pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Na montanha

A sabedoria não atende a faixas etárias tampouco à instrução formal. Muitas vezes, é o ensimesmamento (voltar-se para si) que conduz à verdadeira sabedoria.


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Confúcio se cansara de ensinar ao povo e decidiu então ir ao monte Jing. Encilhou uns búfalos e se pôs a trotear para seu descanso. A subida por uma estrada estreita e tortuosa ofertava-lhe uma visão da beleza primaveril. Flores em profusão desabrochavam como se acordassem de um sono longo. O cimo da montanha, coberto de neblina, infundia nele a paz a que tanto almejava. Absorto na contemplação, não reparou num menino que brincava no meio do caminho. O garoto remexia na terra e, lentamente, tentava edificar uma muralha de barro. Confúcio serenou o galope, emitindo um chiado, a plenos pulmões, até para chamar a atenção do rapazote. O menino divisou a carroça e, sem pestanejar, colocou-se atrás da pequena muralha. - Menino, estou passando. Não estás vendo? - É o carro que deve contornar a muralha e não o contrário. Confúcio, primeiramente, ficou enraivecido. Ora essa, os jovens de hoje não mais reverenciavam os mais velhos. Em seguida, riu-se, achando perspicaz a resposta do guri. - Quantos anos tens? - Sete. - Apesar de teres somente sete anos, deste a mim uma boa resposta. Qual teu nome? - Não tenho nome algum. criançachinesa.png Confúcio adorava brincar com as palavras e com as ideias. Desceu da carroça. E cogitou testar a perspicácia do jovem. - Sem Nome, dize-me uma coisa. Conheces montanha sem pedra? Pé sem dedo? Céu sem passarinho? Água sem peixe? Saboreando cada pergunta, Confúcio sorria. O menino, incontinenti, abriu mais os pequenos olhos quando o outro cessara a saraivada de perguntas e disparou em tom quase melancólico: - Uma montanha de terra não tem pedras. Pé de mesa não tem dedo nem unha. No céu da boca, pássaro não voa. A água do poço não tem peixe. O sorriso de Confúcio sumiu. O menino desmontara a arapuca. - Tens resposta pra tudo. Vamos sair mundo afora para ver se todas as coisas são iguais? - O mundo não pode ser igualado. No alto, erguem-se as montanhas; embaixo, correm os rios. De um lado, uns mandam; outros obedecem. Poderia o mundo ser mais igual, isso sim! - Se aplainássemos as montanhas, teríamos rocha e terra para cobrir mar e rios. Poderíamos expulsar também os ricos e libertar os escravos. Nesse caso, o mundo seria igualado. - Se aplainássemos as montanhas, onde os animais se refugiariam? Se enchêssemos o mar e os rios, onde nadariam os peixes? Se expulsássemos os que tudo tem, quem lhes daria emprego? E, se todos os escravos fossem libertos, por que continuariam a lhe pedir conselhos? Confúcio percebeu a sabedoria do menino e tratou de miná-la em embate mais simples. - O que é esquerda e direita? - O Leste e o Oeste – respondeu o jovem. - O que é interior e exterior? - O Sul e o Norte. - Bom!, disse Confúcio. – Não perdes uma! Mas será que um menino de sete anos sabe se a mulher está mais perto do seu marido do que uma mãe de um filho? - A mãe está mais perto de seu filho do que uma mulher do seu marido – riu o rapaz. - Ah, essa não! A mulher está mais perto do marido do que a mãe do filho. Durante a vida, a mulher e o marido dormem juntos, na mesma cama. Quando morrem, são enterrados lado a lado no túmulo. - O senhor está enganado. A mãe está mais perto do filho do que uma mulher de seu marido. E provo o que estou dizendo. A mãe é para o filho como as raízes para as árvores. Uma mulher é para o marido como as rodas para o carro. Quando a mãe morre, é como se árvore ficasse sem raízes e fenecesse. Quando um marido fica viúvo, pode arrumar outra esposa, como um carro pode ter outras rodas. Confúcio parecia atordoado. O menino levantou-se do chão e disse: - Respondi a tudo, agora são as minhas perguntas. - Sim, podes fazê-las. - Como os marrecos e os patos podem nadar? - Ora, porque eles têm as patas espalmadas! - Não, palma existe na mão. As tartarugas também nadam e não possuem patas espalmadas. Confúcio tossiu e esperou a outra pergunta. - Como os grous e os gansos conseguem gritar? - Porque eles têm o pescoço comprido. - Não, as rãs gritam e nem pescoço têm. Confúcio sacudiu a cabeça. Não mais sorria. Cruzou os braços e aguardou mais um petardo. - Quantas estrelas há no céu? - Vamos falar de coisas que podemos ver. Tudo bem? - Sim. Então quantos cílios o senhor tem nas pálpebras? - Desisto, não consigo ganhar. Agora eu temo uma criança. Queres ser meu mestre? O menino voltou ao barro e não respondeu.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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