pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Polissemia e homonímia

Qual a diferença entre polissemia e homonímia, dois fenômenos que são extremamente frequentes na nossa língua?


palavras.jpg 1. Conceitos básicos

Uma discussão sobre as fronteiras entre polissemia e homonímia perpassa por uma explanação acerca do sentido. Durante muito tempo, esse aspecto da linguagem foi negligenciado no século XX, tanto por estruturalistas (em menor grau), quanto por gerativistas. O sentido foi posto mais para o lado de filósofos, o que Benveniste citou num artigo intitulado A forma e o sentido da linguagem: “Não é necessário ir muito longe: a escola do linguista americano Bloomfield, que representa quase toda a linguística americana e com larga influência fora dela, taxa de mentalismo o estudo do meaning, de qualquer maneira que se traduza esse termo”. Apreendendo o citado, pode-se concluir que o sentido é carregado de subjetividade, escapando assim do escopo de estudos do linguista. No entanto, um semanticista de vulto, Michel Bréal, chamou a atenção para ações tão idiossincráticas do uso da linguagem que denotariam o componente subjetivo do enunciador: “(...) a linguagem é um drama em que as palavras figuram como atores e em que o agenciamento gramatical reproduz os movimentos dos personagens (…) o produtor intervém frequentemente na ação para nela misturar suas reflexões e seu sentimento pessoal”. E ainda o pai do estruturalismo, Saussure, apregoa que entre o significante (a representação) e o significado a relação é arbitrária, isto é, não se enxerga um vínculo motivado entre o conceito e a palavra que o representa. No que tange ao propósito de diferenciar polissemia e homonímia, a arbitrariedade do signo corrobora no que concerne ao fato de a forma ser mais limitada que o conteúdo. Para traçar um objetivo diferenciador entre polissemia e homonímia, deve-se enxergar além do dito por Saussure, que a língua seria forma e não substância. A forma, como veremos, não abarca as possibilidades da substância, entendida aqui como a matéria do signo linguístico: a matéria sonora do significante e a matéria conceitual do significado. Conceber a língua como forma apenas excluiria a matéria conceitual, de suma importância para o entendimento das idiossincrasias do uso. Novamente, Benveniste coloca uma dicotomia no quesito sentido. Para o insigne linguista francês, o sentido bifurcar-se-ia em sentido semântico e semiótico. Este seria o sentido imediato, tangenciando o que as gramáticas normativas denominam de denotativo. Benveniste explica que o sentido semiótico seria aquele isolado, como a palavra francesa rôle significando papel. A partir desse significado, papel pode assumir diversas acepções e começa a preencher conceitos diversos de outrora. Concomitante a papel para escrever, diz-se papel de um ator numa peça. Isso é o chamado sentido semântico, que Benveniste associa à cultura: “Tudo o que é domínio da cultura deriva no fundo de valores, de sistema de valores. Da articulação entre valores. Estes valores são os que se imprimem na língua”. Portanto, uma análise de sentido deve perpassar pelo estudo do significado cotejando-se com o ambiente cultural no qual ele se insere.

02fgfgh.jpg 2. Polissemia e Homonímia

Tomemos a palavra verde nas duas frases abaixo: A fruta amarela está verde. Aquela fruta tem uma tonalidade verde. Há um titubeio conceitual ao definir verde como um único item lexical ou como uma palavra fonológica comum a dois itens lexicais ou lexemas. Em primeiro lugar, item lexical ou lexema contém o significado lexical, ou seja, a simbolização do recorte dos ambientes físico, biológico e social feita por determinada língua (em oposição ao morfema, que contém o significado gramatical); corresponde a raiz e a semantema. Esse conceito, do linguista A. Martinet é de extrema valia na conceituação de polissemia e de homonímia. Voltando ao exemplo, a palavra verde, adjetivo em ambas frases, pode ser encarada como (1) não madura, (2) cor. Esse fato conduz a uma percepção de verde como uma palavra que possui diversas entradas no dicionário, mantendo assim a identidade de um único lexema; ou como duas palavras com entradas distintas no dicionário, correspondendo a lexemas diversos. A primeira situação diz respeito à polissemia (muitos semas, ou seja, traços semânticos distintivos); a segunda, à homonímia. O trato da polissemia remonta à imersão da língua no ambiente cultural. A homonímia é um processo interno das línguas, estritamente linguístico, que demanda conhecimento etimológico. A valoração da polissemia conduz a entradas amplas e exaustivas dos lexemas nos dicionários. Se fôssemos conceder primazia à homonímia, as entradas lexicais aumentariam substancialmente, o que abalroaria o princípio da economia linguística. F. R. Palmer elenca uma série de atributos dos vocábulos polissêmicos, com intuito de fazê-los diferentes dos homônimos. O primeiro aspecto seria o campo de sinônimos que uma palavra polissêmica possui, na faina de abarcar todas as possibilidades de seu significado. Esse campo semântico encontra-se gravitando em uma espécie de núcleo de significado, que Palmer define como uma relação de um significado rudimentar entre os sinônimos, muitas vezes percebido facilmente, noutras, não. O gramático Mário Perini fala de uma gradação de elos semânticos entre as palavras e suas derivações polissêmicas, até atingirem de fato o terreno da homonímia. E que a polissemia não é um defeito das línguas naturais, mas sim uma técnica que elas possuem para conseguir elencar todos os elementos inéditos no rol do léxico. Esse fato de um núcleo comum torna-se opaco com alguns exemplos. Palmer fala na palavra key, como chave propriamente dita, e também como solução – key of trouble –, mas vê como polissemia o uso de keys of piano. Não há, nesse último, um núcleo claro das teclas do piano para a acepção primária de chave. Quando não há relação de qualquer forma, Palmer diz que as palavras são homônimas. Ele ainda refuta o historicismo linguístico a que muitos dicionaristas se valem para classificar as palavras em polissêmicas e homônimas: “Os dicionários baseiam-se em geral na etimologia. Se existem formas idênticas, mas que se sabe terem origens diferentes, são tratadas como homônimas e vão ter fichas de entrada separadas; se a origem é comum, e mesmo que tenham significados diferentes, são tratadas como polissêmicas e terão uma só ficha de entrada no dicionário”. O que Palmer chama a atenção é que a evolução histórica da língua não é um meio seguro de confrontar a realidade das palavras. O caso das palavras são (São Paulo, forma sincopada de santo) e são (do latim sanus, saudável) podem atestar uma via inviolável para dizer que são homônimas, já que a origem é diversa, ainda que morfologicamente sejam idênticas. No caso das palavras canto (O canto das sereias) e canto (Eu canto diariamente), vemos que possuem origem comum e são homônimas. De fato, a etimologia não pode ser levada como meio eficaz de diferenciação. Agora, o núcleo comum a que Palmer se referiu pode ser testado nos exemplos a seguir: a) fio (de linha) versus fio (elétrico); b) choque (elétrico) versus (susto); c) roda (de amigos) versus roda (de carroça); d) batida (trombada) versus batida (bebida); e) mosca (inseto) versus mosca (centro de um alvo); f) pena (ave) versus pena (castigo). Analisando uma ótica do núcleo semântico comum, os itens a, b e c são polissêmicas, já que mantêm-se entre si um rudimento denotativo comum, ou seja, o fato de se ligarem por um princípio da primeira entrada do lexema em questão. Exemplo: o fio, como algo delgado e de pouca espessura, é comum às acepções em a. Agora, o item d não encontra claro esse núcleo. A batida como impacto não é, de certa forma, nítido na acepção de bebida. A bebida alcoólica é feita a partir de uma mistura de ingredientes; há aí um reaproveitamento semântico de um significado secundário gerado a partir do primeiro, que diz ser a consequência duma batida a miscelânea, a mistura dos elementos outrora organizados. Em e, a palavra mosca como inseto aparece na expressão acertar na mosca. O caráter diminuto do inseto e a dificuldade em acertá-la traduz o louvor em dar à resposta certa de algum enigma ou pergunta. O item f, contudo, foge do traço polissêmico dos anteriores. A despeito da origem diversa (pena como castigo vem do grego; pena como pluma de ave advém do latim), vimos que a etimologia por si só pode conduzir a erros. Essas duas acepções merecem entradas distintas nos dicionários e são homônimas. O elo entre ambas exacerba o caráter de metáfora a que os outros exemplos se alinhavam. A metáfora é uma manifestação polissêmica da linguagem, criada no seio extralinguístico. Além dos elementos aqui elencados até então – cultura, etimologia, reaproveitamento semântico –, existe uma outra forma de precisar melhor os limites de polissemia e de homonímia.

03dfr.jpg 3. Análise componencial

A análise do significado encerra um conceito muito útil, a despeito de haver certa hesitação em elencar seus elementos. Trata-se dos universais ou componentes semânticos, elementos que entram na confecção de uma série de atributos de uma palavra. Tomemos o exemplo das palavras solteirona e marido. Entre elas, podemos instituir os universais humano, adulto, casado, masculino, atribuindo a eles valores binários de positivo e negativo. Para solteirona, completamos: humano [+], adulto [+], casado [-], masculino [-]. O nome desse modelo de fomento de significado chama-se análise componencial. Entre os exemplos de polissemia anteriores, divisa-se algum componente comum, o que não ocorre na homonímia. Este fato mostra que a homonímia difere da polissemia no tocante à inexistência do primeiro de traços universais comuns, enquanto a polissemia possui um.

4. A polissemia e a homonímia em algumas gramáticas

Na Gramática Metódica da Língua Portuguesa, Napoleão Mendes de Almeida se vale do critério etimológico para explicar a homonímia. Ele fala em formas convergentes, isto é, redução de duas ou mais formas latinas a uma única portuguesa . Ele cita a evolução das palavras como (conjunção) e como (verbo): a primeira veio do latim quomodo; a segunda, de comedo. Quanto à polissemia, Napoleão não a menciona diretamente, diluindo-a nos capítulos referentes a figuras de linguagem. De acordo com o conceito de polissemia visto aqui, Napoleão a coloca no terreno da metáfora, como processo de transferência de significado. Numa gramática escolar, intitulada Gramática – Teoria e Exercícios, os autores Paschoalin e Spadoto reservam um capítulo chamado Semântica para fatos como sinonímia, antonímia, homonímia e polissemia. O conceito deles para os fenômenos aqui estudados são: Polissemia → o fato de uma mesma palavra poder apresentar significados diferentes que se explicam dentro de um contexto. Homonímia → o fato de duas ou mais palavras possuírem significados diferentes, mas serem iguais no som e/ou na escrita . Ainda os autores colocam que a polissemia ocorre graças a “significados acoplados às palavras no decorrer do tempo ”. A gramática do professor Luiz Antônio Sacconi, Gramática Básica, elenca uma lista de homônimos, dividindo-os em homógrafos (mesma grafia), homófonos (mesmo som) e perfeitos (iguais na pronúncia e na escrita). A polissemia não possui um capítulo específico, encontrando-se na seção sobre Denotação e Conotação, como um elemento que as palavras apresentam, sendo o sentido ampliado de um original .


Gilmar Luís Silva Júnior

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