pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Infância

A primeira briga entre os pais nunca poderá ser esquecida.


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Estava na mesa com meu primo. Havia três cadernos espalhados; minha mãe lavava a louça do almoço. Meu pai, estirado no sofá, pululava entre os canais de TV, dos quais não me recordo a programação.

De repente, a mãe deixa escapar um prato, cujo barulho da queda na pia eleva meus olhos do uníssono dos estudos. Estava ensinando meu primo aqueles conceitos de ditongo, hiato e tritongo... era saboroso brincar com as letras, pronunciar delicada e pausadamente as palavras, quase um precursor da escansão de versos.

Ela tentou disfarçar o desnorteio. Riu-se, virou-se rapidamente para as duas crianças, fechou o cenho quando divisou meu pai, o qual não escondeu um esgar. - Não aguento mais, saiu como um sopro da boca de minha mãe.

Ao que, incontinenti, ele afirmou: - Ué, então te manda! infancia.jpg A caneta desabou de minha mão. Aos 8 anos, cada palavra disparada a ferro e fogo parece realmente feita de tais elementos... a sinceridade embebe os ouvidos infantis, desde a promessa daquele doce na feira até mesmo uma ríspida conversa. O mundo dos adultos casados assumia uma dimensão castelã.

Rispidezas cruzavam o ar em profusão, após o primeiro embate. Enquanto isso, não pude mais falar sobre as vogais que se unem ou que se separam. Os olhos marejados impediam-me de divisar algo a ser ensinado.

- Outra como ela não vai achar mesmo.

Não lembro o tom de minha voz aos oito anos. Não sei se a frase zarpou de mim com lâmina dos tons mais agudos, se saiu amarela de covardia. Ela, contudo, fez o homem acachapado no sofá voltar os impropérios a mim.

- Cala a boca, menino de merda.

Tive medo, pois a voz dele não saíra grossa, mas carregada de algo tão metálico, que mais tarde descobri chamar-se desprezo. Pela primeira vez, aquilo chegara a mim, dois ouvidos acostumados aos mimos da mãe, das minhas tias e até das professoras do colégio.

Desde então, um anjo, talvez o responsável pela minha guarda, abdicou de seu posto e o passou a outra entidade, não tão parcimoniosa e tampouco serena, a qual incutira num hiato entre o arfar do desespero e da queda das lágrimas:

- Vais defender tua mãe.

Ergui o rosto para cima, para os lados. Esqueci meu primo. Queria achar a voz.

- Não agora, mas muito mais tarde.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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