pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

VOCÊ NÃO PRECISA MORRER PARA CONHECER A MORTE!

Não importa quantos anos você vai viver. Não importa o que você pretende fazer com o seu tempo de vida. Todos nós, mais ou menos dignos; mais ou menos ricos; mais ou menos bonitos; mais ou menos “o que quer que seja”, nós terminaremos essa jornada do mesmo jeitinho: MORTOS!


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Ahhhh, não se preocupe... Esse nem é um daqueles textos tétricos que falam sobre o fim do mundo, ou sobre como é inevitável envelhecer e morrer numa cama quentinha. Calma! Esse é um texto sobre a morte de todos os dias; pequenas apoteoses pessoais que nos levam ao limite. É um convite a olhar bem nos olhos da morte e descobrir que ela faz parte de cada uma de nossas experiências. É uma chance para você rever suas crenças e, quem sabe, concluir que nada pode ser mais perigoso (e maravilhoso!) que viver. Viver é muito, mas muito mais arriscado do que morrer!

O filósofo grego, Epicuro, apresentava teorias e opiniões tão revolucionárias, que o impacto causado por elas 200 anos A.C., continua sendo impressionante para os dias atuais. Adotando uma concepção materialista da realidade, Epicuro pretendia compreender os dois temores que impediriam o ser humano de encontrar a felicidade: o medo dos deuses e o temor da morte. Epicuro afirmava que os deuses de fato existiam, mas que estariam tão envolvidos com suas vidas perfeitas, que sequer se lembrariam da nossa miserável existência. Os deuses viveriam em sagrada harmonia nos espaços que separam os dois mundos: real e divino. O que dizer da morte, então? De acordo com o filósofo grego, não há porque temê-la, afinal ela não passa da dissolução inevitável do aglomerado de átomos que constitui o corpo e a alma.

A morte, portanto, não existe enquanto vivermos e nós não existiremos mais quando ela chegar. É insano temer a morte, no entanto, o que de verdade nos aflige é pensá-la, prevê-la. Temer a nossa própria não-existência futura é algo tão irracional como lamentar a não existência de antes do nosso nascimento. Tentemos compreender que a morte para nós não é nada, visto que qualquer alcance do bem ou do mal reside nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.

Procuremos aprisionar a morte em sua própria armadilha, conduzindo-a a um lugar onde não seja nada para nós, onde não tenha relação conosco. Ela não é boa nem má, como podemos pensar, quer seja por temê-la ou por desejá-la. Procuremos atingir a sabedoria necessária para conseguirmos relativizar nossos temores, reservando ao final o seu espaço-tempo adequado: O FIM! Ora, ninguém sabe quando será ou como será esse fim, logo, ocupemo-nos de viver; olhemos para vida como uma dádiva e não um fardo. Assim, compreenderemos a morte em sua simplicidade, sem a fantasia da dor e do sofrimento; e decifraremos a vida em sua beleza efêmera, sem a magia da permanência e da imortalidade.

Engaiolados em armações de ouro, corremos o risco de passar a maior parte de nossas existências acumulando coisas que nunca teremos tempo de usufruir. Dar exagerada importância a aquisição de bens valiosos, rouba de nós a capacidade de viver livremente. Quanto maior for o nosso tesouro, mais amedrontados seremos de perdê-lo. Perder é uma pequena experiência de morte; passado o impacto do momento da perda, todos os outros elementos da vida se rearranjam num outro desenho. A perda vai sendo diluída nas malhas do tempo, até perder o significado.

Obstinados pela busca do amor, corremos o perigo de nunca sermos capazes de relaxar em nossa própria presença; de entender que não importa o que aconteça de bom ou de mal nas nossas aventuras afetivas lá fora, sempre teremos para onde voltar se compreendermos que, mais que tudo, nós precisamos nos sentir seguros, confortáveis e amados em nossa própria companhia. O fim de um amor é tanto uma pequena morte quanto o é o instante de um orgasmo. Aquele átimo de tempo em que nossas percepções do entorno ficam suspensas; o mundo silencia para reverenciar nosso silêncio físico, de dor ou de prazer.

Anestesiados para os riscos da vida nós vamos, aos poucos, nos acostumando com uma existência tão estéril de ameaças à nossa tacanha percepção de segurança, que ficamos qual bonecos de pano com olhos de vidro e sorrisos costurados em nossa face. Sorrisos sem vida. Viver sem riscos é também uma pequena morte diária, não importa se estamos próximos ou distantes do fim. Viver é para quem tem coragem de abraçar a morte das crenças adequadas, enlatadas, pasteurizadas. Para compreender a vida é preciso estar vivo, é preciso entender que nossa finitude é parte do processo, que estamos aqui numa breve viagem e que a morte não é problema nosso!


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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