perplexidade e silêncio

Encontrando poesia e bonitezas da vida por aí.

Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma.

o misterioso caso do sumiço dos caixotes

sobre a falta que sinto das coisas antigas


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(foto by Paige Nelson)

Entrei na adega ao lado da minha casa, cujo proprietário é um senhor simpático com jeito de larguei-tudo-para-fazer-o-que-gosto. Não há sofisticação nem goumertização por ali: é uma adega com caixas de vinho empilhadas por todos os cantos, cadeiras meio envelhecidas com palhas soltas, mesas bambas e prateleiras tortas. Todos estes detalhes imperfeitos fazem do lugar algo acolhedor, confortável e nostálgico. Da adega, exala um aroma delicioso de pão torrado e queijo, receita de sua esposa, a única comida disponível no local. Nem precisaria de outra. O tempero de vida doméstica é o melhor de todos.

Depois de procurar em diversos lugares (mercados, quitandas, e até mesmo pelas ruas, nos lixos alheios) e pedir a vários feirantes, decidi mudar minha estratégia na busca por caixotes de madeira para usar na decoração da casa. Dizem os feirantes que os caixotes de madeira são, cada dia mais, artigos raros e de luxo, pois estão sendo substituídos por recipientes de plástico - sem graça e sem vida. Sem aquele charme de coisa antiga. Compartilhei minha frustração com o Dono da Adega, que também me informou que seus vinhos não vem mais nestes caixotes que procuro, e sim, em caixas de papelão completamente sem personalidade.

Meu suspiro de decepção foi longo o suficiente para abrir uma brecha para um bate-papo. Expliquei: meu desânimo não é por não encontrar o tal do caixote de madeira, e sim porque o mundo está ficando esvaziado. Aos poucos, todas as coisas bonitas e únicas vão sendo substituídas por itens sem identidade. Os caixotes charmosos de madeira; as antigas garrafas de vidro de leite; as cartas com caligrafias únicas que tornaram-se e-mails e, depois, mensagens de celular; os livros que não envelhecem nem amarelam porque são eletrônicos; as roupas que são todas iguais na rede de lojas, sem o charme do erro do ponto da costureira da esquina. Os mapas deram lugar ao GPS, as anotações de viagem agora estão nos aplicativos e as fotos não são mais impressas. Nem saem queimadas - saudade de foto analógica. E por aí vai.

Eu sei, eu sei, estou sendo nostálgica e ignorando todos os supostos benefícios da modernização da vida. Mas não posso negar a mim mesma que sinto falta de quando as pequenas coisas do dia-a-dia eram mais familiares e imperfeitas. Sinto falta de quando voltava da feira com minha vó e nosso caixote de madeira, cheio de verduras e flores. Sinto falta de quando eu e minhas amigas da escola nos escrevíamos cartas e as colocávamos no correio, mesmo uma morando ao lado da outra.

O Dono da Adega me entendeu, acolheu meu desamparo diante do mundo vazio de significados e de bonitezas únicas. Ele apreendeu o significado oculto do misterioso caso dos sumiço dos caixotes e, por alguns minutos, ficamos ali nos queixando dos tempos modernos, sendo dois velhos de alma. Ele me prometeu que procuraria pelos caixotes para mim e eu acreditei: tanto eu quanto ele, na realidade, estamos buscando de volta a sensação de pertencer ao mundo.


Ruh Dias

Quando criança, quis ser astronauta. Adolescente, quis ser filósofa, cineasta, fotógrafa. Sempre quis ser escritora. Hoje, só quero ser eu mesma..
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