pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

Quem sabe uma pin-up venha nos restituir a glória

O conteúdo e o frasco: formamos uma complexa mistura do que somos, pensamos que somos, pensam que somos. Escolhemos e somos escolhidos primeiro pelo frasco. O que reserva o conteúdo? O conteúdo, assim como o frasco, vive em permanente transformação. Somos uma surpresa constante, para nós mesmos e para o outro. Uma diva pin-up pode ser recriada numa versão que desafia o óbvio, depende apenas de olhar com outras lentes.


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Vítimas espontâneas da ditadura estética, as mulheres do século XXI carecem de um ícone que as liberte da perfeição limitante estabelecida pelos cruéis padrões de beleza. Enquanto buscam encaixar-se nesses modelos inalcançáveis, mulheres muito jovens ou muito maduras, acabam por tornar-se réplicas umas das outras. Fica-se com a impressão de estar diante de uma vitrine de bonecas que variam entre si apenas pela diversidade de tons ou figurinos; mas, com o mesmo conteúdo de plástico moldado numa linha de montagem. O imaginário curva-se num primeiro momento à beleza óbvia e acaba sofrendo uma efêmera atração por ela. Esse encantamento provocado pela forma perfeita faz muitos reféns da manutenção dessa imagem criada artificialmente, quer seja no milagre dos tratamentos de beleza ou dos filtros de Photoshop.

Não apenas as mulheres, mas também os homens são presas fáceis da própria vaidade desde que habitam a Terra. E, portanto, compram facilmente modelos que lhes garantam a imediata sensação de um desejo contemplado. Ainda que seja uma satisfação ilusória, a aquisição de um molde de beleza confere a quem o compra o sonho do pertencimento e da aceitação. A reverência ao belo, em toda a história da humanidade, revela a dependência do ser humano do sonho da beleza ideal. O belo está relacionado ao equilíbrio das formas, à harmonia ao que dá alento e prazer.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as figuras de garotas lindas que eram penduradas nas paredes dos alojamentos militares, pelos jovens soldados americanos, era um recurso comum usado para trazer alívio à situação de solidão e insegurança. Garotas de pele clara, batom vermelho, exibindo pernas torneadas e pés apoiados em saltos altíssimos, povoavam o imaginário de homens e mulheres, causando desejo e inveja. No entanto, essas garotas, conhecidas como as pin-ups (garotas penduradas) já eram admiradas em obras datadas do século XIX.

Numa época em que tornozelos eram considerados altamente eróticos, o desenho de moças com seios, coxas e outras curvas do corpo sendo reveladas, alimentava a imaginação de todos. Seriam aquelas lindas mulheres modelos reais? O artista as teria criado baseado na figura de uma musa? Jules Cherét é possivelmente o maior responsável pela criação e popularização dos folhetos publicitários, retratando mulheres sensuais. Aproveitando o arrefecimento da postura moralista no final da Era Vitoriana, Cherét inundou o cenário parisiense com suas garotas voluptuosas e sensuais, estampando calendários, cartões postais e jornais. O famoso Toulousse-Lautrec foi o responsável pela produção dos cartazes de divulgação do Moulin Rouge, exibindo ilustrações de suas cobiçadas dançarinas.

Já nos anos 30 e 40 as pin-ups eram modelos reais fotografadas em estúdios, cujas imagens eram, posteriormente, retocadas por especialistas na arte dos pincéis e transformadas em figuras idílicas: curvas perfeitas, rosto angelical cheio de doce sensualidade. Gil Evgren foi um dos mais famosos desenhistas dessas doces meninas sensuais; sendo ele mesmo o fotógrafo e o artista que dava retoque à própria obra por meio do desenho feito a mão. A icônica Marilyn Monroe, famosa por suas personagens frágeis e sensuais, interpretadas nos filmes de Hollywood nos anos 50, protagonizou um cartaz aparecendo totalmente nua deitada num fundo de veludo vermelho. A imagem de Marilyn associou o cenário do cinema de sua época ao estilo pin-up.

A estampa dessas garotas de corpos curvilíneos e sensualidade maquiada de inocência foi um apelo forte na divulgação e venda de produtos de consumo, desde prosaicos chaveiros e cinzeiros a shows e espetáculos que atrairiam curiosos expectadores de todo o mundo. As ilustrações que incorporam o conceito atualmente aparecem associadas, principalmente, a personagens de HQ, representados por heroínas como Vampirella, Lady Death e Ghost, todas elas são garotas sensuais e poderosas que seduzem o leitor por meio de figurinos eróticos.

Do ponto de vista do apelo sexual, a ideia vinculada às garotas pin-up abre uma fresta para a uma nova abordagem da figura feminina “sensual sem ser vulgar”. Há algo que estabelece um link entre a imagem sexy e a necessidade de sua inclusão neste cenário. As mulheres têm demonstrado claramente o interesse por livros e filmes recheados de conteúdo sexual, voltado para o paladar feminino. Assim, ganham o mercado as produções literárias, cinematográficas ou televisivas que exploram o erotismo dentro de um contexto romântico, porém apimentado. Conhecidas como soft porn, essas obras espalham-se como rastilho de pólvora entre as mulheres; vídeos e livros que mostram relacionamentos avassaladores, não explícitos e temperados com romantismo, vendem como pão quente. Esse fenômeno pode ser considerado como o irmão erótico mais novo do estilo pin-up.

Na esfera fashion, algumas celebridades do mundo artístico atual, adotaram o visual, quer seja ligado à figura pública ou mesmo à vida pessoal, sempre associado à imagem erotizada envolta numa aura de inocência. A cantora Pop Katy Perry que abusa dos figurinos, cabelos coloridos e performances, no palco e nos clipes, bem ao estilo pin-up, já foi associada a uma personagem de HQ dos anos 1945, Katy Keene. E, nesses tempos modernos, de corpos esculpidos pelos recursos tecnológicos e pela ponta do bisturi, o estilo pin-up retorna nas asas da tendência retrô. Roupas, maquiagens e acessórios lembram a sensualidade irresistível e inocente das pin-ups. Mas, engana-se quem não compreende esse fenômeno como apenas mais um figurino de retoque; um detalhe sobre a padronizadora ditadura da beleza.

Voltemos ao cenário da Segunda Guerra. O governo dos Estados Unidos, necessitado de mão de obra para trabalhos mais pesados nas fábricas, criou a personagem “Rosie, The Riveter” (Rosie, a rebitadeira) uma mulher forte e musculosa, capaz de empunhar uma pesada ferramenta sem abandonar a feminilidade. Rosie aparecia em estampas de publicidade das indústrias bélica, metalúrgica e aeronáutica, vestida em justas calças jeans, com os lábios pintados de vermelho e um gracioso lencinho de bolinhas brancas no cabelo. O slogan era “We can do it!” Era uma espécie de pin-up feminista, um antídoto para a imagem da fragilidade e superficialidade.

Quem sabe, não haverá entre essas lindas mulheres esculpidas do século XXI, alguma alma mais rebelde e libertadora que nos despendure da parede e que nos faça sair com passos firmes de dentro da figura retocada.


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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