perplexidade e silêncio

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Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma.

Cinéfilos são entediantes

A agonia de presenciar pessoas tornando-se críticas de Cinema no pré-Oscar.


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Tempos atrás, uma amiga e eu fazíamos parte de um grupo sobre cinema em uma rede social. O grupo tinha uma proposta interessante: a cada semana, um filme clássico ou conceituado era escolhido e os integrantes do grupo deveriam assistí-lo para, depois, compartilhar as opiniões e percepções sobre aquela obra.

Rapidamente, percebemos o padrão: ninguém nunca dizia não ter gostado do filme, por mais chato, entediante, confuso ou ruim que ele fosse. Afinal, se alguém dissesse que uma determinada obra-prima do cinema clássico era uma porcaria, aquela pessoa, provavelmente, seria tida como ignorante, burra ou preguiçosa. As pessoas preocupavam-se em enveredar em debates sem fim sobre detalhes que elas, e só elas, brilhantes e intelectuais que eram, entendiam.

Resultado: minha amiga e eu saímos daquele grupo, aliviadas por nos livrarmos daquele tédio cinéfilo. Mas, infelizmente, estes intelectuais de plantão voltam a aparecer em época de Oscar. Já não basta o Carnaval e Big Brother nesta época do ano, e temos que aguentar mais estes chatos também.

Dos filmes indicados a Melhor Filme no Oscar deste ano, assisti três de oito. E só percebi que eles faziam parte das indicações ao Oscar depois, pois não era minha intenção vê-los para entrar nos tais debates chatos e sem fim.

Assisti, primeiro, "Boyhood", há algum tempo atrás, porque a premissa parecia boa. Em todos os lugares, li críticas positivas, como se o filme fosse algum transgressor de paradigmas e fosse fazer história no mundo do Cinema. Quando o filme terminou, meu pensamento foi: "Só isso?". O filme demorou dez anos para ficar pronto, e jura que o diretor fez uma estória linear e sem emoção assim? Então tá.

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Depois, assisti "A Teoria de Tudo". Deste sim gostei, até porque minhas expectativas estavam, talvez, bem alinhadas à realidade do filme, mais uma narrativa sobre o amor e os relacionamentos do que um filme de superação sobre Hawking. Achei não óbvio, pois é o tipo de trama que cairia no clichê com muita facilidade. Me emocionei e, com isso, concluo que a obra alcançou seu objetivo. Acho eu.

E, por fim, assisti "Birdman". Estava empolgada por causa do elenco, onde vi os nomes de vários dos meus atores preferidos. Li que a fotografia era diferente, a forma de conduzir a câmera e não-sei-mais-o-quê técnico era inovador e desconcertante. Quase na metade do filme, meu único pensamento era como sair da sala de cinema no meio da projeção sem atrapalhar as outras pessoas. Pior ainda foi ler os comentários dos usuários num site famoso de entretenimento, aquele com ovos, dizendo que este filme era uma obra-prima sem igual. Sério, gente?

Aconteceu mais ou menos o mesmo com "Garota Exemplar". É surpreendente sim,porque quebra um paradigma de que só os homens são psicopatas (pelo menos, no cinema). Mas e daí? Quebrar um paradigma, na minha opinião, é quase uma obrigação se quisermos falar de Arte, então não vejo motivos para tanto alarde quando algum artista faz sua obrigação. Não deveria causar tanta comoção assim quando alguém faz uma arte boa.

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Tudo isso me fez pensar: falta arte boa, não falta? Acredito que se, atualmente, as pessoas fossem mais autênticas e vivessem menos pelas aparências (reais e virtuais), consequentemente, mais arte genuína apareceria por aí. Não só no Cinema, como também na Literatura, na Arquitetura, em tantas outras manifestações. O que é considerado bom no cinema, hoje em dia, passa pelo crivo ferrenho destes chatos cinéfilos, detentores de uma verdade absoluta completamente inventada. E quando uma obra chega à massa, que é sempre menosprezada mesmo quando gosta de algo digno de valor, tal obra nunca será considerada merecedora, pois, aparentemente, para uma arte ser boa atualmente ela precisa: 1) não ser compreendida pela maioria, o que torna quem a "compreende" uma pessoa de alma e moral elevadas acima da humanidade e 2) não pode cair no gosto popular, pois este não vale nada.

Se gostar de Cinema (com C maiúsculo), faz de você um chato, prefiro ser ignorante, então. Prefiro conversar com aquela minha supracitada amiga sobre um filme qualquer de super-heróis. Não preciso ser crítica chata de cinema para ser considerada inteligente e, quem precisa disso, então vai ver precisa também de um pouquinho mais de leveza na vida.


Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma..
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