pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

CADA UM TEM A MÃE QUE MERECE! OU NÃO?

Tem histórias que fazem parte da nossa vida mesmo antes de a gente nascer, não é? É! Então, essa é uma história que faz parte da minha vida. Uma parte comigo dentro e outra parte comigo fora, porque eu nem tinha nascido ainda quando ela começou.


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Não era uma boa hora para eu nascer! O meu pai e minha mãe já tinham duas filhas quando eu resolvi nascer. É! Eu resolvi nascer mesmo! Nem tinha clima pra chegada de um bebê, mas eu resolvi que tinha que vir e vim. A Amália já tinha 12 anos, quando eu nasci e a Eliane tinha 9. A Eliane não ficou NADINHA feliz com a ideia. Por quê? Oras, porque ela era o xodozinho do papai e ficou com muito medo de perder o colo. Simples! A Amália acabou curtindo mais. Talvez porque ter um terceiro irmão (ou irmã, como foi o caso), seja uma espécie de vingança em cima do irmão (ou irmã) que ainda é o mais novo. Ah, você entendeu, tenho certeza! Mesmo que você seja filho único (o que pode ser sorte ou azar), você entendeu!

Os meus pais vieram de famílias muito simples. Meu pai teve uma vida melhor do que a minha mãe. Ele tem uma família grande, irmãs e um irmão que sempre o adoraram; uma mãe muito fofa e carinhosa e um pai muito figura: meu avô André. André Macarini! Tem até uma rua na cidade de Franca com o nome do meu avô: André Macarini. Ele não foi famoso, nem rico, nem nada. Mas, era muito querido. Ah, isso ele era. Meu pai teve uma casa direitinho; e, apesar de não terem muito dinheiro, não faltava nada do que é mais importante: nem de comer, nem de beber, nem de vestir. E tinha amor, muito amor! Meu avô André era apaixonado pela minha avó Amália e vice-versa.

Já a minha mãe... Bem, a vida da minha mãe não foi NADA fácil. Minha mãe nasceu na ala pobre da família dela (que tinha uma ala rica que não estava nem aí para a ala pobre, entende?). Tudo sempre foi muito difícil. Ela nasceu quando a minha avó Nenê (o nome de verdade é Maria José, mas todo mundo a chamava Nenê), já tinha quase cinquenta anos! Pois é. O irmão e as outras duas irmãs da minha mãe eram bem mais velhos do que ela. Meu avô, Antônio, dava muito trabalho pra minha avó; não era um bom marido, nem foi um bom pai. Apesar disso, minha avó que era uma mulher danada de boa, bonita, forte e inteligente, deu conta de educar os filhos, inclusive a minha mãe, só que com muitas dificuldades. Dificuldade de dinheiro, de tempo, de espaço, de lugar. Ah, um monte de dificuldades!

Minha mãe cresceu, meu pai cresceu (ele, antes dela, porque era mais velho), eles se conheceram, namoraram, ficaram noivos e se casaram. Meu pai era apaixonado pela minha mãe, desde que ela era bem menina. Ele conta que passava pelo portão da casa dela e dizia “Um dia você vai se casar comigo!”. Ela ria e mostrava a língua pra ele! Desaforada ela, né? Pois é... Então, meu pai se casou com a minha mãe (e com toda a família dela, que precisava muito de ajuda), porque era apaixonado por ela. E, minha mãe se casou com meu pai porque achou que era a melhor coisa que ela podia fazer.

Devagarzinho, eles foram formando a vida deles. Conseguiram ter uma casinha, um carro, saíam pra dançar (eles adoravam dançar, mesmo depois de velhinhos eles continuaram a adorar dançar), viajavam, pescavam, acampavam! É isso mesmo! Acampavam! Eram dois aventureiros aqueles lá! Tudo estava indo até que direitinho. Meu pai tinha uma pequena fábrica de calçados junto com um “amigo” que era sócio dele. Eles faziam os sapatos e saíam por aí para vender.

Foi numa dessas viagens para vender sapatos (meu pai tinha ido para o Paraná com uma Perua Kombi cheia de sapatos para vender), que o “amigo” do meu pai deu o maior golpe nele! É! É! Agora você entendeu porque “amigo” estava escrito entre aspas, né? Pensa que eu não sei o que estou escrevendo? Pois eu sei, muito bem! Bom, voltando ao assunto... Quando meu pai voltou, o tal “amigo” tinha sumido com todo o dinheiro e deixado meu pai com uma porção de dívidas que ele nem tinha como pagar. Dureza, né? Algumas pessoas diziam pro meu pai que era pra ele ser esperto.“Pega sua família, Elzo, e vai embora! Deixa essa bagunça pra trás, que nem foi você que fez e vai começar uma vida nova em outro lugar!” Talvez, bem talvez mesmo, meu pai tenha chegado a pensar em fazer isso. Mas, com toda a educação que recebeu do avô André e da avó Amália ele não teve a covardia de aceitar a situação dessa forma. Pagou tudinho que devia. Ficou sem casa, sem carro, sem dinheiro, sem nada. Mas, ficou com a sua dignidade e a certeza de ser para suas filhas um exemplo de que não adianta fazer errado só porque o outro fez primeiro. E a gente aprendeu. De tanto escutar e ver, a gente aprendeu. No fim, o jeito era tentar começar a vida em outro lugar mesmo. Lá em Franca não tinha muita oportunidade de emprego. São Paulo era uma cidade que já estava crescendo muito naquela época. Então, meu pai pensou “Vou pra São Paulo, arrumo um trabalho e volto para buscar a Daisy (Daisy é minha mãe), e as meninas” (lembra que eu não existia ainda, né?).

E foi exatamente isso que ele fez! Tinha uma irmã dele, a tia Ida, que já morava em São Paulo. E, ele foi morar “de favor” na casa dela. E foi muito bem recebido e tratado com todo carinho. Ele ia a pé procurar emprego porque não tinha dinheiro pra pagar o ônibus. A casa da minha tia ficava muito longe do Centro de São Paulo, onde tinha que ir pra arranjar trabalho naquela época. O coitado do meu pai gastou muita sola de sapato pra arrumar um emprego. Mesmo assim, demorou muito, muito mesmo! Minha mãe ficou lá em Franca esperando meu pai voltar com a boa notícia de que tinha arranjado trabalho e que ia levar ela e as minhas irmãs pra morar em São Paulo. A minha mãe sempre teve esse sonho: Morar em São Paulo! Mas, no fundo, no fundo acho que ela tinha um pouquinho de medo de sair da cidadezinha dela. Sei lá, é isso que eu acho. Dona Daisy que era uma mulher danada de boa, forte e corajosa, fez o que podia pra ganhar um dinheirinho e sustentar a casa, até que meu pai voltasse com boas notícias. Ela lavava roupa dos outros, passava roupa dos outros, fazia comida pros outros, costurava, o que aparecesse (desde que fosse honesto), ela fazia. E, se não sabia fazer, aprendia! Nada era fácil. Muitas vezes, ela deixou de comer pra ter mais comida pras minhas irmãs. Tinha que rezar muito pra ninguém ficar doente, porque não tinha dinheiro pra ir ao médico. Mas, a minha mãe nunca desistiu. E criou minhas irmãs nessa dureza mesmo.

Acontece que sempre aparece um “anjo da guarda” na vida da gente quando as coisas ficam pretas! É! É verdade! Se você não sabia disso é bom ficar sabendo. Em geral, esses “anjos” vêm disfarçados de outras coisas. Eles não têm asas, nem tocam harpas. É por isso que a gente não sabe que são anjos, sacou? Pois é! O “anjo” da minha mãe atendia pelo nome de Dona Amália! Isso, mesmo! Viu como você é esperto (ou esperta!), era minha avó Amália! Ela mesma. A minha avó vinha toda semana com uma sacola cheia de verduras e legumes da feira, com a desculpa que nunca acertava no tanto que tinha que comprar e tinha comprado demais. Danadinha ela, né? Então, ela falava “Olha, Daisy, fica com essas coisas senão vai estragar lá em casa!”. Tudo isso era pra minha mãe não ficar sem graça de ter que aceitar a comida que a minha avó dava. Bonitinha minha avó, né? Eu também acho. Além disso, no fundo da sacola, sempre tinha um pouco de carne e um “dinheirinho” pra ajudar minha mãe.

Enquanto isso, meu pai continuava a andar, andar, andar e andar em São Paulo atrás de um emprego. Andava na chuva, andava no frio, andava no sol. Não tinha jeito! O jeito era andar! Até que, um dia, ele ia andando pela Avenida Ipiranga quando olhou pra cima e viu um baita de um prédio sendo construído. Nossa! Meu pai nunca tinha visto nada igual! Lá em Franca nem tinha prédio! E, meu pai olhava pra cima e nem conseguia ver onde é que o prédio acabava. Mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, ele acabou entrando na obra. Conversa daqui, conversa de lá e ele acabou conhecendo o mestre de obras, que se chamava Nicolau. O Seu Nicolau (que eu conheci depois!), era um homem grande e forte; um austríaco que tinha vindo embora da Áustria porque lá também não tinha trabalho. Já pensou que engraçado, em Franca não tinha trabalho e na Áustria, lá na Europa, também não! Parece até que só tinha emprego em São Paulo.

Por alguma razão que não tem como explicar, o Seu Nicolau e o meu pai ficaram amigos na mesma hora. O Seu Nicolau apresentou meu pai lá na obra. Faltava mais ou menos um ano para o prédio ficar pronto. Estava na fase de passar fio, passar cano, botar piso, pintar parede. Ave Maria! Tinha muito serviço! E, meu pai que nunca foi preguiçoso e é esperto pra aprender as coisas, viu que tinha uma oportunidade. Perguntou ao amigo Nicolau se não tinha jeito de arrumar um emprego pra ele. — Um emprego, Elzo? — É, Nicolau! Um emprego! — Mas, você não falou que era sapateiro, homem de Deus!? — Falei. E eu sou mesmo! Mas eu preciso trabalhar! Deixei minha mulher e duas filhas no interior. Elas estão passando falta das coisas, meu amigo. — Ai, ai, ai, Elzo! Você sabe passar fio, pintar, assentar piso? — Não sei, não! Mas é só você ensinar que eu aprendo! Seu Nicolau era forte e grande por fora, mas tinha um coração de manteiga, por dentro. E foi por isso, que ele respondeu: — Tá bom, Elzo! Vamos lá falar com o chefe! Seja o que Deus quiser. Assim, meu pai começou o começo de outra vida em São Paulo. Aprendeu tudo de tudo da construção do prédio. Conheceu até o arquiteto da obra, o Oscar Niemeyer! Chique, né? Todo entusiasmado, ele escreveu uma carta pra minha mãe pra contar as novidades. Já tinha meses que ele não voltava pra casa. Estava morrendo de saudades da mulher e das filhas. E prometeu, que assim que ele ganhasse o primeiro pagamento ia pra Franca ver a família e levar um dinheirinho pra ajudar. Assim ele falou e assim ele cumpriu.

Minha mãe e minhas irmãs ficaram muito, muito felizes! Foi uma alegria só na família inteira. Minha avó ajudou, como sempre, pra minha mãe esperar meu pai com uma comidinha caprichada no fogão. As três “meninas” do meu pai: mulher e duas filhas esperavam por ele no portão: ansiosas, arrumadinhas e cheirosas. Cheias de perguntas pra fazer e poucas histórias felizes pra contar. Foi tanta felicidade, tanta felicidade, tanta comemoração de amor, que meu pai voltou pra São Paulo e deixou minha mãe comigo dentro da barriga dela! É, agora eu vou entrar na história! Ufa! Finalmente! Já não aguentava mais ficar de fora. Só que, nem ele, nem ela, sabiam que eu já estava lá. Uma poeirinha de gente que ia virar outra filha, dentro da barriga da minha mãe. Foi só depois de algum tempo, uns dois meses, que minha mãe percebeu que estava grávida. E, eu não preciso dizer que ela ficou muito mais preocupada do que feliz, né? Pensa bem, já era difícil cuidar de duas crianças. Imagina de três! — Ai meu Deus do céu! Como é que eu fui fazer uma coisa dessas? – dizia minha mãe. — Calma Daisy! – dizia minha avó Nenê. — Calma, que jeito, mãe? Como é que a gente vai sustentar mais um filho? Não dá nem pra gente! — Calma Daisy! Deus sabe o que faz! Esse nenê há de trazer muita luz e sorte pra vocês. Lá na vida nova que vocês vão começar a ter em São Paulo, você vai ver! Não é por nada não, né? Mas, a Vó Nenê sabia das coisas. Afinal, era eu que ia nascer! Trazer luz e sorte! Eu! Claro! Ah, eu sou demais, né? (brincadeirinha). Bom, então, minha mãe escreveu pro meu pai pra contar a “novidade”. Meu pai ia lendo e ficando branco, lendo e ficando branco. — Que é que foi, homem de Deus? – perguntou o Seu Nicolau. — Ai, Nicolau, minha mulher escreveu. Ela está esperando outro filho, Nicolau! E agora? — E agora? E agora? Vivaaa!!!!!! Ei pessoal, vem cá dar um abraço no Elzo que ele vai ser papai!!!! Vivaaa!!!!

Meu pai olhava pra cara do amigo austríaco maluco dele e pensava “Ai meu Deus do céu!” Bem, agora é que não ia dar pra gastar nem um centavinho à toa mesmo, né? Então, meu pai tratou de guardar dinheiro e nunca mais voltou para Franca. Nem mesmo quando eu nasci. Pois, é. O tempo foi passando, a barriga da minha mãe foi crescendo e ela trabalhando cada vez mais pra não faltar nada lá em casa. Mesmo assim, só dava pra comprar pão pras meninas. Minha mãe comia mingau de fubá cozido na água e tomava café, preto mesmo. E, ela sempre disse que eu sou assim forte, inteligente e linda por causa do mingau de fubá com água! Vai ver até que é verdade, né?

A minha mãe já estava com uma barriga ENORME! Pelas contas dela já estava perto de eu nascer. Era véspera do dia de São Pedro, 28 de junho! Então, ela disse que se eu fosse menino, ia me chamar Pedro. Mas eu não sou menino, oras, sou menina! E ainda bem que ela não inventou de me chamar de Pedra, né? Era só o que me faltava! Ela acordou logo cedo e começou a sentir umas dores nas costas, diferentes das outras. Nem ligou, deu café com pão pras meninas, comeu o mingauzinho dela com café, levou as meninas pra escola e voltou pra casa.

No meio da manhã, enquanto lavava e passava roupa dos outros pra ganhar um dinheirinho, a bolsa rompeu. Já sei que eu vou ter que explicar! Quando rompe a bolsa, sai um monte de água de dentro da mãe da gente. Parece xixi, mas não é. É a água que fica lá dentro da barriga delas, junto com o nenê! Entendeu? Tomara que tenha entendido porque eu não sei explicar de outro jeito! — E essa agora? A bolsa rompeu! A criança vai nascer. Mas, Minha Nossa Senhora vai me ajudar! Vou acabar as encomendas de roupa, tirar as encomendas de pão do forno. Buscar as meninas na escola, dar almoço. Entregar as encomendas. Dar banho nas meninas, tomar banho e só depois disso tudo é que eu vou pra casa da minha mãe pra ver quem é que me ajuda a por essa criança no mundo! – falou a minha mãe lá com ela mesma. Minha mãe era DOIDA! Eu tava lá dentro da barriga querendo nascer. Imagina minha aflição quando escutei ela desfiar toda essa programação que tinha que acontecer antes de eu nascer. Ninguém merece! Acontece que foi assim mesmo que aconteceu! Primeiro ela fez tudinho que tinha que fazer. Não falou nada de nada, nem pra Eliane, nem pra Amália (minhas irmãs). De tardinha, passou a mão nas duas e foi andando cheia de dor de parto até a casa da minha avó. Ainda bem que não era tão longe. Chegando lá minha Vó Nenê logo viu que tinha alguma coisa diferente. — Ai minha filha! Tá na hora? ¬— Tá mãe! Tá na hora! ¬— Deita aí na caminha da sua irmã, Daisy. Que eu vou buscar o médico. Minha avó saiu pela porta, desabalada, com a Eliane numa mão e a Amália na outra. Foi procurar um médico pra ajudar minha mãe.

Minha mãe deitou. E esperou. Esperou. Esperou mais um pouco. Mas, aí, quem não aguentava mais esperar era eu, né? Haja paciência! Comecei a fazer força pra sair. Eu queria ver o mundo! Minha mãe viu que não tinha mais jeito. Agarrou a medalhinha de Nossa Senhora na correntinha pendurada no pescoço, pediu ajuda a Deus e me deixou chegar. O quarto era muito pequeno, e frio, e pobre. Mas era muito, muito limpinho. E tinha cheiro de talco. Só que o cheiro de talco não era do quarto, não! Era da minha mãe! Cheirinho bom demais da minha mãe, que já tinha me deixado chegar e já estava comigo no peito, dando beijinho na minha testa e chorando baixinho. Choro de amor. Choro de alívio. Choro de alegria, misturada com medo! O médico só chegou bem depois! Que sujeito inútil, né? Fala sério! O único trabalho dele foi cortar o cordão umbilical.

Minha mãe estava exausta, mas completamente ligada em mim. O médico cortou o cordão e disse: — Ela é linda, Daisy! Uma menina linda, cor de rosa com imensos olhos azuis! Minha mãe ficou muito quieta, só escutando. Muito cansada, com saudades do meu pai e com medo de não dar conta de me criar. — Ela vai se chamar Ana! – ela disse — Ana Maria, os nomes da avó e da mãe de Jesus. O médico e a mulher do médico, não podiam ter filhos. Sei lá o porquê. Então, ele olhou bem pra minha mãe, ali tão frágil e sozinha e disse: — Ô Daisy, dá essa menina pra mim e pra minha mulher! Ela vai ser criada com todo luxo e conforto! Você não tem condições de criar mais uma criança. Dá a menina pra nós, dá Daisy. Nossa!!! E não é que o médico além de inútil era biruta, lelé da cuca! Esse cara não conhecia a minha mãe! Coitado!

A minha mãe que já estava mais pra dormindo que pra acordada, virou um bicho! Nem parecia que tinha passado o dia lavando roupa, passando roupa, assando pão, dando café pras meninas, levando e buscando da escola, dando almoço, entregando encomenda, andando pela rua com a filha pra nascer até chegar à casa da minha avó! Dona Daisy deu um pulo da cama, comigo bem agarradinha ao peito dela, pegou o doutorzinho pelo colarinho e arrastou com ele pela porta afora. — Olha aqui, doutor! Deus me deu essa menina que vai trazer muita luz e sorte pra vida nova de que eu vou ter com ela, meu marido e minhas duas outras filhas lá em São Paulo! Ela é muito minha, tá escutando! E some da minha frente, antes que eu faça uma besteira! E ele sumiu. Claro que sumiu!

Eu cresci a minha vida inteira escutando minha mãe falar assim de mim “Essa menina é capaz de qualquer coisa! Não precisou de ajuda nem pra nascer!” Mas isso não é verdade, todo mundo precisa de ajuda pra muitas coisas nessa vida. Ninguém é capaz de resolver tudo sozinho. Ninguém! Então, tem histórias que fazem parte da nossa vida mesmo antes de a gente nascer, não é? É! Essa é uma história que faz parte da minha vida. Uma parte comigo dentro e outra parte comigo fora, porque agora eu já tinha nascido. E tinha uma vida inteira pra viver. Viver e me orgulhar de onde eu vim! Viver e fazer o possível para merecer ser filha da minha mãe. Pra sempre!


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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