pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

A perda da inocência no poema Quinze Anos, de Machado de Assis

A infância, comumente, associa-se à inocência. Como trazer esse quase clichê à luz de arte? Machado de Assis soube trazer filosofia para um tema tão usado.


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QUINZE ANOS

(1860)

Oh! la fleur de l’Eden, pourquoi l’as-tu fannée,/ Insouciant enfant, belle Eve aux blonds cheveux?/

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança.../ – Pobre criança, se o eras! –/ Entre as quinze primaveras/ De sua vida cansada/ Nem uma flor de esperança/ Abria a medo. Eram rosas/ Que a doida da esperdiçada/ Tão festivas, tão formosas,/ Desfolhava pelo chão./ – Pobre criança, se o eras! –/ Os carinhos mal gozados/ Eram por todos comprados,/ Que os afetos de sua alma/ Havia-os levado à feira,/ Onde vendera sem pena/ Até a ilusão primeira/ Do seu doido coração!/

Pouco antes, a candura,/ Co’as brancas asas abertas,/ Em um berço de ventura/ A criança acalentava/ Na santa paz do Senhor;/ Para acordá-la era cedo,/ E a pobre ainda dormia/ Naquele mudo segredo/ Que só abre o seio um dia/ Para dar entrada a amor./

Mas, por teu mal, acordaste!/ Junto do berço passou-te/ A festiva melodia/ Da sedução... e acordou-te!/ Colhendo as límpidas asas,/ O anjo que te velava/ Nas mãos trêmulas e frias/ Fechou o rosto... chorava!/

Tu, na sede dos amores,/ Colheste todas as flores/ Que nas orlas do caminho/ Foste encontrando ao passar;/ Por elas, um só espinho/ Não te feriu... vás andando.../ Corre, criança, até quando/ Fores forçada a parar!/

Então, desflorada a alma/ De tanta ilusão, perdida/ Aquela primeira calma/ Do teu sono de pureza;/ Esfolhadas, uma a uma,/ Essas rosas de beleza/ Que se esvaem como a escuma/ Que a vaga cospe na praia/ E que por si se desfaz;/

Então, quando nos teus olhos/ Uma lágrima buscares,/ E secos, secos de febre,/ Uma só não encontrares/ Das que em meio das angústias/ São um consolo e uma paz;/

Então, quando o frio espectro/ Do abandono e da penúria/ Vier aos teus sofrimentos/ Juntar a última injúria:/ E que não vires ao lado/ Um rosto, um olhar amigo/ Daqueles que são agora/ Os desvelados contigo;/

Criança, verás o engano/ E o erro dos sonhos teus;/ E dirás, — então já tarde, —/ Que por tais gozos não vale/ Deixar os braços de Deus.

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Novamente, aparece uma citação de Alfred de Musset – “Oh! Flor do Éden, por que feneceste/Criança desatenta, bela Eva de cabelos loiros!”. Esse é um importante roteiro acerca que Machado discorrerá no poema. A menção de flores já anuncia que algo se dissipou, diante da fragilidade simbólica que tais elementos carregam consigo. O poema possui uma organização estrófica diversa. Há uma primeira estrofe maior que as demais, calcada na informação descritiva da personagem – uma criança, a qual não é mais vista como um adulto em miniatura. O uso do adjetivo pobre, reiteradas vezes no curso dos versos, visa a salientar o caráter frágil da infância, associando-a à inocência, na esteira do que é exaltado pelo Romantismo – “Oh! que saudades que eu tenho/Da aurora da minha vida,/Da minha infância querida/Que os anos não trazem mais!”.

Diferente de Casimiro de Abreu – que se reporta à própria infância, Machado realiza um movimento de narrador onisciente, traçando uma trajetória descendente, tangenciando o modo do texto épico, o qual abrange a derrocada de um herói. Isso demonstra que o poeta, em qualquer época, não é um criador ex nihil (a partir do nada): O artista fala com o estoque de sensações, sentimentos, informações, intuições, todos consistindo em elementos ‘reais’, que lhe chegam do exterior, do seu corpo e do interior, de sua mente, através da percepção que lhe acode de sua presença no mundo e na história. Sua criatividade é uma faculdade que se insere numa escala de valores que é um continuum, indo do artesão ao artista (CAVALCANTI, Geraldo Holanda. A HERANÇA DE APOLO. Ed. Civilização Brasileira. 2012).

Machado colige nesse poema índices que associam a infância à inocência e o amor ao desengano, duas linhas de força muito intensas no Romantismo. Aliás, o tema do desengano é presente em Machado, mas diverso da poesia romântica em geral e, em especial, da tributária do movimento Sturm und Drang. Na temática mais dolorida, Machado se coloca como narrador externo, equilibrando-se tal qual uma poesia cerebral, sem, todavia, ser impessoal.

A criança é inocente enquanto estiver vedada ao amor. Esse desconhecimento se faz por meio da figura do sono. É no ato de sonhar que reside a ventura, adunando-se a uma visão benéfica da letargia e dos sonhos. Na segunda estrofe, a criança se corporifica em anjo e conversa com o Senhor. Tal proeza é possível se estivesse dormindo, pois, informa Chevalier, existem figurações de que os sonhos sejam a separação do corpo e da alma, sendo esta livre para realizar inúmeras façanhas.

A terceira estrofe mostra o despertar para uma realidade má. Sem perder o ar angelical – “A festiva melodia/Da sedução... e acordou-te!/Colhendo as límpidas asas,/O anjo que te velava/Nas mãos trêmulas e frias/Fechou o rosto... chorava!” – a tentação é uma melodia. A música, na mitologia céltica, conduzia o ouvinte a três diferentes estágios: sono, sorriso e lamentação. Parece ser este o movimento que tal melodia – a da sedução – fizera na personagem inocente do poema: a criança sai da prostração, sorri – na estrofe seguinte, ela se põe a colher flores, uma metáfora para a curiosidade crescente diante do belo que se apresentava aos olhos – e, por fim, lamenta-se.

Quando desperta, a criança deixa de ser anjo e passa ao estágio de rosa, como se verifica na estrofe cinco. Machado, tal qual o poeta baiano Gregório de Matos Guerra fizera, associou a rosa à fugacidade: “Essas rosas de beleza/Que se esvaem como a escuma/Que a vaga cospe na praia/E que por si se desfaz;”.

As lágrimas até mesmo secarão – estrofe seis. O poema se fecha numa estrofe pequena, na qual o narrador a chama simplesmente de criança, sem os apodos anteriormente utilizados – anjo, flor, rosa. Pega-a num tom professoral e fomenta que a criança perceberá que o sono (inocência) era melhor refúgio que as agruras da vigília.

O poema encerra ainda uma questão filosófica interessante de ser mencionada. Como profícuo leitor de Schopenhauer, Machado trouxe à baila o conceito de Vontade do filósofo alemão. Schopenhauer salienta que o corpo é a representação que constitui para o sujeito o ponto de partida para o conhecimento. O corpo é, pois, objeto imediato na medida em que é um mero conjunto de sensações dos sentidos que advêm da ação dos outros corpos sobre si. Nesse primeiro aspecto, o corpo designa propriamente a vontade porque cada ato de vontade corresponde a um movimento corporal; e, então, ele passa a ser - além de condição de possibilidade do conhecer - a chave para se descobrir ou se decifrar o "enigma do mundo". Esse movimento de Vontade – despertar do sono, agarrar as supostas divícias do mundo e sofrer por isso – cristalizar todo o aparato narrativo do poema.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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