perplexidade e silêncio

Encontrando poesia e bonitezas da vida por aí.

Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma.

Que saudade do silêncio

Pare agora mesmo, escute bem e conte: quantos barulhos estão ao seu redor neste momento? Todos eles afetam o funcionamento do cérebro - e ele, mais frequentemente do que imaginamos, precisa de silêncio. Nós precisamos de silêncio.


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Você tem visto o silêncio por aí? Faz tempo que não encontro ele. Se você o ver, por favor, diga que mandei um oi e que estou com saudades. Ele faz muita falta.

Neste momento, há seis barulhos ao meu redor: os carros na rua movimentada onde moro, o elevador e suas engrenagens, o vizinho do lado usando o liquidificador, a vizinha de cima andando de um lado para o outro, o som constante da minha geladeira e o reator do restaurante ao lado. Desliguei a tevê, porque estava buscando o máximo de silêncio possível, depois de um dia inteiro de trabalho com o caos da Avenida Paulista nos meus ouvidos.

Fiquei sabendo que, se eu quiser ficar pertinho do silêncio, a melhor opção é fazer as malas e viajar para a Finlândia. O departamento de Marketing do Ministério do Turismo de lá, há alguns anos, percebeu que o maior diferencial que o país tinha era exatamente ele, o silêncio. As paisagens maravilhosas e a natureza fantástica não seriam suficientes para atrair turistas, uma vez que vários outros países também oferecem isso. Os finlandeses, então, notaram que eles tinham algo que a maioria do mundo perdeu: o silêncio.

Imagino que vender o silêncio como um produto seja algo, no mínimo, complicado. Então, para pautar a campanha de Turismo em algo mais concreto, eles recorreram a diversas pesquisas científicas que mostram os efeitos que o silêncio tem em nosso cérebro. Quando escutamos um barulho, nosso sistema nervoso capta o som e o transforma em uma sensação, a partir das ondas cerebrais. Mesmo quando estamos dormindo, o cérebro continua captando os ruídos no ambiente que estamos, e continua processando todos eles. Esse fluxo constante de "som - processamento nervoso - processamento cerebral - sensação" nos deixa em eterno estado de alerta e estresse.

Ou seja, não é difícil perceber que, uma vez em silêncio, nosso cérebro tem a chance de respirar e descansar um pouco. Diversos estudos provaram esta inferência como, por exemplo, o estudo de 2006 do italiano Luciano Bernardi entitulado "O efeito fisiológico do silêncio". Ele começou seu estudo querendo estudar os efeitos que as músicas provocam no cérebro de uma pessoa - quem for apaixonado por música deve procurar este estudo dele, pois os processos neurais que a música desperta são incríveis de se ver. Mas, o que chamou sua atenção foi que os períodos de silêncio entre uma música e outra deixavam o cérebro mais relaxado do que qualquer tipo de música (mesmo as músicas tidas como calmas e tranquilas).

Além disso, nosso cérebro foi projetado (pela evolução, pela biologia) a responder ao silêncio, afinal, o silêncio pode ser sinal de que há algo errado ou perigoso perto de nós, e precisamos ouvi-lo atentamente. Até percebermos que o silêncio é só silêncio, e não uma ameaça, o cérebro fica em estado de alerta. Após isso, ele relaxa.

Ok, as pesquisas científicas são magníficas e eu poderia citar inúmeras, mas os efeitos do silêncio vão além dos cerebrais, disso eu tenho certeza. Houve uma enfermeira chamada Florence Nightingale, que nasceu em 1820 e morreu em 1910, aos 90 anos. Ela foi a fundadora do movimento de enfermaria médica profissional, como conhecemos atualmente (antes dela, era um caos total). Ela se recusou a ser mais uma mulher-casada-cheia-de-filhos da época e resolveu estudar e ter uma profissão. Se rebelou contra sua família e contra os padrões convencionais de ser mulher e, ao ver um mendigo morrer por maus tratos no hospital, decidiu mudar este cenário. Depois de um tempo, ela criou a primeira Escola de Enfermagem, em Londres, e ganhou diversas condecorações da Rainha Vitória.

Uma das coisas que Florence Nightingale acreditava era de que o o barulho maltratava seus pacientes e faziam com que eles adoecessem mais e mais rápido. Ela acreditava que, para que um paciente tivesse uma cura completa e eficaz ele precisava, predominantemente, de silêncio. Ela escreveu em seu diário: “Unnecessary noise is the most cruel absence of care that can be inflicted on sick or well.” Ou seja, "Barulho desnecessário é a falta de cuidados mais cruel que podemos infligir aos doentes e aos saudáveis."

Fiquei imaginando Florence nos dias de hoje, com todos estes mil ruídos que temos ao nosso redor. Com certeza eu e ela conversaríamos, reclamaríamos de todos esses sons abusivos e chegaríamos à conclusão que o barulho faz mal para o cérebro, para a saúde e para o espírito. É como se o barulho nos sobrecarregasse e nos impedisse de ouvirmos a nossa própria voz, que fica lá embaixo escondida e abafada pelo mundo. Uma cura - não só do corpo, mas também da alma - só pode vir através do silêncio e dos encontros lindos que temos com nós mesmos dentro dele. Podem transformar em ciência, mas o silêncio, na sua essência, é pura poesia.


Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma..
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