pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O programa estético de Simões Lopes Neto

O gaúcho Simões Lopes Neto é um dos responsáveis pela criação do tipo gaudério, uma figura quase mítica que representa o homem do Rio Grande do Sul. Não é de todo verossímil o conjunto de elementos que corporificam tal "mito", mas se vincula a um programa estético claramente definido pelo escritor.


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À guisa de um preâmbulo, colijo aqui o pensamento do italiano Giambattista Vico. Ele pressupõe três estágios a que todas as nações estão submetidas: divino, heroico e humano. Nos dois primeiros, predominaria a fantasia, ou seja, que “os sentidos sejam as únicas vias mediante as quais a natureza animal dos homens conhece as coisas”.Nesse ínterim que se principia, de fato, a prosa de Simões Lopes Neto. Tal qual um poeta que resgata um tempo mítico de um suposto passado glorioso – como o que Vico define como idade divina, donde a sabedoria advém da fantasia –, Simões vinca sua obra de todo um corolário peculiar à figura do gaúcho pampeiro. É mister frisar o quão esse símbolo atende a dois pressupostos. O primeiro faz parte de um programa de um país recém independente, cuja faina em se significar perante os outros é um adendo a ser perseguido. Enquanto no Brasil a personagem eleita para tal fim fora o índio, no RS o homem rústico dos pampas serviu a esse intento. Os literatos se puseram, no entanto, a burilar esse tipo, outrora dado a saques de gado alheio e ao nomadismo. O outro aspecto é a certa autonomia que o RS gozou desde o povoamento desses pagos. Sendo mais espanhol que brasileiro de fato, o RS tratou de se insurgir não só em armas contra o poder imperial central, mas também na confecção de artefatos culturais.Para lograr êxito nessa empreitada, Simões Lopes Neto – chamado de “patriarca das letras gaúchas” por Alfredo Bosi – realizou um modus operandi calcado na fixação dos dados psicológicos dos personagens, em especial do porta-voz do “gauchismo”, Blau Nunes. Para tanto, a linguagem se vaza num tom de conversa ao pé de uma fogueira, como atesta o trecho:“(...) logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos tirante a roxo... depois tudo me ficou cinzento, para escuro”.Em um nível ligeiramente inferior, mas ainda de suma importância para a construção da psicologia do gaúcho, está a descrição pormenorizada do ambiente, que foge de todo do imotivado quadro árcade (natureza apreendida como um quadro estático, de cariz tão só ilustrativo). O excerto a seguir corrobora o exposto:“O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar..., lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da minha mãe, de meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. — Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo...; Deus o conserve!..., sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!”Tal fragmento chega a lembrar um momento do personagem Werther, do romance Sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, no qual o protagonista tem o espírito convulsionado em virtude de uma paixão arrebatadora, desencadeando não só pungimento físico, mas também uma série de intempéries na natureza circundante. Simões ainda insufla a Blau uma definição da miscigenação na formação do povo rio-grandense.

Como atesta Ligia Chiappini, “Blau traz o azul no próprio nome (tanto em português, (…) quanto em alemão). (…) entrar no azul é como passar para o outro lado do espelho, Alice no País das Maravilhas, rumo a um outro mundo, de fantasia e sonho”. A autora ainda informa que Simões havia ganho um bonequinho alemão, o qual ele denominou de Blau, e a madrinha dele vestiu o brinquedo com indumentária campeira. Estava assim diante dos olhos da então criança o principal personagem da narrativa simoneana. Tal qual Leon Tolstói, “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Assim ousou o escritor gaúcho.Há de se salientar ainda que a composição do dado psicológico em Simões revela uma leitura atenta das obras basilares dos Romantismos brasileiro e europeu. O pelotense, ainda que tenha vivido boa parte da infância na fazenda, formou-se como homem citadino e possuía acesso a bibliotecas valorosas.

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Novamente, é no dado psicológico que essa dicotomia se espraia: no culto a um passado mítico, eivado de sentimento nostálgico e de iminente perda. Simões estava atento às transformações econômicas do RS: o caráter idílico da estância – dos latifúndios – perdia-se diante de uma visão empresarial calcada no lucro imediato. Por isso, há momentos em que os personagens de alguns contos – como em O boi velho – são postos em desvantagem ao gaúcho tradicional e até mesmo diante dos próprios animais. Antes de conferir dados psicológicos aos personagens, Simões faz da obra um certo espelho da própria vida. Como diz novamente Chiappini, “entre o passado e o presente, entre o campo e a cidade, entre o popular e o culto, entre o iletrado e o letrado, marcando fundo o estilo e o gênero dos contos-casos”.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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