problemas. Utilizam e ressaltam o que há de positivo, para então resolver os conflitos do local onde a obra será inserida. Com grande destaque aos casos que envolvem diretamente espaços públicos.

08 - pracaArtes.jpg Foto: Praça das Artes, São Paulo http://www.brasilarquitetura.com/galeria/projetos_img/099-01.jpg Acesso em [13/05/13, 19:15]

09 - museu_pao.jpg Foto: Museu do Pão. Ilópolis/RS http://www.brasilarquitetura.com/galeria/projetos_img/092-01.jpg Acesso em [13/05/13, 19:15]

10 - casa_ubatuba.jpg Foto: Casa em Ubatuba/SP http://www.brasilarquitetura.com/galeria/projetos_img/101-03.jpg Acesso em [13/05/13, 19:15]

Em uma breve análise de algumas obras é fácil perceber a sensibilidade e simplicidade da abordagem, que resultam em uma arquitetura naturalmente brasileira e agradável. Nota-se claramente a pureza, excelência e rigor na sua Arquitetura. E em uma visão mais demorada, a Influência de Lina Bo Bardi (com quem Marcelo e Francisco trabalharam): Na sinceridade do trato com os materiais, nas resoluções construtivas e principalmente na valorização dos elementos culturais.

É dessa forma - simples e de sensibilidade apurada - que temos uma maior valorização da paisagem, dos elementos culturais, da cidadania. Ou seja: Do que importa. Afinal de contas, produzir Arquitetura também é construir e compor cidades.

Enfim, a Arquitetura é reflexo de seu tempo. Mas nem por isso deve pretender ser uma só. Com os três exemplos apresentados, é possível concluir que hoje em dia são expressas diversas formas de ver e entender a vida.

A arquitetura contemporânea é o reflexo do mundo cada vez mais globalizado e tecnológico, porém isso não necessariamente significa uma arquitetura high tech ou preocupada essencialmente com a estética. Há espaço para diferentes formas de abordagem, sem necessariamente separarmos em grupos ou correntes de produção arquitetônica.

Estes Arquitetos simplesmente fazem Arquitetura com o seu modo de ver o mundo, dentro da sua ética e suas justificativas.

Esse é ponto-chave. Se a Arquitetura Contemporânea tem espaço para quase tudo, do otimismo pragmático do BIG às interpretações da cultura regional do Brasil Arquitetura, o que aproxima essas diferentes arquiteturas é a qualidade. Arquitetura de Qualidade possui embasamento teórico consistente, elementos que apoiam as justificativas para cada decisão de projeto, dentro da ética de cada Arquiteto: Cada um com sua leitura, apesar de ser o mesmo texto.

____________________ Referências:

BJARKE INGELS GROUP. Yes is More – An Archicomic on Architectural Evolution. Köln: Editora Evergreen, 2009.

FERRAZ, Marcelo Carvalho. Arquitetura Conversável. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2011.

HELM, Joanna. Praça das Artes / Brasil Arquitetura. Disponível em . Acesso em 06/05/2013. ArchDaily Brasil, 2013.

INGELS, Bjarke. 3 Warp-speed Architecture Tales. (Apresentação em Vídeo). Disponível em . Acesso em 13/05/2013. TED Talks, 2009.

LIBESKIND, Daniel. 17 Words of Architectural Inspiration. (Apresentação em Vídeo). Disponível em . Acesso em 13/05/2013. TED Talks, 2009.

Guilherme Osterkamp

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