pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O que dizem os formalistas russos sobre literatura?

O Formalismo Russo pode ser considerado o primeiro movimento intelectual inteiramente focado em Literatura. Vamos entender um pouco sobre o pensamento desses intelectuais.


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Os formalistas russos lançaram as bases teórico-metodológicas para o estudo da especificidade da literatura, recusando categoricamente toda e qualquer interpretação extraliterária do texto, chegando a afirmar a independência da literatura em relação às demais formas de vida social. Contudo, Tynianov em seu artigo “Da evolução literária” apresenta uma posição mais moderada, demonstrando sua preocupação com a complexidade dos fatos literários.

O crítico inglês Terry Eagleton apregoa o ano de 1917 como uma nova guinada nos estudos literários. Nessa época, o jovem formalista russo Vítor Sklovski publicou um ensaio chamado A arte como procedimento, no qual criticava veemente a Escola Simbolista, então em voga na Europa. Sklovski censura os simbolistas por enxergarem a arte como um corolário de imagens, atribuindo a estas uma constante mutabilidade. O russo, contudo, preconiza que “as imagens são quase que imóveis; de século em século, de país em país, de poeta em poeta, elas se transmitem sem serem mudadas” (SKLOVSKI, 1973).

Em seguida, Eikhenbaum teoriza a emergência do chamado “método formal”, cujo principal divisor conceitual é o abandono da concepção da evolução literária “como sucessão dialética de formas”, a ponto de não recorrer mais a isso como o faziam os analistas vinculados aos estudos tradicionais da história literária. Eikhenbaum ainda colige os pressupostos do movimento formalista, visto como um alento de modernidade à teoria da literatura: banimento da psicologia e da biografia como elementos decisivos na obra literária e o certo desprezo pelos estudos diacrônicos.

Eagleton salienta que a tônica do Formalismo russo, digamos, strictu sensu, reside na busca da “literariedade”, ou seja, a identificação de artifícios – como som, imagem, sintaxe, métrica, rima – que conduzem ao efeito de estranhamento da obra literária. Opunha-se, assim, o Formalismo Russo à crítica impressionista e à erudição em demasia. Voltava-se, nesse ínterim, à obra enquanto objeto imanente e independente do meio onde se encontra. Tal viés, por sua vez, fomentou uma primeira posição radical, no que concerne ao estudo da obra literária dissociada de elementos externos, os quais deveriam ser analisados em enfoques distintos por outras ciências. Em suma, a obra, nessa fase inicial, estudar-se-ia alijada de uma perspectiva histórica.

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Tynianov soube associar aos elementos imanentes do texto literário as noções de tradição, de evolução literária, de substituição de sistemas e de historicidade. Esses conceitos partem do entendimento de que a obra literária é um sistema em si concomitante ao fato de que a literatura também o é. Não são elementos díspares, mas em constante interação, assim como todos os artifícios mencionados anteriormente: a sintaxe se relaciona com a rima e vice-versa, perfazendo uma intrincada rede a qual pressupõe a emergência ou não do estranhamento.

A literatura, em qualquer teórico formalista, é um embate com a linguagem coloquial e desgastada, visando a primeira ao resgate do valor da palavra consumida pelo uso. Por isso, Tynianov insiste que o método formalista deve conter a correlação mútua de elementos.

Um elemento de uma obra correlaciona-se com os outros presentes nesse mesmo artefato artístico e ainda estabelece vínculos com as séries literárias – conjunto de textos cujos elementos são tidos como preponderantes num determinado período, os quais adquirem um valor distinto. Isso é o que Tynianov chama de “função construtiva” e, a partir dela, apresentam-se as funções autônoma (um elemento da obra cotejado com outros parecidos em outros sistemas, por razão de similaridade) e sinônima (um elemento do próprio sistema comparado a outros distintos do mesmo sistema). Essa intrincada teia visa a desconstruir juízos de valor no tocante a elementos de uma obra literária: a valoração de tal componente está indiscutivelmente presa a sua relação com os demais constituintes de um sistema e também em constante confronto com algo similar noutras épocas. Diz Tynianov: “o que é fato literário para uma época, será um fenômeno linguístico relevante da vida social para uma outra”.

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Uma obra literária é tributária de seu tempo, mas o pensamento de Tynianov a faz mais ampla e mais restrita simultaneamente. Isso se explica pela importância dada ao sincrônico, já que um texto literário afirma um uso formal – a forma, para os formalistas, é um invólucro no qual se ajustam elementos concretos, como os sons, e outros mais abstratos, como a aplicação de arcaísmos em certos discursos – digno de um sistema literário e ainda contribui para o entendimento de outro sistema distinto no tempo e no local. O que credencia algo para ser fato literário é o caráter de deformidade de um determinado elemento em paralelo a outro similar e a outros de épocas diferentes.

Outro contributo de Tynianov para pacificar as posições radicais dos primeiros formalistas é a aparição das séries vizinhas. A literatura, segundo ele, correlaciona-se com a vida social (que nada mais é que as séries vizinhas ao fato literário) por meio do aspecto verbal. A presença da literatura não apenas contribui para um rearranjo nas formas linguísticas, mas também enseja para aparições de novos construtos sociais. É o caso da poesia de Byron, cujas ideias incitaram um arranjo novo em determinados símbolos e ainda instigaram a aparição de tipos sociais inéditos.

A mudança de relação entre os termos – elementos ou artifícios – de um sistema é a chamada evolução literária. Tynianov censura a crítica anterior que diferencia sistemas literários tão somente pela forma; é mister que se faça cotejo com as funções dos elementos.


Gilmar Luís Silva Júnior

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