Micheli Biek

Amante de boas histórias, sempre perambulando entre o universo das palavras e das imagens...

Nascidos em Bordéis - um novo olhar sobre a vida e o papel do documentarista

Ao ir em busca de um retrato da vida das mulheres e prostitutas do distrito da Linha Vermelha, em Calcutá, a fotógrafa inglesa Zana Briski e seu amigo Ross Kauffman se deparam com uma realidade mais dura, a das crianças que vivem dentro desse mundo. Um documentário forte e intimista de uma realizadora que se tornou parte de sua obra.


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As crianças que participaram do projeto, da esquerda para a direita: Puja, Suchitra, Kochi, Avijit, Tapasi, Gour, Manik e Shanti. Foto: Zana Briski

Sinopse

Nascidos em Bordéis é um documentário da fotógrafa inglesa Zana Briski e seu amigo Ross Kauffman. Inicialmente os diretores fariam uma análise da vida das mulheres e das prostitutas que trabalhavam no distrito da Linha Vermelha, em Calcutá. Mas ao adentrar essa parte esquecida da Índia, se depararam com uma realidade mais dura, a das crianças que vivem dentro desse mundo.

Uma história que se tornou pessoal

Descobrimos uma realidade terrível ao assistir o documentário. Um número grande de crianças vive em condições desumanas em Calcutá, assistindo seus pais viverem bêbados ou drogados quase o dia inteiro enquanto suas mães trocam sexo por dinheiro. Os diretores, ao entrarem naquele pequeno e difícil mundo dentro da Índia acabaram por se deparar com uma questão óbvia, cuja resposta era muito cruel, qual seria o futuro dessas crianças se elas não saíssem daquela vida?

Vemos um menino que se diz triste por não poder tirar a amiga daquela vida, pois sabe muito bem o destino que ela terá. Tudo o que separa as crianças do suposto “trabalho” de suas mães é uma pequena cortina em seus casebres, fechada para os olhos das crianças, que, no entanto, compreendem muito bem o que se passa, e pedem socorro, com os olhos, com as expressões e com as fotografias.

Como o destino das meninas seria apenas um: tornar-se prostitutas, a fotógrafa e diretora Zana Briski mudou seu roteiro e se tornou parte do documentário, por vezes narrado em primeira pessoa, demonstrando o nível de envolvimento da equipe com aquelas crianças.

O que ocorre é o seguinte: a fotógrafa fornece máquinas fotográficas para as crianças e começa a ensinar a arte da fotografia, estimulando os pequenos a registrarem aspectos de sua vida. O resultado é surpreendente. Começamos a conhecer esse pedaço da Índia através das fotografias das crianças, que revelam, com uma extrema e dolorosa beleza, uma realidade ignorada.

Foto: Avijit Bucket.jpg

Foto: Avijit Bucket

Um dos meninos do grupo se destaca. Detentor de um talento artístico fantástico, explica uma de suas fotografias com a seguinte frase “é uma foto muito bonita, mas que transparece muita tristeza, é difícil de olhar, mas tem que olhar porque essa é a relidade".

Aí vemos Zana engajada em tentar mudar a sina das crianças. Acompanhamos a dura jornada para conseguir uma escola que as acolha e passaporte para Avijit, que tem nas mãos uma grande oportunidade. E quando um pouco de esperança parece surgir em meio a tanta tristeza, sempre há mais uma pedra no caminho. No entanto, a fotografia é o consolo e a revelação dos desejos e dos pensamentos daquele grupo de crianças que, pela primeira vez na vida, tem a chance de conhecer algo diferente de sua dura realidade.

O Documentário

O olhar das crianças nos dirige para a história de suas vidas, mas, esse olhar também é o de Zana, diretora do documentário, que, por vezes, narra a sua experiênca em primeira pessoa, relatando apenas o necessário para compreendermos como ela chegou até ali, qual a razão de estar tentando ajudar as crianças, quais seus medos, a dificuldade em conseguir algo simples como um documento e a luta para livrar as crianças de seus próprios familiares, que, embora demonstrem, em alguns momentos, certo desprezo por elas, tentam mantê-las escravas da situação, pois sempre há uma maneira de ganhar algum dinheiro com elas.

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Zana fotografava as mulheres e prostituas do bairro periférico da Zona da Luz Vermelha de Calcutá, na Índia, quando descobriu que os maiores sofredores daquela situação eram os filhos daquelas mulheres e prostitutas, vivendo numa situação miserável, assistindo o seu triste futuro chegar mais perto a cada dia. A autora não faz julgamentos, não discute as causas da situação nem as escolhas feitas, ou as que não existem para ser feitas. A situação é aquela e não há muito o que ser feito. E mesmo tendo, como que por milagre, conseguido uma vaga em uma escola para algumas das crianças, podemos ver que a janela de uma vida melhor ainda assim pode não ser aberta.

Zana ministrou a oficina de fotografia com as crianças de Calcutá por dois anos. O documentário foi finalizado em 2004. Ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 2005, entre outros vários prêmios. São muitas as vertentes que podemos enxergar nesse filme: a realidade das crianças que vivem sem esperança, conscientes de seu futuro sombrio, a fotografia como instrumento para a construção de novas oportunidades, a criatividade e o despertar de talentos nos pequenos, uma fotógrafa que, normalmente, trabalharia como mera observadora, mas acaba se tornando parte de uma história, além das lições de fotografia que o espectador vai desfrutar.

Movida pela sua crença na arte como transformadora de vidas, Zana Briski criou a organização "Crianças com Câmeras", que ensina a arte da fotografia para crianças marginalizadas em comunidades ao redor do mundo. Vale a pena assistir Nascidos em Bordéis, por uma série de questões já citadas, mas especialmente pela frase de um dos garotos que definiu a razão de fotografar da seguinte maneira: “fotografar para registrar o comportamento humano...”.


Micheli Biek

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