pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Verdade e perseguição em Michel Foucault

Para o pensador Michel Foucault, toda a produção de discurso é regulada por sistemas de autoridade, hierarquia, disciplina. Seu trabalho chamou atenção para a relação conhecimento/poder e para os processos de ‘naturalização’ de conceitos como razão, verdade, universalidade dentro das redes de poder institucional e social.


Foucault5.jpg

Michel Foucault é o filósofo da perseguição. Assim classificá-lo soa temerário; entretanto, urge que algum apodo venha a calhar. Insisto nesse – perseguição – pois ele, na modernidade pós-1914, soube canalizar o maior perigo que ronda as trocas culturais na humanidade: o poder sobre o discurso e a perseguição da instância primeira discursiva, que é o embate equânime de ideias. Foucault disse que Mendel [biólogo, considerado o Pai da Genética, por ter “descoberto” as leis da hereditariedade] falava a verdade, “mas não estava no verdadeiro do discurso biológico de seu tempo”. Tal ditadura do discurso pode ser ainda imputada a Galileu e a diversos escritores, cujas obras eram vistas como manifestações assíncronas diante de um discurso fortemente pré-estabelecido. Nessa última conjuntura, há as figuras de Sousândrade (autor de O Guesa Errante, uma espécie de libelo indígena em consonância com os ares da modernidade, sem deixar de lado o primitivismo – o indício de que a antropofagia preconizada pelos modernistas de 22 ainda era forte demais para a sociedade escravocrata e imperial do Brasil finissecular dos 1800) e de Adolfo Caminha (com seu romance O Bom Crioulo, cujo assunto – a relação homossexual entre um negro e um grumete em fins do século XIX – não mereceu o indigesto verniz naturalista, que a tudo reduzia como disfunção biológica e, por isso, sofreu crítica virulenta do discurso em voga).

1214_794.jpg

Esse último exemplo servirá para trazer a lume os três tipos de interdições que Foucault relata. O protagonista de O Bom Crioulo é o negro Amaro, de índole pacífica, exceto quando bebe. No momento do açoitamento, Caminha o descreve: “Metido em ferros no porão, Bom-Crioulo não deu palavra. Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influência alcoólica, submeteu-se à vontade superior, esperando resignado o castigo. — Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era tão bom quanto os outros, mas, que diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem... Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro... Estava satisfeitíssimo” (Caminha, ADOLFO). Sob a égide do discurso naturalista, o qual conformava os romances da época como obras de tese calcadas no Determinismo social e físico, Caminha carecia do certificado de verdade concebida por tal patamar discursivo. O negro era exaltado em sua virilidade e potência física, e não havia sanção ao plano dele em conquistar o jovem loiro Aleixo. Aí entra Foucault para explicar o ostracismo a que esse romance esteve condenado. A primeira interdição foucaultiana é o tabu do objeto: consoante à época e à classe hegemônica, não se pode dizer tudo. Há assuntos interditados. Assim como a Igreja Católica elaborara uma lista de obras proibidas a seus fiéis (o famigerado Index), existem temas proibidos ou cuja abordagem é consagrada pelo discurso.

A segunda interdição é o ritual da circunstância. Diz respeito onde algo é dito, ou seja, aos estamentos sociais se espera a reprodução de um determinado discurso. Como exemplo concreto, há o caso de Gustave Flaubert, que lançou um romance, Madame Bovary, no qual o narrador se isentou de condenar o adultério da protagonista Emma, tendo, inclusive, a ousadia de imputar a “culpa” das reiteradas traições dela pela vida medíocre que lhe era imposta. No julgamento dele – sim, ele foi levado aos tribunais –, Flaubert disparou: “Madame Bovary c'est moi”. Ao romancista, havia igualmente temas interditos e esperava-se de tal posição uma ratificação do discurso em que ele se inseria: classe burguesa, velando pelos valores familiares que iam-se descortinando sob o avanço do capitalismo.

A terceira interdição é o direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala. Esse item se imiscui nos outros dois anteriores e corrobora uma faceta dúplice que não exclui as partes que a compõem: o ato de discursar é vedado à maioria e, ainda, presta-se a uma vigilância constante. Perseguem-se os assuntos, com o respaldo do silenciamento do sujeito.

Essas interdições se vazam na intersecção com a Psicanálise: o discurso não é apenas a manifestação do desejo, mas sim o apoderamento dele também se move por meio do desejo.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @obvious //Gilmar Luís Silva Júnior
Site Meter