pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

A prosa de Simões Lopes Neto

Por trás da simplicidade e do regionalismo, há um homem muito culto. Desvendando a prosa de Simões Lopes Neto.


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A maior virtude da prosa simoneana – cuja originalidade fez o crítico Alfredo Bosi dizê-la a melhor no quesito regionalista antes do Modernismo – é equilibrar-se entre o culto e o popular. Outro crítico, Roberto Schwarz, traz à baila uma comparação entre as prosas de Simões e de Guimarães Rosa, homens cultos, cujas obras mitificaram um tipo humano graças à combinação de linguagem regional e de uma miríade de qualidades inerentes a um antepassado da comunidade em questão – o sertanejo em Rosa; o gaudério em Simões. Rosa e Simões rememoram um passado, com todo seu arcabouço cultural – a religiosidade, a liberdade, a relação íntima com a natureza – através da confecção de um porta-voz, de um alter ego autoral. A onisciência do autor se esfumaça diante do espanto sincero que inunda a prosa; torna-se tão somente um mediador de temas universais. Simões discorre sobre um passado livre e o contrapõe a um presente cheio de ditames a serem seguidos, no qual o cerceamento da liberdade é a tônica de caráter universal.

Esse movimento do narrador faz parte do chamado narrador viajante proposto pelo teórico alemão Walter Benjamin, já que encerra em si matéria-prima para que os casos venham à tona (não é novidade que quem viaja sempre possui o que contar). Para completar o estilo simoneano, concorreram crônicas de costumes, à moda de Luiz Araújo Filho, além do estilo romântico (mormente José de Alencar). Contudo, o homem culto se afasta do texto em si, para evitar o artificialismo característico dos escritores letrados ao tratarem de temas folclóricos. A pesquisadora Lígia Chiappini alerta que “o folclore não estava ausente das obras do regionalismo brasileiro(...), mas quando o utilizava, o escritor culto geralmente o artificalizava, trazendo o mito para o contexto do verossímil”.

Por isso, a emergência de Blau Nunes como narrador visa a evitar tal equívoco. No dizer do crítico Augusto Meyer, há de se destacar que “ninguém no Brasil tenha conseguido uma identificação tão profunda com o espírito de seus pagos, a tal ponto que (…) o pelotense culto (…) se apaga na sombra de Blau, o vaqueano”.

O caráter culto de Simões transparece no trato da matéria local, na seleção de imagens que colorem a narrativa. Contudo, na acepção de literatura oral patenteada por Roman Jakobson, pesquisador de influência ímpar na Linguística, o estilo de Simões compreende a fragmentação dos enclaves sociais, ainda que sensivelmente amainados no tocante ao potencial de luta de classes, além de valer-se da repetição linguística. Esta está longe de ser um demérito, mas sim uma espécie de repetição criativa, na qual o autor, imbuído de espírito ativo, vaza a prosa dessa forma para que a mesma seja reconhecida pelo público leitor. Concomitante a isso, há a presença de simbolismos da comunidade rural, asseverando ainda mais esse processo de identificação.

Outro ponto da definição de Jakobson que classifica a prosa de Simões como literatura oral é a possibilidade de leitura em voz alta. O uso intensivo de reticências e a presença de anacolutos marcam um ritmo de quem ouviu o caso e o está reproduzindo ipsis litteris. A oralidade está submetida a um plano de um autor culto, cujo objetivo é angariar um poderoso substrato que robusteça o tipo humano mitificado como herói. Nisso a obra simoneana está equidistante do artefato popular e do culto, pegando de ambos o que há de melhor: na oralidade, os casos e a linguagem um tanto hermética; no cultismo, a pesquisa extensiva do folclore e o manejo do maravilhoso e do fantástico alçados a temas universais.


Gilmar Luís Silva Júnior

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