perplexidade e silêncio

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Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma.

Os pássaros não se atrasam

O Ano Novo é só um número: uma breve reflexão sobre a invenção do Tempo.


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A frase que dá título ao artigo, "Os pássaros não se atrasam", é de autoria de Mitch Albom em seu livro "O Guardião do Tempo". O livro conta a estória de Dhor, o homem responsável por inventar como contamos o tempo, em um tipo rudimentar de relógio e calendário, e de como sua vida se cruza com a trajetória de dois mortais, Sarah e Victor.

O livro em si não é sensacional, na minha opinião (por causa da técnica de escrita de Mitch e da estrutura narrativa), mas isso não vem ao caso agora: o que importa é que ele me fez refletir sobre o Tempo, com T maiúsculo.

No começo, há mais de três mil anos, as pessoas começaram a pensar em formas de medir o tempo pois precisavam entender as estações do ano e, consequentemente, quando haveria ou não caça e comida naquela região. E elas mediam a passagem do tempo pelo movimento do Sol e da Lua, sempre constantes. Nesta escala, parece bastante útil e indispensável que houvesse algum tipo de medição. O primeiro calendário similar ao nosso foi inventado pelos Sumérios, lá pelo ano 5.000 a.C., quando o ano era dividido em 12 períodos de 30 dias e cada dia tinha 12 pedaços de 2 horas cada. Mas, em um certo momento, a sede por controle do ser humano transformou esta medição em uma escala muito maior, e hoje, toda a nossa vida é controlada exatamente por aquilo que quisemos controlar: o tempo.

Se todos os relógios do mundo inteiro parassem, o Tempo continuaria seguindo seu fluxo constante sem se perturbar. A única coisa que mudaria é que nós perderíamos a noção dele, mas ele não deixaria de existir e de acontecer mesmo que o ignorássemos. O Sol e a Lua continuariam surgindo e desaparecendo, a maré continuaria indo e vindo e a nossa vida seguiria, sempre em direção ao fim - quiséssemos ou não.

Se alguém decidisse que, de hoje em diante, o dia teria 30 horas, e cada hora equivaleria a 45 minutos, e cada minuto correspondesse a 17 segundos e, então, uma criança nascesse nestas condições de medição do Tempo, seria tudo muito natural para ela e ela - assim como nós - não questionaria. Afinal, as coisas são assim, não são?

Não. Todas estas noções tão elementares sob as quais vivemos são inventadas. E não somente vivemos sob elas como definimos uma série de coisas das nossas vidas em função delas: com quantos anos quero me casar, qual é minha agenda no trabalho, quanto tempo vou gastar na fila do banco, quanto tempo fiquei no trânsito, quantas horas irei dormir, está na hora do almoço. São conceitos tão enraízados no dia-a-dia que, raramente, nos perguntamos quem inventou, onde começou e como era antes.

E se não medíssemos o tempo como fazemos e só vivêssemos o Tempo, como seriam nossas vidas?


Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma..
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