pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O celular

As pessoas se sujeitam a muitas coisas humilhantes em prol de um objetivo digno.


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Um par de botas brancas sufocava os joelhos. De quando em vez, o pé direito se prostrava diante do esquerdo. As coxas amorenadas, com círculos arroxeados dispersos, eram-lhe o chamariz. A cabeça baixa perscrutava inquieta o celular, que tremia compassado nas pequenas mãos.

Clientes em potencial passavam ao largo. Ela não os olhava. Nem tampouco dizia, num português simplório: “Vamu?”. As amigas de faina andavam em espaços pequenos, com longas passadelas, cabelos em revolução. Puxavam os homens passadiços sem critério de escolha. Bastava usar sapatos.

Um senhor de meia idade vinha sôfrego. Parecia sofrer de asma. Andava dois metros, recostava-se a uma parede. Num átimo, tirou um cigarro. E fumou. Tossiu a cada tragada. Olhou em volta, os casarões pintados de rosa, de azul e de verde. As cores de todos eles estavam desbotadas. Assim como os critérios de nossas cortesãs modernas.

Uma loira sem os molares jogou uma franja espessa e seca diante dos olhos. O artifício sempre funcionava. O velho passou adiante. Continuou a tossir. Ela emburrou. Não pelo desprezo, mas por vinte reais que cambaleavam num bolso asmático.

O velho se deteve na meretriz do celular. As botas eram compridas como as outras. As pernas marcadas de bituca de cigarro. O batom vermelho dos lábios era uma flor com pétalas descaídas e decadentes. Repentino, meteu-lhe a mão no traseiro rombudo.

Ela levantou os olhos. Ele sorriu, descortinou dentes de gema de ovo. Ela depôs o celular na cintura, saracoteou os ombros, tartamudeou uns grunhidos, sorriu. Pegou a mão do velhote. Subiram uma escada suja, com tocos de cigarro e embalagens de preservativos. Uma tênue lâmpada teima em se balançar no corredor. Tudo era silêncio entrecortado por risadas e sussurros. As portas dos quartos pareciam furadas à bala. botas-infantil-6.jpg Trancou a porta com um solavanco. O velho atirou-se na cama, um colchão que jorrou pó. Abriu a calça, um membro flácido foi posto à mostra pelas mãos enrugadas. Com a mão direita, chamava a heroína.

Ela abriu o botão do pequeno xorte. Cuidou que o celular fosse colocado num criado mudo, ao lado da cama. Dividia a atenção entre o velho e a tela do aparelho. O velho dirigia-se cambaleante para a cama. Passou pela moça, apenas de calcinha, tocou-lhe o ombro esquerdo, sorriu novamente. Ela se despiu e mostrou pelos pubianos delicadamente aparados. Com isso, fez chispas saírem dos olhos do velho. O membro dele, no entanto, não reagia ante as provocações do sexo frágil.

O velho a agarrou. Ela abriu os olhos, fechou ou olhos, suspirou profundo. Ele pôs a mão esquerda sobre a cabeça da garota. Ela ia-se aconchegando no peito dele, quando a mão senil lhe forçava para baixo. O velho almejava uma felação.

O celular gemeu a poucos centímetros dali. Ela se desvencilhou da mão do velho, ergueu a cabeça, apertou os olhos. Mensagem da mãe. Levantou o corpo, os seios ficaram balançando sobre os lábios do cliente. Incontinenti, ele abocanhou o esquerdo, depois o direito. Ela ganiu baixinho, balançou a cabeça, jogou o débil prazer para longe e tocou a tela do aparelho móvel. A mensagem dizia: “A operação da mãe foi um sucesso; o hospital quer o pagamento até semana que vem”. Suspendeu a respiração ofegante.

Voltou-se para a cama. Deteve-se sobre o velho. Ofereceu-lhe com afinco os seios. Queria carinho. Ganhou vulgaridade. Despiu-se das palavras, encarnou os gemidos, levou as mãos débeis do velhote aos seios. Arqueou as pernas, sentou-se sobre ele. O membro não emitia sinal de vida. Melhor assim. Até conseguiu sorrir. Mais cinco clientes e teria em mãos o montante da fatura do hospital. A mãe estava salva.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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