Leandro Serpa

O Enigma de um dia

O artigo O enigma de um dia é um diálogo sobre arte, morte e vida. É uma tentativa de atravessar a barreira da imagem e da memória, de descobrir o outro lado, o após indefinível, e desvendar os mecanismos ou acasos da sociedade e da cultura.
Trata-se de um tempo – espaço em suspenso, onde os limites se confundem se fundem e são redimensionados pela experiência humana.
Neste caso a imagem de Mona Lisa é o ponto de investigação, uma passagem que permite a especulação. Um lugar que agrega sentenças, homens e crânios.
Este diálogo tenta abranger as dimensões da angustia e da duvida e assim especular sobre as questões que envolvem a Arte, a morte e a vida.


Meu caro Adriano. Escrevo-te estas humildes palavras com o pesar de que desde o inicio estarei a importunar – te e de pronto te peço desculpas antecipadas. Sinto incomodá-lo, porém ignorante que sou e afetado que estou, considero justo romper o silêncio e despertá-lo.

Esta semana presenciei eventos que afetaram meu equilíbrio. No início da semana, talvez segunda ou terça-feira, levei minha mãe num velório e me senti consternado ou atiçado pela expressão do defunto. Numa dessas aulas da faculdade me chamou a atenção uma imagem da História da Arte. À noite estas imagens se somaram a alguns problemas que tenho enfrentado ultimamente. Acordei no meio da madrugada angustiada. Pulsando em fúria e para liberar esta energia ruim escrevi algumas palavras no meu caderno de duvidas. Horas depois tranqüilizado por ver minha raiva transformada em algo palpável me veio à mente a sua imagem. Não me pergunte como estas coisas acontecem. Minha inteligência neste assunto é mínima, mas o fato é que estava lembrando-se de você. De nossos momentos no trabalho, aqueles problemas que enfrentamos na linha de produção, das garotas e você, modéstia a parte, ainda me deve umas aulas, mas encurtando os fleches diria que minha mente se concentrou nos momentos finais, anteriores e posteriores a sua inesperada partida. Adriano tu sabes o quanto te admiro. Tu és um dos poucos amigos que tenho e desconfio que minha mente, antes de mim, percebeu que preciso da sua ajuda. A imagem que me afetou e que neste momento sinto que estamos ligados a ela é uma tela de dimensões pequenas, um pequeno “gesto” de uma alma iluminada. Estou falando da Mona Lisa de Leonardo Da Vinci. Peço que veja esta obra. Confesso que já a tinha visto outras vezes, porém agora se lembrando do gesto aparentemente inconseqüente de Duchamp que pôs bigodes e barba nesta imagem, me sinto confrontado, como se estivesse diante de uma questão óbvia, mas perdoe minha ignorância, não consigo uma resposta apenas questionamentos e afinal Qual é o segredo? Existe mesmo um enigma? Ou, Qual é a jogada? E será que haverá outro lance? Adriano se comunica: - Leandro. Agradeço pela carta e pelos elogios que fizeste a este insignificante. Do outro lado que estou distante do barulho e dos problemas sem solução posso falar com tranqüilidade e descobri amigo que o silêncio é uma fonte de inspiração, ademais não me importa ser despertado durante esta noite escura e vazia para atender a um amigo com uma questão tão pertinente. Suas duvidas apresentam tantas faces e caminhos que poderíamos viajar séculos e não chegaríamos a uma resposta definitiva. De fato estamos diante de um enigma, porém que apresenta a resposta em sua própria face, mas o que é mais importante observar é os “reflexos” que tais imagens projetam na sociedade e de um modo tão poderoso que não conseguimos compreender. É amigo. Sua intuição procede e posso te dar uma resposta a questão inicial que tanto afeta - o. Para isso preciso da sua ajuda. Espero que esqueça por um instante as gozações do trabalho e todas aquelas vezes que o deixei sem graça diante de nossos colegas e confie em mim. Se estiveres diante da imagem de Mona Lisa peço que fixe seus olhos neste retrato, ou se não as tens diante de ti faça um exercício de memória. Agora imaginando eu que esteja diante de uma das incontáveis reproduções da senhora Lisa, desejo que a observe por alguns segundos. Passado este tempo feche seus olhos. Desculpas, se te fiz ficar muito tempo neste estado, mas na situação que me encontro qualquer gesto é motivo de gargalhada. Por favor, desconsidere as tolices deste seu amigo idiota e volte à imagem. Se não conseguires mentalmente cubra os olhos de Lisa com alguma coisa qualquer, de repente uma caneta sirva. Retorne as suas lembranças e o seu momento de afetação. Fixe novamente atenção na imagem e imagine os olhos dela fechados, o sorriso enigmático e me responda amigo: - Não estas diante da imagem da morte? E o que é problemático na questão: - Como pode uma sociedade venerar a morte sem ao menos se dar conta disto? Leandro responde: - Adriano suas respostas ma deixaram perplexo, mas refeito do susto te remeto a seguinte questão: - Porque um homem sombrio como Duchamp seria capaz de uma atitude tão irresponsável como aquela? Estaria ele brincando com a morte? Adriano; - Leandro. Confesso que ultimamente eu tenha me sentido mal, cansado, mas suas questões me despertaram, pelo menos parcialmente, de maneira que estou considerando a hipótese de ser seu conselheiro “espiritual”. Que resposta pode dar a esse desocupado? Bem, desculpe minha ironia e indo ao assunto que nos une nesta hora te adianto que não tenho nem metade das respostas e minhas palavras são assim como as suas, suposições, infinitas questões sem resposta. E falando neste nosso amigo o senhor Duchamp, confesso a ti que ele não é tão sombrio quanto parece e até sabe contar piadas, veja só e outro segredo não joga tanto xadrez assim como andam dizendo por ai. Posso adiantar-lhe que Da Vinci e Duchamp são cárceres da mesma cela, comungam o pão e o vinho da mesma safra. Meu amigo nesta “caverna” onde me encontro custa muita energia o menor gesto, de maneira que soprar minha voz em seus ouvidos é um martírio ao qual não imaginas. Aqui é proibida a comunicação e cada palavra pronunciada tem o valor de uma orelha arrancada. Peço que preste atenção na sociedade, como se comporta esta “máquina abstrata”. Muito do que esta na imagem se corresponde à vida material, assim como você suponho que o trabalho destes dois homens “encerra” um ciclo da atividade humana, mais precisamente a ocidental. Quanto as outras questões como o fato de Da Vinci desenhar cadáveres ou Duchamp jogar xadrez e estudar cálculos, espero que consiga as respostas entre seus colegas e professores. Você me mostrou algo que eu jamais ousaria imaginar. A morte não é um mal isolado, ela faz parte da unidade cíclica que compõe a vida, pertencendo, portanto a “roda” da vida, porém suas questões apontam para uma sociedade que não possui este conhecimento e, no entanto considera a morte um mal “alheio e necessário”, e por isso avança vorazmente furando, rasgando, escalpelando, degolando e fuzilando até o êxtase. Desejam alucinadamente encarar a imagem da morte e bem sabemos isto não é impossível. Como sabes posso falar com propriedade e afirmo que não é possível aos mortais enxergar o ultimo instante de modo que a passagem é feita na sombra escura. No instante supremo, na hora penúltima nossos músculos enrijecem nossa mente “trava” e apagamos. Posso afirmar ainda que a aventura humana em busca da máscara, do reflexo da morte e da passagem para a terra dos mortos, só encontrará em si mesma o fim da existência humana e a extinção de toda a vida. Calar me hei agora amigo e desde já te desejo sorte em suas pesquisas. Não se preocupe com as dores de um apartado e siga. É isto o que desejo. Confesso que brilha em meus olhos a curiosidade e espero ansioso que me tragas novas soluções para esta questão tão importante. Fecharei meus olhos neste instante. Adeus amigo, ou melhor, até breve.


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