pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

A filosofia na poesia infantil de Cecília Meireles

Quem nunca leu, quando criança, algum dos doces poemas de Cecília Meireles? Os versos pueris nada possuem de despretensiosos: encerram uma lição de vida a ser aprendida desde cedo.


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A literatura infanto-juvenil brasileira conhece um amadurecimento com o advento da prosa de Monteiro Lobato, no limiar da década de 1910. Concomitante à verve do Modernismo – o qual buscava, em suas linhas gerais, um ponto de convergência de diversos ismos a “desdobrar-se em viva realidade cultural”, no dizer de Alfredo Bosi – a literatura lobatiana começara a se desvencilhar de um modus operandi constante no fazer de literatura para crianças, o qual se resumia ora a adaptações de clássicos infantis europeus, ora à exaltação de um país que urgia inserir-se no rol das nações civilizadas.

No caso da poesia, a situação demoraria mais tempo para tomar um contorno mais definido de valorização de obras realmente intencionadas ao gosto infanto-juvenil. Embora houvesse manifestações de poemas infantis já no século XVIII, no Brasil – como o fizera o poeta árcade Alvarenga Peixoto – a poesia dedicada às crianças não consistia um sistema literário, valendo-se agora da tríade criada por Antônio Cândido (autor-obra-público). Eram poemas esparsos, vazados numa linguagem mais simplória, perfazendo tão somente uma escrita calcada num senso de um repertório lexical mais tênue da criança frente ao do adulto.

É com Cecília Meireles – não só poetisa, mas jornalista e pedagoga de franca atuação na modernização do ensino nacional – que a poesia infanto-juvenil atinge maturidade. Lançou três livros dedicados aos pequenos – Criança... meu amor (1924), A festa das letras (1937) e Ou isto, ou aquilo (1ª edição em 1964) –, dos quais os dois primeiros ainda atendiam ao fervor moral-cívico que acompanha as publicações destinadas ao público infanto-juvenil. Com o último, relançado em edição ampliada em 1969, Cecília erige uma obra dotada de real preocupação com o universo infantil, adaptando não somente a linguagem a ele, mas também a abordagem dos assuntos.

Comecemos pelo título. Ou isto ou aquilo traz à baila um cariz lúdico, de dúvida, tão comum ao mundo da criança. Aliás, o ludismo permeia os títulos dos poemas – Jogo de bola, O mosquito escreve, A língua do nhem, O vestido de Laura, entre outros. Os dois pronomes – de gênero neutro, a servir para o masculino e para o feminino – abarcam um conjunto infinito de elementos. Neste livro, claro, não houve uma eliminação total de alguns “conselhos” a serem dados às crianças, mas se esvaziou, sobremaneira, o intento de civismo tão arraigado às obras poéticas anteriores dedicadas ao público pueril, como fazia a poetisa parnasiana Francisca Júlia.

A poética ceciliana – da transitoriedade do tempo, do caráter incólume diante das vicissitudes da vida e da valorização das pequenas coisas – presentifica-se nos versos infantis, ainda que franqueados por um processo o qual defino como metáfora de pelúcia. Metáfora advém do grego metaphorá, que significa “transferência de algo para outro lugar”. “De pelúcia” remete ao universo infantil. Portanto, metáfora de pelúcia seria o esforço de trazer para o mundo imberbe alguns temas outrora vedados aos adultos. Vejamos que temas são esses e como os poemas infantis os conduzem às mentes iniciantes.

Lançado um primeiro olhar sobre os poemas de Cecília, vemos neles um certo hermetismo linguístico e temático diante da produção modernista, contemporânea à vivência dela. Ela se inserira, primeiramente, no grupo da chamada revista Festa, publicada pela primeira vez em 1927 e idealizada pelo escritor paranaense Tasso da Silveira. Festa diferia em muito do modelo estético defendido pelos modernistas paulistas, capitaneados por Oswald de Andrade, no que concerne à ruptura com o protótipo de feitura de poesia vigente até então. Tasso, por ser filho de um poeta simbolista, arregimentou junto de si artistas que nutriam simpatia por tal corrente literária, a qual não fizera sucesso quando chegou ao Brasil por seu caráter impregnado de misticismo e de espiritualidade, tão dissonantes numa nação cuja insígnia da bandeira – Ordem e Progresso – denunciaria uma obsessão pela cartilha positivista (razão acima de quaisquer meandros subjetivos).

Em seguida, Cecília rompe com os intelectuais de Festa, passando a traçar um caminho de certa forma independente de fazer poético. O que realmente impressiona no trilhar ceciliano é sua valorização diante dos temas que foram caros a ela durante a infância: a perda precoce dos pais, a presença da avó portuguesa e da empregada Pedrina, o interesse pelas filosofias orientais. O grande crítico Otto Maria Carpeaux define a obra poética de Cecília Meireles como intemporal, dada à constante alusão a temas de caráter amplo e universal – como lua, música, areia, espuma, vento e mar. Carpeaux ainda demonstra que aí se imiscuem assuntos que denotam ora efemeridade das coisas, ora imensidão diante dos fatos do mundo. Exemplo disso é a presença obsessiva de versos sobre o mar (símbolo do infinito e do insondável pelo homem) e sobre a rosa (símbolo da beldade efêmera, frágil e facilmente perecível). O que faz o trabalho de amalgamar elementos tão díspares é o tom frequente de melancolia, ainda que dirimida em virtude de uma práxis simbolista (um certo tom místico, difuso, de mistério, destinando a esses elementos um certo feitio de iniciação a algo realmente divinal).

Essa fisionomia melancólica traduz a preocupação primordial de Cecília, a qual se vê “engolfada na torrente do tempo”, consoante ao crítico Flávio Loureiro Chaves. É a temporalidade que unifica o diapasão de elementos da obra poética ceciliana. E isso se apresenta em toda a produção dela, seja para adultos, seja para crianças.

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Essa preocupação quase tantalizante atende a uma filosofia muito conhecida no Brasil: o Budismo. Nos ensinamentos de Buda, sobressaem alguns conceitos os quais estão em íntima sintonia com a poética ceciliana. Um deles é o samsara, definido como “ciclo de existências”. É uma espécie de reformulação da ideia de mentepsicose, presente em Platão e em Pitágoras, a qual nada é mais seria que a transmigração de almas. Samsara, assim, tornar-se-ia o fulcro da obra de Cecília, no tocante à suspensão de apego aos elementos materiais, já que a existência das criaturas se faz por meio de sucessão de nascimento e de morte.

O conceito de dukkha, traduzido por sofrimento, é tributário da não aceitação do ciclo do samsara. E isso se encontra evidente em diversos poemas de Cecília, como no famoso poema Retrato:

"Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?"

No último verso, expõe-se o sofrimento pela busca de uma situação de outrora, a não aceitação do ciclo da vida.

Outra filosofia igualmente evidente nos versos da poetisa é o xintoísmo, originário do Japão. A palavra xintoísmo provém do termo japonês shinto (caminho dos deuses), formado a partir de dois ideogramas chineses: shin (dos deuses, dos espíritos) e do (estudo). Portanto, o xintoísmo se revela não tanto como uma religião, mas como uma espécie de código de conduta cujos motes se fixam na valoração dos antepassados, na presença de uma “alma” (em japonês, kami) em todos os seres vivos e, oriundo disso, na ausência de hierarquia entre as criaturas. Um aspecto que difere muito da nossa realidade ocidental é a visão do homem como mais um elemento da natureza pelos xintoístas, sem a exaltação de dominação desta pelo ser humano (noção presente até mesmo nas primeiras linhas do Gênesis bíblico, que exorta o homem a apossar-se das criações divinas).

Vejamos o poema Pescaria:

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Cesto de peixes no chão. Cheio de peixes, o mar. Cheiro de peixe pelo ar. E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia, na maré cheia.

As mãos do mar vê e vão, as mão do mar pela areia onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão, em vão. Não chegarão aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia a espuma da maré cheia.

Além da musicalidade, a qual atende ao programa simbolista e ao espaço lúdico da criança, os versos elencados trazem as linhas norteadoras do pensamento da poetisa, filtrados pela metáfora de pelúcia. Na terceira e na quarta estrofes, o tema da transitoriedade da vida – o samsara – aparece num jogo de palavras similar ao título do livro – uma dicotomia de X e de não X –, tão caro a brincadeiras pueris. Similitude que se encontra num trecho do poema “adulto” Motivo:

Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, - não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. A presença da avó lusitana – com o gosto por Camões e pela clássica poesia portuguesa – fez Cecília aliar esses elementos no poema O Cavalinho branco:

À tarde, o cavalinho branco está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina loura e comprida

e nas verdes ervas atira sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres seus movimentos.

Trabalhou todo o dia, tanto! desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco, de crina dourada!

Há aí o ensejo de fomentar na criança o respeito pelo animal que arduamente trabalha, assim como ela fizera no belo poema O menino azul:

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O menino quer um burrinho para passear. Um burrinho manso, que não corra nem pule, mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios, das montanhas, das flores, - de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largo e talvez mais comprido e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses, pode escrever para a Ruas das Casas, Número das Portas, ao Menino Azul que não sabe ler)

Outro aspecto, de cunho pedagógico, evidente nos versos acima é a reabilitação de um animal, encarado como sinônimo de néscio, a fim de dirimir os preconceitos que o rondam (quem nunca foi ou ouviu alguém xingando a outrem de burro?). Já no plano filosófico, intui-se que todas as criaturas possam, de fato, passar algum tipo de ensinamento a outras.

O apreço pelos antepassados aparece no poema As duas velhinhas, logo abaixo:

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Duas velhinhas muito bonitas, Mariana e Marina, estão sentadas na varanda: Marina e Mariana.

Elas usam batas de fitas, Mariana e Marina, e penteados de tranças: Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas, Mariana e Marina, em xícaras de porcelana: Marina e Mariana.

Uma diz:"Como a tarde é linda, não é, Marina?" A outra diz: "Como as ondas dançam, não é Mariana?"

"Ontem, eu era pequenina", diz Marina. Ontem, nós éramos crianças", diz Mariana.

E levam à boca as xicrinhas, Mariana e Marina, as xicrinhas de porcelana: Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas, Mariana e Marina, em xícaras de porcelana: Marina e Mariana.

É o fenecer que aí está de uma forma não chocante, a fornecer, no esteio da infância, uma introdução de que a vida se sujeita ao tempo, o qual é célere. E que há beleza na senilidade. O esvaziamento do elemento trágico – um dos pressupostos da metáfora de pelúcia – alia-se ao inventário de elementos do infinito, caro ao universo simbolista, impregnado de misticismo e de mistério, no poema O último andar:

No último andar é mais bonito: do último andar se vê o mar. É lá que eu quero morar. O último andar é muito longe: custa-se muito a chegar. Mas é lá que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira sobre o último andar É lá que eu quero morar.

Quando faz lua no terraço fica todo o luar. É lá que eu quero morar.

Os passarinhos lá se escondem para ninguém os maltratar: no último andar.

De lá se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar. É lá que eu quero morar:

no último andar.

A busca incessante por algo – configurada acima pelo desejo do último andar – não revela no poema o sofrimento apregoado pelo apego caro ao Budismo, mas enceta no universo infantil a magnitude do desconhecido, visto como algo além das possibilidades do ser humano.

E, por fim, a problemática da escolha aparece magistralmente registrada no poema homônimo ao livro, Ou isto ou aquilo:

Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. Aqui se perfaz um exemplo acabado da metáfora de pelúcia: a ambivalência de escolhas, mas a faina incessante está sendo relativizadas pela escolha lúdica dos elementos, facilmente perceptíveis para a criança.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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