pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Mário de Andrade: uma faceta do contista

Mário de Andrade, escritor paulista, foi um dos mentores do Modernismo brasileiro. Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia, dissera o escritor russo Liev Tolstoi. Mario serviu-se do conselho e trouxe a diversidade de imigrantes de uma São Paulo que ensaiava para ser metrópole.


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O Modernismo brasileiro, em especial à chamada Geração de 22, tornou-se conhecido posteriormente como uma época de demolição e de alarido intenso. Combatia-se a herança parnaso-simbolista com tal afinco, que se fazia uso da sátira por palavras ou por charges para ridicularizar os poetas do movimento predecessor. Os escritores de 22 se inebriaram com manifestações de vários ismos europeus, como o excerto a seguir da carta Bofetada no gosto público, de autoria de poetas russos, entre eles Maiakovski:

“(...) O passado é estreito. A academia e Puskin são mais incompreensíveis que os hieróglifos. Lancemos Puskin, Dostoievski, Tolstoi etc, do navio de nosso tempo (…) Odiar sem remissão a língua que existiu antes de nós”.

Nesse ínterim, parece descrever o trecho acima parte do programa do Modernismo nacional, no tocante à forma superficial de seus textos. Digo superficial no que concerne à estrutura que salta aos olhos: a revelia à gramática, a incorporação de tropos comuns ao povo e enriquecimento textual pela inclusão de neologismos. E o ranço contra o academicismo – no nosso caso, contra a Academia Brasileira de Letras – mereceu, de fato, uma menção de Mário de Andrade num pequeno artigo dedicado à Cecília Meireles, no qual ele afirma ser a academia “pouco fecunda e perniciosa” por muitos lados, concluindo que essa é o espaço para o exercício da “experiência do medalhão” (em alusão ao conto de Machado de Assis, no qual se critica o fato de a posição social e econômica ser condição sine qua non de erudição; embora, realmente, tal qualidade seja falsa).

A estrutura mais profunda do Modernismo se encontra fortemente delineada na prosa e na poesia de Mário de Andrade, já que, em virtude de seus interesses multidisciplinares (literatura, música, folclore etc), soube dar contorno a um programa ideológico. A ânsia de conferir brasilidade aos escritos faz Mário percorrer um caminho diferente de outro escritor, cujo mote da obra fora mapear o país recém-independente: José de Alencar. O modus operandi de ambos é diverso, mas bebericaram na mesma fonte: os teóricos e os escritores franceses.

Desde a independência, o Brasil alçou a França como grande emissora de ideias a serem seguidas. O país da Revolução de 1789 proporcionava ideais a serem seguidos pela jovem nação tupiniquim. O Romantismo, em voga na Europa desde o fim do século XVIII, coloriu-se aqui de clara influência francesa, sem, no entanto, dirimir de todo a importância da egolatria alemã (como em Werther e em Wordsworth) ou da busca do passado mítico (como em Walter Scott). Como ressalta a professora da USP, Maria Cecília de Moraes Pinto:

“Em suma, literariamente a França oferecia sugestões que podiam seduzir jovens escritores em busca de seu passado nacional. Nesse sentido, os conselhos de Ferdinand Denis, ao propor como motivos sugestivos aqueles que a realidade do país oferecia, encontraram recepção muito favorável. (…) apoiando-se na lição de Chateaubriand, os jovens escritores puderam recriar um passado nacional onde se vislumbravam, no plano narrativo e ficcional, as origens sufocadas pela colonização”.

A brasilidade, num primeiro momento, estaria vazada num sentimento de alteridade radical, ou seja, na confecção do Eu por meio da importância dada ao Outro. Os motivos de ingerência sobre a prosa (principalmente) não se desvinculam do programa europeu da estética romântica. Seria a reedição do contato do europeu com a natureza pródiga nos anos de 1500, o qual rendera uma série de livros que se alicerçavam ora no assombro da terra, ora na necessidade de fazê-la rentável.

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Outro momento em que a França se faz presente no cenário nacional é a chamada belle époque, de fins do século XIX e início do século XX. Contudo, nesse ínterim, o esteticismo solaparia qualquer resquício de fomento à brasilidade, resumindo tão somente ao culto da forma, com poderosa impessoalização do artista. É o momento das revistas de cultura, como Fon Fon, nas quais desfilavam os poetas parnasianos, cujos versos se direcionavam a um público reduzido e castiço em relação à língua.

Eis que Mário de Andrade, também atento à fortuna crítica francesa, redige, nos anos 30, um artigo chamado Decadência da influência francesa. Nele, o modernista chama a atenção para a emergência de novas influências, classificando o influxo francês como benemérito em comparação à intervenção estadunidense.

O programa de brasilidade de Mário utilizou principalmente Alencar, no sentido de combatê-lo, para que, a partir das cinzas deste, pudesse surgir uma espécie de fênix. Por isso, Macunaíma vem à baila por conta de uma oposição ferrenha a duas obras alencarianas, O Guarani e Iracema. O herói sem nenhum caráter já denota aí sua aproximação com o povo em si: ele possui algum caráter, o qual é difuso, totalmente destoante do modelo europeu de valentia e valor.

No manifesto A escrava que não é Isaura, Mário mostra a premissa basilar da criação: “começo por conta de somar: necessidade de expressão + necessidade de ação + necessidade de prazer = Belas-Artes”. A partir disso, ele intervém no cerne da criação, ao afirmar que “as leis do Belo eterno artístico ainda não se descobriram; e a meu ver a beleza não deve ser um fim”. Imbuído de tal corolário de ideias, ele tratou de conceber a brasilidade.

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Mário seguiu de perto o que Oswald de Andrade colocara como proposta no Manifesto da poesia pau-brasil. Diz Oswald: “a poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos”. E, recortando da obra de Mário Os Contos de Belazarte, há aí um esforço imperioso em trazer o cotidiano e o prosaico mais chão que se fizera até então na literatura brasileira.

Mário focou os contos no elemento italiano, que se espraiava pela geografia da pujante São Paulo cafeeira e em vias de industrialização. Segundo dados de Morse, em 1901 a capital paulista contava com 55 mil operários, dos quais 50 mil eram italianos. A etnia, consoante informação do IBGE, reunia duas condições valorizadas por autoridades públicas, por intelectuais e por empresários: a proximidade do idioma, da religião e dos costumes, e a ânsia de branqueamento da população, como um tributário do determinismo de Taine.

A construção desse aspecto de brasilidade em Os Contos de Belazarte apoia-se na dicotomia do narrador de Walter Benjamin. O pensador frankfurtiano tratou de elencar dois tipos básicos de narrador: o viajante (aquele que viajou mundo afora) e o sedentário (aquele que conhece as tradições e costumes do povo). Mário estaria imerso nesse último, consubstanciando tal aproximação com a marca de oralidade em cada conto – Belazarte me contou, seguida de uma espécie de fluxo de consciência, como que, de repente, percebesse a presença do ouvinte e, aí, iniciasse a exposição.

Os tipos desfilam nos contos, sendo o narrador o intérprete de um personagem – Belazarte – que se porta tristinho e realista. A adjetivação é mínima – ao contrário da estética romântica – e há a valorização do prosaico, o qual fora alijado da literatura em virtude de esquemas valorativos. Belazarte se comporta tal qual um Carlitos do subúrbio paulistano, o qual não se encontrava na miséria absoluta, mas também se apartava de toda elegância dos abastados. Belazarte – ou o Carlitos da prosa de Mário – estava atento à miudeza do cotidiano, a uma espécie de nova formação do povo brasileiro, através da imigração ensejada pela industrialização do país. Irenísia Torres de Oliveira, professora da UFC, salienta que “o programa nacionalista, portanto, parece ter efetivado uma espécie de seleção no material do bairro ainda rural, todavia em processo de industrialização”.

Essa rotina massacra a vida das personagens, pois, perdido na tessitura dos contos, encontra-se que a rotina “não bota reparo no amor”. Negam-se os feitos heroicos de outrora e, para sedimentar a importância do prosaico, o desfecho disfere um golpe fatal aos finais de contos de fada. Lê-se com desgosto, mas com foro de verdade: “e foi infeliz”. Plínio Barreto, em resenha publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 24 de maio de 1934, diz ser Belazarte “um Zaratustra nacional, rapsodo zombeteiro e amargo das misérias humanas de colorido brasileiro”. Ainda há a própria formação do nome Belazarte: seria a concordância mal resolvida dos italianos de subúrbio, “belas arte”, na análise de Maria Célia de Almeida Paulillo, no ensaio Mário de Andrade contista.

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E o conto, na própria acepção de Mário sobre esse estilo, não seria o meio mais eficaz de se passar uma história de tal envergadura como a dos subúrbios paulistanos. Assevera Mário que “a leitura de vários contos seguidos nos obriga a todo um esforço penoso de apresentação, recriação e rápido esquecimento de um exército de personagens, às vezes abandonados com saudade”. Diante disso, Mário fez de Os Contos de Belazarte um livro coeso, no qual a ordem das estórias não é acaso, mas sim parte de uma proposta. Tal proposta – dita anteriormente na verdade de ser de Belazarte, o tradutor das misérias tão locais que, no entanto, parecem servir à humanidade – focaliza os tipos que se entrelaçam com relações de parentesco, de vizinhança e de desejo. A doença, por exemplo, aparece presente em dois contos. Em Túmulo, túmulo, túmulo, “a turberculose galopante (...), andava fazendo cento e vinte por hora na raia daquele peito apertado”; em Piá não sofre? Sofre, “micróbio foi pra barriguinha dele, agarrou tendo filho e mais filho a milhões por hora”. Os contos irmanam-se não só no uso extensivo das personagens – como o João, marcado pelo fracasso nos relacionamentos amorosos – mas também pela presença de condições de vida aquém do humanamente aceitável. Dados de Morse, de 1887, relatavam a quantidade de mortes ocasionadas pela falta de saneamento básico, além da inexistência de uma política de profilaxia das autoridades públicas. Nesse ano, a turberculose ceifara 209 mortes; moléstias do aparelho digestivo, 397 óbitos.

O conto, talvez por suposição minha, encaixa-se ainda no ritmo frenético da prosa modernista, insuflada pelo ideário futurista. Os trechos acima elencados são prova de que a doença é veloz. O desprezo de Carmela por João, em Jaburu Malandro, também foi célere, ainda mais se levarmos em conta o relacionamento deles antes da chegada de Almeidinha. Não chega a ser de cariz tão telegráfico e nervosos como em Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, mas Os Contos de Belazarte resolvem a quebra de unidade de uma seleção de contos por conta de um projeto nacionalista destituído de amor. Mário escreveu em homenagem à realidade, ou, a Nelson Rodrigues, “a vida como ela é”.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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