pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

SOBRE CRIANÇAS E FRATURAS EXPOSTAS

Ninguém gosta de levar tombo. Assim que se concretiza a queda, a reação imediata é olhar em volta; pior que cair só cair com testemunhas. O tombo dói moralmente. Mas, dói fisicamente também. Até que cheguemos à calejada idade adulta, devemos ter ralado os joelhos dezenas de vezes. E dói! Somos crianças, levamos tombos por inexperiência ou ousadia; e o adulto que nos assiste declara solenemente “Não foi NADA!”. Se pudéssemos reagir à tamanha falta de empatia... Mas não podemos! Somos menores, mais fracos, dependentes e estamos no chão. E permaneceremos no chão cada vez que nossa dor, vergonha, medo, habilidade ou dificuldade for reduzida a NADA.


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Levar um tombo é apenas uma das milhares de agruras enfrentadas com regularidade por cada um de nós na elaborada tarefa de crescer. Quando somos crianças, é natural que a nossa curiosidade e atração pela aventura, sejam infinitamente superiores à prudência ou avaliação do risco. Somos movidos pelo impulso, somos atrevidos, inventivos, criativos e vorazes. Queremos tudo, queremos muito e queremos agora. Somos capazes de perceber o mundo sob uma ótica incompreensível para os adultos. O nosso filtro é uma peneira rústica, tão diferente do sofisticado filtro dos adultos, capaz de separar o que é real do que é fantasia. Somos um mistério para os adultos. E, por isso, eles ficam desconfortáveis na nossa presença. Reagem de formas estranhas à nossa inata capacidade de fuçar, questionar e inventar. Os adultos não são capazes de enxergar nossas fraturas internas. Eles entendem o que estiver aparente, externo, exposto.

As fraturas internas nos pertencem. Nascemos assim, quebrados, desconstruídos, desencaixados. Somos felizes assim; e poderíamos sê-lo eternamente caso fosse possível ser criança pra sempre. Mas não é! Precisamos descobrir a fórmula que resulta no crescimento, que nos leva a aprender, amadurecer e entender o mundo sob a ótica desses complicados adultos. Entretanto, eles (os adultos) já sabem a fórmula; eles a criaram e manipularam de tal forma que precisamos deles para conseguirmos utilizá-la. Ocorre que os adultos não são muito afeitos a essa coisa de compartilhar e cooperar. É uma dificuldade lidar com isso pra eles. E isso torna a nossa situação muito difícil: estamos diante de um enigma, cujo guardião não fala a nossa língua.

A criança, depois que deixa de ser criança, esquece que já o foi. Torna-se um indivíduo diferente, estranho, distante da sua essência. Não é capaz de resgatar o que já foi; não está apto a acolher aqueles que ainda estão lá, naquele lugar onde não é possível voltar. O adulto é uma criança que se perdeu. E alguns deles decidem, inadvertidamente, gerar crianças; crianças perdidas trazendo ao mundo crianças recém-nascidas. Vejam só! Eles criam, para si, e para todos os envolvidos uma situação dificílima. Quando se está perdido, não se pode servir de guia a ninguém. Há que se procurar um jeito de encontrar o caminho: uma bússola, um mapa, uma pista, as estrelas... Mas como ler estrelas, quando não se tem tempo de olhar pro céu; quando se optou por viver num lugar cujo céu não tem mais estrelas?

A descoberta do caminho só vai acontecer quando as crianças, as perdidas e as recém-nascidas, encontrarem uma forma de se comunicar, de interagir para acomodar em ambos os lados a contribuição e expectativa emocional de cada um. Um desses momentos mágicos é a descoberta da comida como veículo de prazer físico e emocional. A criança que se lança à aventura de explorar os alimentos e levá-los à boca para experimentá-los, está formando sua relação com a comida, que pode se estender de forma positiva ou negativa por toda uma vida. Se essa exploração acontece em um clima confortável e tranquilo, com a assistência do adulto, estabelece-se um vínculo de afeto e segurança associada à hora da refeição. A criança sente prazer no ato de comer exatamente e não um prazer associado vindo de outras fontes, como receber um alimento mais saboroso como conforto por uma situação dolorosa, por exemplo. Comer, em companhia dos pais, tentando fazê-lo sozinho é um desafio delicioso para a criança e um momento precioso de aprendizagem afetiva para os adultos. Partilhar a mesa; o espaço de tempo; as conversas... Tudo isso vai ajudando a criança a perceber-se como membro do grupo familiar, ela se sente acolhida e pertencente. A criança que é alimentada em outro momento, em geral antes dos adultos, é privada de uma experiência riquíssima de afeto e partilha.

Estudiosos importantes, como Piaget (1896-1980) e Vygotsky (1896-1934), já apontavam para a afetividade como fundamental no processo de desenvolvimento. Mas devemos a Henri Wallon (1879-1962) os estudos que enfatizam a importância da afetividade, revelando que a inteligência não é o principal componente do desenvolvimento. Wallon defende que a vida psíquica é formada por três dimensões: motora, afetiva e cognitiva. Essas dimensões coexistem e atuam de forma integrada. Tudo o que é aprendido ou conquistado em uma dimensão atinge e é atingido pela outra na mesma proporção.

As pesquisas de Wallon apontam para um processo de evolução que depende tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente que o cerca e pelo qual ele é atingido, moldado e afetado. As crianças vêm ao mundo com recursos próprios, garantidos pelo funcionamento orgânico. Mas é a interação com o meio que vai permitir que suas potencialidades se desenvolvam; ou que suas questões especiais sejam olhadas, percebidas e aceitas. Ao serem expostas ao convívio com adultos distantes de suas necessidades de afeto, cuidados e orientação, as crianças acabam sendo afetadas e têm a formação de seu caráter cognitivo, social e afetivo, deformada. Pais extremamente permissivos são tão prejudiciais ao desenvolvimento das crianças, quanto aqueles demasiado intolerantes.

Os laços e relacionamentos criados pela afetividade não são baseados apenas em sentimentos; mas também em atitudes. Isso significa que em uma relação, existem várias atitudes que precisam ser cultivadas, para que a troca entre todos os envolvidos prospere e seja saudável. Os adultos abraçam uma missão bastante complexa quando tomam a decisão de ter filhos; essas crianças dependerão de seus cuidados, de sua proteção, orientação e afeto por muito tempo. Esses adultos precisam estar preparados para assumir uma tarefa árdua de aprender a ser o ponto de segurança e autoridade e, ao mesmo tempo, a fonte do amor incondicional.

Os estudos feitos por Wallon nos auxiliam a compreender essa alternância afetivo-cognitiva ao longo do processo de desenvolvimento; Wallon o organiza em cinco etapas: impulsivo-emocional; sensório-motor e projetivo; personalismo; categorial; puberdade e adolescência. No decorrer do processo, a depender das circunstâncias, a inteligência e a afetividade se alternam. No primeiro ano de vida o bebê usa a afetividade para se expressar e fazer contato com as pessoas que o cercam e o ajudam a interagir com o ambiente. Quando se aventura a andar, falar e manipular objetos, a criança depende mais da capacidade sensório-motora e projetiva; a inteligência prepondera; nessa fase a criança está com sua atenção voltada para fora, para o conhecimento. Essas mudanças não significam, no entanto, que uma das funções desapareceu. Afetividade e cognição não são funções exteriores uma à outra. Ao reaparecer como atividade predominante, uma incorpora as conquistas da anterior. Somos cíclicos e complexos, sentimos e pensamos, pensamos e sentimos. As emoções modulam nossa capacidade de aprender; a capacidade de aprender nos emociona.

O desejo interminável e belo pelo conhecimento e pelo afeto nos impulsiona sempre à procura de incríveis aventuras e incursões por lugares e situações ainda não experimentadas. Vamos nos construindo e transformando a cada instante, em nosso íntimo e com o outro. Voltamos a ser as crianças recém-nascidas a cada nova situação desafiadora e desconhecida. Os terrenos acidentados nos encantam e seduzem. Os tombos são inevitáveis. Então... Que nossas fraturas internas sejam percebidas, aceitas e curadas. E que nossas fraturas externas sejam cada vez mais raras.


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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