pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

O QUE TIRA VOCÊ DO CONFORTO DA SUA CAMA?

Há uma voz sussurrando insistentemente em nossos ouvidos. Essa voz é persistente. Sua mensagem fica derrapando entre o incômodo e a sabotagem. Basta um descuido e a voz que sussurra, nos convencerá de que o que temos é pouco; o que somos não é o bastante; o que queremos precisa ser revisto, avaliado, mensurado. O que de fato, nos move nessa vida? O sucesso? A paz? A felicidade? O amor? O equilíbrio? Escolhas; ou você escolhe seu destino ou ele escolherá por você.


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Vivemos em função de satisfazer nossas necessidades, conscientes ou não. São as nossas necessidades que nos impulsionam e modelam nosso comportamento. Não importa nosso nível, social; cognitivo; financeiro ou afetivo; estamos sempre em busca de algo que nos complete e nos faça sentir plenos e realizados. O que interfere na maneira como vamos agir para alcançar o que desejamos, é a nossa percepção da realidade; nossa identidade ética e a maneira como nos organizamos em relação ao ambiente e às pessoas ao nosso entorno. A depender de nossos padrões morais, faremos escolhas mais ou menos honestas; egoístas ou altruístas.

A disposição em abraçar causas coletivas, por exemplo, nos levará a buscar organizações constituídas de pessoas que possuem desejos e motivos voltados para suprir as necessidades do grupo humano, em detrimento dos interesses individuais. A união desses esforços estabelece uma espécie de “contrato psicológico”, criando expectativas na promoção e realização de tarefas que almejem o bem comum.

Para a teoria psicanalítica, a necessidade é fundamentada dentro de uma estrutura psíquica, formada pelo id, ego e superego. O id é o grande responsável por nossas necessidades e motivações. O superego assume, nesta estrutura, o papel de censor, norteado pelos valores morais, culturais e sociais, de acordo com o meio no qual o indivíduo se desenvolveu. O ego faz a mediação entre as necessidades (desejos) emergentes do id e, também, as limitações impostas pelo superego, respondendo, da melhor forma possível, dentro das oportunidades encontradas no meio. No id encontram-se as pulsões e os instintos que efetivamente movem para a ação, pois criam um desequilíbrio na estrutura psíquica desencadeando uma reação aos estímulos, produzindo um estado de excitação e de tensão e consequentemente, uma mobilização para a restauração do equilíbrio psíquico (satisfação das necessidades). Quando nosso equilíbrio é perturbado, surge uma tensão que nos leva ao movimento de busca da satisfação que nos devolverá o equilíbrio. O tempo todo nós somos movidos por essa tríade: tensão, locomoção e alívio. O surgimento da tensão nos instiga a realização de alguma tarefa cuja finalização dissipará a tensão e fará retornar a sensação confortável do reequilíbrio conquistado. Ora, se nossas necessidades primordiais estiverem relacionadas ao sucesso pessoal, não mediremos esforços para adquirir as ferramentas necessárias que nos garantirão sua conquista. Se nossas maiores ambições estiverem ligadas ao alcance da paz interior, refletiremos um pouco mais a respeito das conquistas materiais, buscando equacionar a satisfação concreta de bens adquiridos, criando espaço nessa fórmula para uma vivência mais pautada no desenvolvimento espiritual. Por outro lado, se nossos maiores desejos estiverem centrados na felicidade amorosa, reorganizaremos nossa maneira de interagir com o mundo, criando comportamentos que nos coloquem no palco das relações afetivas, na tentativa de aliviar a necessidade do complemento emocional aspirado.

O fato é que nosso comportamento não é linear. Somos extremamente complexos e nossa natureza volúvel nos coloca à mercê de diferentes necessidades que podem acontecer simultaneamente, com graus de satisfação maiores ou menores, em conflito umas com as outras, modulando nossa maneira de estabelecer prioridades em nossas vidas. Então, na tentativa de administrar tantas vontades urgentes, hierarquizamos nossas necessidades. Atuamos visando a satisfação da necessidade mais emergente no momento, que se torna a protagonista sobre um cenário, constituído por todos os outros desejos. Esse cenário conta com elementos de experiências passadas, presentes e também, de situações inacabadas. Enfim, toda nossa vida está incluída nele. Ao longo do tempo, haverá um fluxo constante de necessidades que, ao serem satisfeitas, tornam-se parte do cenário e dão oportunidades a que outras necessidades ocupem o lugar de protagonistas.

Esse constante processo traz um enorme cansaço físico, mental e psicológico, quando centralizamos nossa energia na satisfação única de desejos pessoais. No entanto, há uma luz, e ela nem está lá no fim do túnel. Trata-se de uma luminosidade presente na escolha da motivação. Curiosamente, à medida que mudamos o nosso foco para fora de nós, nos descobrimos como seres dignos de uma missão menos ordinária nessa vida. Quando somos capazes de voltar nosso desejo para ambições que envolvam o bem de outros, além do nosso, crescemos em maturidade emocional, evoluímos moralmente e nos libertamos da camisa de força do sucesso a qualquer preço.

A vida é jogo de grupo, é maratona; não é corrida de cem metros rasos. Não é o mais rápido que sairá mais fortalecido dessa prova. A linha de chegada nos espera mais flexíveis, persistentes e disponíveis para cruzá-la de mãos dadas com nossos semelhantes. Pode ser que acabemos demorando mais para chegar ao objetivo. Mas, chegaremos inteiros. E, não, com nossos pedaços perdidos por aí, trocados por momentos solitários de sucesso e popularidade. Ao abrir os olhos, pela manhã, procure buscar em seu coração a resposta para essa pergunta “O QUE TIRA VOCÊ DO CONFORTO DA SUA CAMA?” E, quem sabe, você não descobrirá que há lá fora tantos motivos pra mantê-lo de pé, quantos para mantê-lo vivo, não dentro de você mesmo, mas fazendo coro com as outras vozes que habitam o mundo.


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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