pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Um russo que conquistou o Ocidente: Mikhail Bakhtin

Mikhail Bakhtin é um nome recorrente na teoria da literatura e em áreas cuja pesquisa se centra na linguagem. Que tal desvendar um pouco dos principais conceitos desse pensador russo?


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Mikhail Bakhtin é um nome forte na intelectualidade russa o qual alçou a interdisciplinaridade, sem, no entanto, perder de vista seu objeto primeiro de estudo: o ato da linguagem. Ele ainda realizou um importante movimento de relação entre o literário e o social, colocando uma pedra de toque nesse ínterim: a análise do romance.

O romance é um gênero literário miscigenado. Antes das considerações de Bakhtin, a que me referirei em breve, um pensamento do filósofo húngaro Georg Lukács é salutar no posicionamento do gênero romanesco como artefato da modernidade. Lukács define o romance em contraponto à epopeia grega: esta narra a emergência de um herói (único ou coletivo) que lidera um povo rumo à estabilidade ou à glória, enquanto aquele é o retrato de um mundo no qual não há espaço para lideranças, além de ser o modelo da falência da relação entre herói e sociedade, emergindo, desta feita, a subjetividade das personagens. O épico visa a eternizar os atos desse herói modelar, cujo sentido ainda enforma muitos produtos culturais hoje em dia (vide as histórias cinematográficas que ainda se baseiam na figura quase mítica de um protagonista a resolver a trama). Já o romance se notabiliza pela solitude do herói, despido de quaisquer ações bombásticas em prol da coletividade: o conflito se particulariza, é o triunfo do escopo subjetivo.

Bakhtin não recorre à cultura clássica, já que seu olhar acerca do romance demonstra a emergência do conceito de plurilinguismo. Enquanto boa parte da crítica, cita com cariz crítico Bakhtin, propunha que o discurso do romance estaria num plano extraliterário, “privado de uma elaboração estilística particular e original” (Bakhtin, 2010), a novidade se assenta sobre a existência de unidades estilísticas heterogêneas, submetidas às leis estilísticas distintas e idiossincráticas desses elementos já existentes. Bakhtin fala que o romance é “uma diversidade social de linguagens organizadas artisticamente, às vezes de línguas e de vozes individuais” (Bakhtin, 2010). Isso traz à baila estratificações não somente de construções de personagens, com seus imaginários (os quais, por sua vez, também carregam cisões sociais, num eterno devir de sobreposições de ideias), mas também hachuras no plano linguístico, visto que há menção de vozes com perfis ideológicos distintos assentados em usos divergentes do aspecto verbal.

Aí reside o conceito de plurilinguismo a que Bakhtin se refere. Abarca o artefato linguístico e o mundo objetal das personagens. Por isso, o romance merece um outro olhar analítico, não mais cabendo no discurso poético, o qual é governado por preceitos normativos (forma padronizada em poucos conceitos, obediência a assuntos universais – como a grandiloquência na epopeia, por exemplo – e vozes subordinadas ao eu-lírico), assim como a língua tomada como um estrato monolítico da classe mais favorecida. Para Bakhtin, o plurilinguismo melhor se evidencia no romance humorístico inglês, cujos representantes célebres são Fielding, Dickens e Sterne (este foi um dos “mestres” de Machado de Assis na confecção da personagem Brás Cubas no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas). O pensador russo explica que o cariz humorístico constitui numa “enciclopédia” de todas as camadas e formas da linguagem literária. A citação de uma linguagem solene, como no romance Litle Dorrit, de Dickens, faz-se sem marcação de personagens, como nos discursos direto e indireto: o tom arcaizante da linguagem usada no Parlamento certamente faz sobressaltar o leitor, que vê irromper uma nova voz na ordem do discurso.

Bakhtin fala dessa emergência de vozes sob o epíteto de “discurso de outrem”: “o discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de uma outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo” (Bakhtin, 2009). A absorção das vozes das personagens pela voz do narrador não é completa: o conteúdo semântico e a estrutura sintática mantêm-se estáveis, possibilitando a vigência do plurilinguismo.

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Uma das consequências desse fenômeno do plurilinguismo no romance foi levado às últimas consequências pelos romances de Dostoievski. Bakhtin alentou novos conceitos para abarcar essa genialidade do prosador russo, ao justapor ao plurilinguismo os conceitos de isonomia e de dialogismo. O primeiro é a maneira pela qual Dostoievski hierarquiza as vozes distintas em seus romances, colocando-as em pé de igualdade, sem menção de supremacia até mesmo para o narrador quando onisciente. A questão da onisciência, nesse caso, desmorona, uma vez que Dostoievski cria o narrador à guisa de Prometeu: não há como este ter controle sobre as criações, já que possuem o dom da fala e, assim, articulam ideias que se esbatem entre os iguais e até mesmo contra o narrador.

Já o dialogismo encerra o seguinte raciocínio de Bakhtin: “não só os heróis criados se separam do processo que os criou e começam a levar uma vida independente no mundo, como o mesmo ocorre com o seu real autor-criador”. Em suma, o romance, quando assume esse matiz, confronta o esforço dos interlocutores em colocar-se um frente ao outro. O diálogo, para Bakhtin, realiza-se na linguagem. O romance sempre será um processo dialógico, ainda que se apresente sobre forma monofônica (um monólogo, por exemplo) ou na polifônica (emergência de vozes polêmicas). dialogismo.jpg


Gilmar Luís Silva Júnior

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