pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Machado de Assis e Espiritismo: exemplo de picardia

Machado de Assis é considerado, pela crítica literária tradicional, um exemplo de escritor realista. Os manuais dizem que seus textos se centram na corte carioca do século XIX e nos costumes da sociedade da época. O que poucos sabem que, como nada passou despercebido pelo olhar arguto de nosso maior escritor, ele enveredou alguns textos por temas do outro mundo.


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O crítico literário Antônio Cândido, ao citar uma linha interpretativa acerca da obra de Machado de Assis (a de Roger Bastide), frisara que ele [Bastide] “costumava dizer aos seus alunos na Universidade de São Paulo que o 'mais brasileiro' não era Euclides da Cunha – ornamental, para inglês ver; mas Machado de Assis, que dava universalidade ao seu país pela exploração, em nosso contexto, dos temas essenciais”. Nesse ínterim que me devo deter. Uma crônica do Bruxo do Cosme Velho – de cinco de outubro de 1885 – trata do êxito do Espiritismo no Brasil, com o inconfundível estilo pendular do autor, ora prenhe da mais tradicional crônica jornalística, ora sápido da picardia que o notabilizara nas nossas letras.

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O Espiritismo, cientificamente constituído, surgiu na Europa em 1857, sob a batuta do pedagogo e estudioso de diversos idiomas Hippolyte Léon Denizard Rivail, o qual adotara o nome de Allan Kardec. Rivail soube do fenômeno das chamadas “mesas giratórias falantes” (reunião de pessoas em torno de mesas, as quais supostamente eram palco da ação de espíritos, cujo intento era comunicar-se com os vivos) e decidiu investigar isso. Tencionava, assim, desmascarar um possível embuste. Ao formular perguntas em diversos idiomas, o intelectual francês recebia respostas nas respectivas línguas. Debruçou-se, então, no estudo desses fenômenos com a chancela de um viés científico. Surgiram, a partir desse intuito, diversas publicações sobre o Espiritismo, as quais vieram a configurar um certo cânone à nova religião.

No Brasil, a doutrina espírita aportou em 1860. Referendada como mais um produto anglófono – frisemos que os artefatos franceses gozavam de prestígio no Brasil finissecular do século XIX –, o Espiritismo logrou êxito na sociedade de então. Em 1884, fundou-se a Federação Espírita Brasileira (FEB), no Rio de Janeiro, logo se tornando a maior instituição do gênero no mundo.

Na crônica de cinco de outubro de 1885, Machado de Assis logo a abre com a visita à FEB. Conta-nos Machado:

“Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai, estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo. Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa".

Isso mostra a certa notoriedade que tal estabelecimento granjeou na vida da corte. A visão do narrador machadiano, consoante ao exposto por Cândido, é despreocupada com a vereda tomada pelos escritores ditos realistas, como Flaubert:

“O que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica. Num momento em que Flaubert sistematizara a teoria do 'romance que narra a si próprio', apagando o narrador atrás da objetividade da narrativa; num momento em que Zola preconizava o inventário maciço da realidade, (…) ele [Machado] cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa com bisbilhotice saborosa”.

Essa percepção logo se percebe no terceiro parágrafo da referida crônica:

“Confesso a minha verdade. Desde que li em um artigo de um ilustre amigo meu, distinto médico a lista das pessoas eminentes que na Europa acreditam no espiritismo, comecei a duvidar da minha dúvida. Eu, em geral, creio em tudo aquilo que na Europa é acreditado. Será obcecação, preconceito, mania, mas é assim mesmo, e já agora não mudo, nem que me rachem. Portanto, duvidei, e ainda bem que duvidei de mim. Estava à porta do espiritismo: a conferência de sexta-feira abriu-me a sala de verdade.”

Aí se encontra a subserviência ao mundo civilizado – a adoção sem peias das ideias europeias – com o motejo característico machadiano – saber-se à deriva do sistema econômico capitalista e, mesmo assim, alçar-se numa temática universalista. Ao valer-se de uma temática em voga na época – o Espiritismo e a emergência em terra brasileira –, Machado se equilibra de tal forma análogo ao que François-René de Chateuabriand preconiza no texto Poética do Cristianismo: “(...) quanto mais o poeta [aqui entendido na acepção de escritor/autor] (…) guarda o meio termo entre as coisas divinas e as humanas, mais recreativo se torna, no dizer de Despréaux. Recrear, com a mira no ensinar, é o primeiro requisito em poesia [leia-se aqui artefato literário].

Um aspecto a ser analisado nessa crônica é o teor do assunto. Numa época em que ditava as normas a escola realista-naturalista, Machado de Assis colocou a seus leitores um tema sobrenatural. Para analisá-lo, há de se levar em conta os conceitos de fantástico, maravilhoso e estranho, elencados por Tzevtan Todorov:

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“O fantástico (...) dura apenas o tempo de uma hesitação: hesitação comum ao leitor e à personagem, que devem decidir se o que percebem depende ou não da ‘realidade’, tal qual existe na opinião comum. (...) Se (...) as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fenômenos descritos, dizemos que a obra se liga a um outro gênero: o estranho. Se se admitir novas leis da natureza, pelas quais o fenômeno pode ser explicado, entramos no gênero do maravilhoso”.

O fantástico, nessa acepção, não encontra espaço nesta crônica machadiana. A personagem, que toma para si o fio condutor da narrativa, numa onisciência aplacadora (confundem-se as vozes da personagem e do narrador, já que quem narra não se exime de comentar a situação social e cultural de sua época), não hesita diante do fato de cindir-se entre matéria e espírito, como bem atesta o texto:

“De repente, senti uma coisa subir-me pelas pernas acima, enquanto outra coisa descia pela espinha abaixo; dei um estalo e achei-me em espírito, no ar. No chão jazia o meu triste corpo, feito cadáver. Olhei para um espelho a ver se me via e não vi nada; estava totalmente espiritual. Corri à janela, saí, atravessei a cidade, por cima das casas, até entrar na sala da Federação.”

Machado envolve o sobrenatural numa verossimilhança similar ao restante de sua obra. O espírito paira sobre o corpo inerte: o narrador não se isenta de motejar o processo de separação entre carne e espírito, com pruridos que ora desciam, que ora subiam. Lembra o narrador Brás Cubas, ao informar ao leitor sua condição de defunto, sem, no entanto, assombrar-se diante disso. É o humor ácido que dirime qualquer assombro nas duas instâncias.

O assunto se encontra, logo, no campo do maravilhoso. Ao estranho foge, pois tal gênero trabalha com a noção de medo, a qual inexiste na crônica analisada. Todorov apregoa que o maravilhoso detém uma total indiferença ao espanto e ao medo ante os elementos sobrenaturais: nem narrador nem personagem se sobressaltam com aparições fantasmagóricas. É o gênero maravilhoso puro, o qual necessita de uma coerência interna que não traia as regras do jogo. É o que Machado faz: o espírito vai à conferência e, ao retornar, depara-se com seu corpo ocupado por nada menos que o Diabo:

“Vi o meu corpo sentado e rindo. Parei, recuei, avancei e disse-lhe que era meu, que, se estava ocupado por alguém, esse alguém que saísse e mo restituísse. E vi que a minha cara ria que as minhas pernas cruzavam-se, ora a esquerda sobre a direita, ora esta sobre aquela, e que as minhas mãos abriam uma caixa de rapé, que os meus dedos tiravam uma pitada, que a inseriam nas minhas ventas”.

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Novamente, o humor se encarrega de suprimir a gravidade do fato. O Diabo, na iconografia judaico-cristã, merece temor quase similar ao que Deus exige de seus fiéis. Aqui, ele dialoga em termos de igualdade de voz com a personagem-narradora. Claro que isso atende, em parte, à crítica que Machado fizera à adoção desenfreada de elementos estrangeiros, conforme explicitado anteriormente. Também se imiscui tal técnica à índole do narrador machadiano, que desce de uma onisciência canônica – o crítico James Wood chama a onisciência total de embuste – para um narrador sinceramente não confiável ou, ao menos, motejador.

O texto de Machado no jornal Gazeta de Notícias pode ser analisado, em sua forma mais ampla, segundo a lógica da fase estruturalista de Roland Barthes. Barthes enxerga a narrativa como um estágio mais avançado da palavra, do sintagma e da frase. O pensador francês compreende que “todo sistema, sendo a combinação de unidades cujas classes são conhecidas, é preciso primeiramente dividir a narrativa e determinar segmentos do discurso narrativo que se possam distribuir um pequeno número de classes”. Deter-me-i na sua classificação de determinados momentos narrativos, as chamadas funções cardinais (ou núcleos) e catálises. As primeiras funcionam como articulações da narrativa: no dizer do professor italiano de Teoria Literária Franco Moretti, são os pontos da narrativa em que ocorre um processo de decisão, isto é, uma mudança de rumo. Já as catálises, ainda na chancela de Moretti, são os preenchimentos entre dois núcleos, a teia de acontecimentos de importância secundária, que conferem o “recheio” à obra. Na crônica de Machado, percebem-se duas funções cardinais: uma inaugurada logo de chofre, ao avisar o leitor de que ocorrera a visita à FEB, por meio de um descolamento do espírito do corpo físico. A outra abarca o retorno à casa do narrador e a constatação de que o seu corpo estava tomado pelo Diabo, figura pouco antes menosprezada na tessitura do discurso do texto, o qual via o Espiritismo como um novo alento ao pensamento religioso por trazer à baila princípios cientificistas. Esse aspecto também fora muito presente na prosa machadiana: é só rememorar a ilustre novela O alienista, que se entretém a jogar com a dicotomia entre sanidade e loucura, tudo guiado pelo caráter arbitrário da Ciência, tomada como absoluta em meados do século XIX.

No primeiro núcleo do texto em questão, a crítica mordaz ao formalismo – excesso de regras sociais que escamoteiam a hipocrisia – faz recordar o pensamento do Jean Jacques Rousseau, na obra capital O contrato social. Diz ele que “o homem nasce livre e, por toda a parte, encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do que eles”. Categoricamente, o que seriam os abastados pensadores, ao adotarem prontamente a doutrina espírita como nova norteadora de suas vidas, senão escravos de uma nova ideia, ainda que desdenhem dos outros credos? Machado ilustra esse viés com a tradicional mordacidade de sua pena, ao contrapor, na segunda função cardinal, o embate entre o narrador, supostamente salvo das amarras de um passado religioso visto como retrógrado, e o Diabo, figura que é desconstruída nesse diálogo de toda a temeridade outrora atribuída a ele.

Ao presenciar o corpo antes inanimado cruzando as pernas e as descruzando, o narrador indaga quem está ali. Aí, o foco narrativo se encontra impregnado da doutrina espírita, pois os espíritos se põem a dialogar. O Diabo redarguiu, em estilo quase lacônico: “Já lhe restituo o corpo. Nem entrei nele senão para descansar um bocadinho, coisa rara, agora que ando a sós...”. Ele se refere à solidão que enfrenta devido ao esmorecimento do medo que a tradicional cultura cristã lhe atribuía. O Espiritismo não advoga a existência de uma criatura cujo poder de maldade rivalizasse com Deus, considerado o ser bondoso por excelência e impossível de conceber tal acinte.

A criatura demoníaca, por fim, apresenta-se e, no sabor da narrativa, Machado o descolore de todo o arcabouço medonho que é conferido ao “príncipe das trevas”. “Sou o diabo, para o servir”, o que produz o irrompimento de uma escusa calcada no discurso científico que o narrador adotara: “Impossível! Você é uma concepção do passado, que o homem...”. O Diabo o interrompe – valha mencionar o uso das reticências – e alude à sucessão de ideias e de dogmas que permeiam a história da humanidade, presente no sintagma “Lá porque estão outros no poder, e tiram-me o emprego”. Novamente, o narrador se escora no Espiritismo, tomado com ares de ciência. O Diabo, então, parece extenuado das objeções vãs. Machado aí realiza o jogo tão fulcral em sua obra, de trazer as questões metafísicas para o plano da proximidade, o que se torna indubitável quando Roberto Schwarz cita Antônio Cândido, destacando que Machado a “trivialidade pitoresca ele soube redimensionar, descobrindo-lhe o nervo moderno e erguendo uma experiência provinciana à altura da grande arte do tempo”. Parece ser o Diabo a voz que visa a desconstruir o fio lógico que o narrador tencionava estabelecer, embora sem muita segurança, já que se considerava um mero reprodutor da norma ditada pelos países centrais, em especial a França. Schwarz ainda complementa ao referir-se à distância entre o centro e a periferia como algo similar à “comédia e o impasse próprios a essa disparidade de timbres e, em vez de evitá-la, fez [Machado] dela um elemento central de sua arte literária".

O Diabo compara a sucessão de dogmas ao caso de medicamentos que se sucedem no combate às enfermidades: rábano iodado vem a suplantar o óleo de fígado de bacalhau nas escaramuças medicamentosas em prol da restituição da saúde. Assim, a nova doutrina seria o rábano, a que o Diabo se despede do narrador. Este, por sua vez, chama o Diabo de óleo. Finca-se o mal-estar entre ambos, a crônica nada conclui de definitivo e soa robusta a constatação de Milan Kundera, em A arte do romance: “a busca do eu sempre terminou e sempre terminará por uma insatisfação paradoxal. Não digo fracasso. Pois o romance não pode ultrapassar os limites de suas próprias possibilidades, e a revelação desses limites já é uma imensa descoberta".


Gilmar Luís Silva Júnior

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