pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Dor de arame

A apresentação da dor aos olhos de uma criança pode ser uma experiência comovente.


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Olhei para o alto do céu e não pude contar as estrelas, de tantas que se assanhavam naquele negrume absurdo, que, por tanto tempo, evitei de pensar a origem, a causa, a razão e a finalidade de tanta escuridão sobre o mundo. O ar sequer se movia, fazia calor, mas, criança que era, a atenção quedou-se diante do espetáculo da abóbada celeste, como dizia um tio com ares professorais.

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O corpo tão jovem tem a virtude de esquecer os dissabores alheios. Era quente aquela noite de data tão difusa quanto as lembranças; os adultos faziam disso a foz de tanta frustração, de tanto ocaso de vontades que, de tão tíbias, escorriam na mesma sofreguidão dos suores furtivos das testas e das axilas. Queixavam-se de dores. Via apenas uns cenhos carregados de tristeza, disfarçada na escusa do trabalho farto e dos anos avançados. A criança, não. O pescoço parecia entortar-se ao limite. Se a dor se insurgisse, ela não teria palco para o monólogo tão comum na sala.

À medida que a contagem me parecia impossível, o interesse pelo céu esmorecia. O pescoço voltou à posição normal, os olhos volveram o chão e estancaram numa revoada de gritos que singrava a rua envolta na escuridão. Uma das vozes acenou-me. Não quer brincar conosco? Claro que sim. Naqueles idos, o portão de ferro verde não se trancava antes das 22 horas. Não houve espaço para a consciência, saí voando para a rua.

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Na assuada, quem não a conhecesse bem, jamais poderia imputar-lhe algum tipo de sensatez. Um esconde-esconde se insurgiu do alarido e, num átimo, mãozinhas nos ombros, dedos em riste, princípios de contendas, amuos diversos se renderam a uma cabeça apoiada na parede, a contar preciosos números que colocaram o restante dos pequenos em debandada aí sim caótica.

Cruzei a esquina, não percebi os bêbados diários no balcão um dia branco da padaria. Havia um monturo de lixo, de reformas de três casas geminadas. Blocos quebrados, pias antigas, louças empoeiradas, tudo era claro, embora a luz dos postes fosse tão tímida para sublevar a veemência da noite. Estava ali meu esconderijo ideal. Pus-me a correr celerado, cruzei uma calçada a passadelas de ginasta. Meu monte se aproximava. A segunda calçada era questão de segundos, a respiração pela vitória, pelo achado do latíbulo exemplar se acelerava tal qual a minha velocidade.

O sorriso que se esboçava foi puxado por um fim à corrida. Três fileiras de arames, invisíveis por serem opacos, abraçaram minhas pernas. Lembrei-me, numa centelha de segundos, do aviso da gente adulta, de que a rua não é um lugar seguro. O arame debaixo se assanhou mais, a carne dos tornozelos era mais macia, e o ferro enrolado se pôs a cruzar-me sem muita cerimônia. Não pude continuar. A montanha branca estancou ali, defronte a mim, que tingia a palidez da noite com rios púrpuros. Sentei-me no chão, quis chorar, olhei para os pátios das casas, tudo parecia me ignorar. Lampejos nos quintais não queriam ouvir ais de uma criança que acabou com o cercadinho de arame de uma calçada com cimento fresco. Deixei três passos impressos na massa ainda úmida, eram dedinhos infantis, cuja ousadia em ali pisar me introduziu a dor.

Saquei as pernas das amarras, mesmo sentado, pus a me esgueirar para um terreno baldio. Os arames rangeram, pulularam das casas uns vultos, que se mortificaram pelo cercado desfeito. Inferno de crianças, bom que tivesse ficado alguém aleijado com essa. Engoli o choro, até me esqueci da dor pregressa e comecei a saborear as palavras que ouvi. Eram duas novidades que se imiscuíam no meu espírito ainda terso. A dor dos arames na carne doía muito, o sangue em profusão parecia chorar comigo. Mas havia outro momento, outra sabedoria, com um gosto diferente. Sem querer, vieram-me os sestros dos adultos queixosos de si e da vida circundante. Novamente, os adultos desconhecidos se lamentavam por uma cerca, por um cimento salpicado aqui e acolá de pezinhos que, vez e outra, decidiram se aventurar. Certo que aventuras demandam riscos.

Olhei para a calçada, havia pingos de sangue. Eram poucos, os adultos sequer os olharam. Lamuriaram-se por parcos minutos, abriram o portão, entraram novamente, tomariam as medidas amanhã, com a luz do sol. Vamos colocar é vidro para parar essas pestes.

Com o silêncio deles, levantei-me, cambaleante. Esqueci a brincadeira, certamente já concluída, pois passavam pela rua gentes desconhecidas e graúdas. Destranquei o portão verde, ali em casa as queixas haviam terminado na sala e estavam agora na cozinha. O banheiro era antes. Entrei rápido. Os chinelos se desvencilharam dos pés, ora cobertos de pó, ora de sangue já seco. Abri o chuveiro e continuei ali, chorando. Ardia um pouco o corte nos tornozelos. Mas vinha, não sei de onde, um torvelinho esquisito do peito, a desatar as torneiras dos olhos.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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