pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

A DESCONSTRUÇÃO DO AMOR

Imagine que loucura seria se fôssemos capazes de nos apaixonar pelos horríveis defeitos do outro. É... Sabe aquelas coisas que elegemos para nossa lista do “insuportável”? Então... Neste caso seria necessário que alguém tivesse a ousada ideia de organizar um espaço, uma página, um aplicativo, sei lá... Um jeito desses aí pra se encontrar a suposta cara metade. Só que em vez de usarmos como critério tudo que queremos do ideal parceiro, escolheríamos o improvável. E, seríamos escolhidos de forma igualmente inédita. Quem sabe, assim, assassinando a idealização do outro, não nos descobríssemos menos engessados, menos pedantes e mais possíveis de amar o outro apesar de suas imperfeições e não pelo que sonhamos que ele seja.


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Nossa configuração emocional é um mosaico desconexo de inúmeras experiências que vamos colhendo ao longo da nossa existência. Acredita-se, inclusive, que essa memória afetiva remonta nossa vida intra-uterina. Quando sentimos que somos desejados pelos pais, que existe uma relação de afeto e receptividade por parte deles, até o nosso desenvolvimento físico sofre boa intervenção. Assim como, o contrário, uma gravidez indesejada, pode fazer com que a falta de envolvimento dos pais com o processo da gestação, interfira negativamente em nosso desenvolvimento.

Nascer não foi fácil para nenhum de nós. Acredite! Mesmo que você tenha nascido numa banheira de água morna, com música suave tocando e seu pai abraçando sua mãe, não foi legal sair de lá de dentro. É uma experiência forte de expulsão do ambiente restrito e seguro para um mundo estranho, frio e barulhento.

Passado o choque do nascimento, temos que lidar com o terrível problema de comunicação. Ninguém entende o que a gente quer, precisa ou deseja. E o que é que aprendemos a fazer para tentar conseguir o que queremos? Choramos, oras. Nossa maior fonte de amor, ao nascermos é sermos colocados ao seio de nossa mãe. Ao sermos amamentados, recebemos o conforto para a sede e a fome, físicas e afetivas. O contato físico é primordial para a manutenção da vida; na prática, é nesse momento que começamos a construir nossa identidade psico-afetiva.

Enquanto somos bebês nosso comportamento é regido pelo prazer. Somos extremamente sensoriais; o toque, o som da voz, os cheiros, os sabores tanto podem nos trazer sensações de conforto, quanto de desconforto. Aos quatro meses de idade já somos capazes de sorrir pelo prazer de ver o rosto da mãe ou de ouvir uma canção. Por volta dos seis meses, podemos ter algum objeto de apego: um ursinho, um travesseirinho, uma naninha; algo que nos devolva a sensação de segurança e afeto. Quando começamos a engatinhar, descobrimos o nosso corpo como instrumento de satisfação do desejo, que se intensifica com a experiência de dar os primeiros passos. Todo nosso corpo, nossa relação com o entorno, nossa capacidade cognitiva e nossa configuração afetiva têm seu desenvolvimento impulsionado pelo desejo de alcançar novas experiências.

Nossa identidade emocional se tornará cada vez mais complexa, à medida que formos nos relacionando com mais e mais pessoas e ambientes, além de nossos pais. É no contato com nossos pares que aprenderemos a nos relacionar, disputar, ceder, agredir, acarinhar; a depender de nossa necessidade naquele momento, naquela situação, naquele ambiente e com aquelas pessoas.

Construiremos nossa idealização do amor, a partir das experiências que formos acumulando em nossa memória de amar. Descobriremos o que nos traz alegria, satisfação e prazer; assim como elencaremos tudo o que nos deixa desconfortáveis, tristes, insatisfeitos e incompletos. Tudo isso não seria exatamente um problema, caso não fizéssemos dessas idealizações uma espécie de “receita da pessoa perfeita para nos fazer felizes”. Ora, isso não existe!

Precisamos desmamar dessa mania de querer que o outro venha formatado para satisfazer nossas mais secretas necessidades de afeto, sexo, companheirismo, tolerância e o que mais nossa infinita capacidade de elucubração amorosa for capaz de criar. Precisamos cortar o cordão umbilical que nos segura numa falsa sensação de que também nós somos o par perfeito de alguém.

Eu quero a permissão de sonhar com um mundo menos organizado, menos regrado, mais vivo e mais possível. Eu quero ter o direito de acreditar que um dia seremos menos hipócritas e mais felizes com nossas imperfeições. Eu quero ser capaz de mandar todas as idiotas convenções bem lá “praquele lugar”. Eu quero ser mais parecida com o que eu de verdade deveria ser se não tivesse passado tanto tempo tentando agradar.

Então, haveria essa maravilhosa possibilidade de nos apresentarmos despidos das embalagens. Finalmente poderíamos nos apaixonar pela pessoa errada e, no fim, descobrir que o errado dela fica tão bom perto do errado nosso. Haveria então, relações menos padronizadas, roteiros elaborados e rituais pré-estabelecidos. Olharíamos para o outro com a benevolência que somos capazes de olhar pra nós mesmos e nos enxergaríamos nos olhos daqueles que nos veem, prontos para nos assustar com a nossa verdadeira cara. Despertos de um sono demorado e cheio de utopias, descobriríamos que ao sermos capazes de amar o lado meio desastrado do outro nos libertamos da impossível tarefa de sermos impecáveis.


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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