pelo avesso

O impacto do mundo lá fora aqui dentro de nós

Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê

MORAR NO FUNDO DO POÇO

É preciso cautela para não acreditar que o que é ruim é inevitável. Que o pior já passou. Que o perigo só bate nas outras portas. É preciso coragem para reconhecer que se chegou ao limite máximo do pior que poderia acontecer. É preciso honestidade para conquistar a própria confiança e perceber que o fundo do poço pode ser um lugar até confortável para quem se esqueceu que existe um mundo lá fora, esperando pelos corajosos. Pelos corajosos!


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As crises existem, são reais e são cíclicas; e a única maneira de enfrentá-las é buscar entendê-las. Quando a crise atinge um grupo grande de pessoas, ainda que essas pessoas sejam diferentes entre si, há um sentimento de nivelação. É como se a desgraça tivesse o dom mágico de unir, pelo desespero, os que têm muito, os que têm pouco e os que têm nada. Isso vale para qualquer tipo de crise; seja ela moral, econômica,existencial, social ou política. O mais incrível de tudo é que, em situação de crise coletiva, os que têm nada se encontram em posição de vantagem em relação aos que têm tudo. Que louco, não é? Mas é verdade! No caos, os menos favorecidos vislumbram uma oportunidade, enquanto os que se habituaram à fartura enxergam uma ameaça; e os que têm pouco, podem não perceber, mas é a sua chance de migrar para um ou para outro lado.

Do ponto de vista econômico, a teoria das crises cíclicas do capitalismo está baseada na teoria marxista. Marx estava convencido de que haveria uma série de contradições no método capitalista de produção. Para ele, o capitalismo seria um sistema econômico autodestrutivo, porque sendo desprovido de controle racional, seu destino é ir ao encontro de sua própria destruição. Imagine que o industrial capitalista tenha dinheiro sobrando e use parte dessa sobra para modernizar sua indústria. Ele compra novos recursos tecnológicos para aumentar seu próprio poder de competição e, por isso, não precisa mais de tantos empregados. Acontece que ele não é o único a pensar assim. O que significa que a produção como um todo vai se tornando mais eficiente; assim, as indústrias, pouco a pouco, vão sendo concentradas nas mãos de uma minoria. Como consequência, cada vez menos trabalhadores são necessários, o que resulta em mais e mais desempregados. Aumentam, portanto, os problemas sociais. Para Marx, crises como essas seriam um sinal de que o capitalismo estaria marchando rumo à própria destruição. Na descrição de Marx, o capitalismo possuiria vários outros elementos autodestrutivos. Sempre que o lucro for investido nos meios de produção, sem que haja um excedente suficiente para garantir a continuidade da produção a preços competitivos, o dono da indústria terá de baixar salários a fim de poder comprar matérias-primas para a produção. Quando isso ocorre em grande escala, os trabalhadores empobrecem tanto que não podem comprar mercadorias. Com a queda do poder de compra, o colapso do sistema se torna iminente.

Ahhhh, meu assustado leitor... Nessas alturas você deve estar tendo uma estranha sensação de reconhecer essa situação, não é mesmo? Sinto não poder consolá-lo neste momento. É este exatamente o preço que pagamos por colocar toda a nossa expectativa de realização no nosso poder de compra. Estamos absolutamente equivocados e não nos damos conta de que há anos reproduzimos modelos econômicos e sociais alheios, sem percebermos que temos outra configuração, seja ela geográfica, histórica, política ou social. Estamos há séculos construindo uma trajetória vazia, já que nos convém a anestesia moral e intelectual. Não encontramos soluções porque não somos capazes de parar, pensar, analisar e reconhecer que podemos ser donos de nossas próprias histórias e que há soluções para os nossos problemas. Nós as encontraremos quando pararmos de idolatrar outras civilizações “de primeiro mundo”, que, caso você não tenha percebido, estão caminhando para um colapso iminente.

Tudo bem! Pode ser que essa questão de crise no mundo ou no país seja por demais complexa para nossa cabeça. Vamos por partes. Reserve cinco minutos para analisar, com cautela, aquela área da sua vida que anda precisando de uma auditoria. Pronto? Escolheu? Agora, faça a si mesmo algumas poucas perguntas. Como foi que eu cheguei aqui? Qual é a minha responsabilidade nessa confusão? Quais são os meus recursos reais para sair dessa situação? E,a pergunta mais importante... Eu quero sair? Isto posto, meu amigo leitor, bote um sorriso na alma (na cara só, não vai adiantar!); arregace as mangas e as barras das calças (tem lama no caminho!); olhe pra dentro e enxergue pra fora. A mudança que você tanto espera, está na mesma situação: esperando por você!


Ana Macarini

As palavras que escrevo não me pertencem. Elas são resultado da minha interação com o mundo. São células de mim, que morrem no papel e renascem nos olhos de quem as lê.
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