pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Análise do poema Os Arlequins, de Machado de Assis

Fantasia, máscara, festa, alegria... elementos que escondem um intuito muito mais forte do que o cariz lúdico que permeia tal festividade. Machado novamente se vale de sua verve crítica para desconstruir a imagem do arlequim.


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Sátira – 1864 Que deviendra dans l’éternité l’âme d’un homme qui a fait Polichinelle toute sa vie? Mme. De Staël

Musa, depõe a lira!/ Cantos de amor, cantos de glória esquece!/ Novo assunto aparece/ Que o gênio move e a indignação inspira./ Esta esfera é mais vasta,/ E vence a letra nova a letra antiga!/ Musa, toma a vergasta,/ E os arlequins fustiga!/

Como aos olhos de Roma,/ — Cadáver do que foi, pávido império/ De Caio e de Tibério, —/ O filho de Agripina ousado assoma;/ E a lira sobraçando,/ Ante o povo idiota e amedrontado,/ Pedia, ameaçando,/ O aplauso acostumado;/

E o povo que beijava/ Outrora ao deus Calígula o vestido,/ De novo submetido/ Ao régio saltimbanco o aplauso dava./ E tu, tu não te abrias,/ Ó céu de Roma, à cena degradante!/ E tu, tu não caías,/ Ó raio chamejante!/

Tal na história que passa/ Neste de luzes século famoso,/ O engenho portentoso/ Sabe iludir a néscia populaça;/ Não busca o mal tecido/ Canto de outrora; a moderna insolência/ Não encanta o ouvido,/ Fascina a consciência!/

Vede; o aspecto vistoso,/ O olhar seguro, altivo e penetrante,/ E certo ar arrogante/ Que impõe com aparências de assombroso;/ Não vacila, não tomba,/ Caminha sobre a corda firme e alerta;/ Tem consigo a maromba/ E a ovação é certa./

Tamanha gentileza,/ Tal segurança, ostentação tão grande,/ A multidão expande/ Com ares de legítima grandeza./ O gosto pervertido/ Acha o sublime neste abatimento,/ E dá-lhe agradecido/ O louro e o monumento./

Do saber, da virtude,/ Logra fazer, em prêmio dos trabalhos,/ Um manto de retalhos/ Que à consciência universal ilude./ Não cora, não se peja/ Do papel, nem da máscara indecente,/ E ainda inspira inveja/ Esta glória insolente!/

Não são contrastes novos;/ Já vêm de longe; e de remotos dias/ Tornam em cinzas frias/ O amor da pátria e as ilusões dos povos./ Torpe ambição sem peias/ De mocidade em mocidade corre,/ E o culto das idéias/ Treme, convulsa e morre./

Que sonho apetecido/ Leva o ânimo vil a tais empresas?/ O sonho das baixezas:/ Um fumo que se esvai e um vão ruído;/ Uma sombra ilusória/ Que a turba adora ignorante e rude;/ E a esta infausta glória/ Imola-se a virtude./

A tão estranha liça/ Chega a hora por fim do encerramento,/ E lá soa o momento/ Em que reluz a espada da justiça./ Então, musa da história,/ Abres o grande livro, e sem detença/ À envilecida glória/ Fulminas a sentença./

A palavra arlequim provém do italiano arlecchino, máscara típica de personagem bufão. Sob a batuta da máscara (e toda a simbologia que ela encerra – fingimento, escusa), o poema é uma sátira, no sentido mais estrito do termo (do latim satira, um gênero de mistura, visto pejorativamente já que a elite culta romana valorizava os ditames fornecidos pelas poéticas gregas e latinas. Em suma, propalavam-se os gêneros puros e íntegros, menosprezando a miscigenação). Segundo Machado, os versos falam de “uma classe que se encontra em todas as cenas políticas – é a classe que, como se exprime um escritor, depois de darem ao seu povo todas as insígnias da realeza, quiseram completar-lha, fazendo-se eles próprios os bobos do povo (Nota do autor)”.

O primeiro verso trata da musa, nome dado a cada uma das nove filhas de Zeus e Mnemósine, que dominavam a ciência universal e presidiam as artes liberais. Entre os românticos, adquiria também o matiz da mulher amada, a qual desencadeava o processo criativo. Há, portanto, um tom solene que permeia o trato de tal temática. Na primeira estrofe, entretanto, Machado conclama a presença da musa não como fomentadora de uma arte elevada ou de alguma composição sublime: pede que ela deponha a lira (instrumento musical clássico) e tome a vergasta (varinha para açoitar); que ela esqueça os cantos amorosos e glorificantes em detrimento de um novo assunto; que a letra nova tem supremacia sobre a letra antiga. Tal descalabro perante o símbolo artístico consolida o que Oscar Wilde dissera: “o homem quase nada nos diz quando fala em seu nome; deem-lhe uma máscara e ele dirá a verdade (O AMOR ROMÂNTICO E OUTROS TEMAS. Edusp. 1979)”. A sátira se torna periclitante ao confrontar o que pensa o poeta mexicano Octavio Paz do papel da poesia: “é tornar sagrado o Mundo”, algo similar ao que o filósofo alemão Martin Heidegger expressara ao dizer que a função do poeta é “dar nome ao sagrado”.

Na segunda estrofe, há a menção aos devaneios políticos do Império Romano: primeiro, fala-se no despotismo do imperador Nero, o qual se via como artista e forçava os presentes a aplaudi-lo – “E a lira sobraçando,/Ante o povo idiota e amedrontado”. Parece aquilo que Maquiavel categoricamente atestou, de que o temor é uma tática de submissão mais eficaz que o amor. Também menciona Calígula, cujos distúrbios mentais fizeram-no imortal. Diante da ilação de figuras torpes que lideraram o maior império de então, o poeta se questiona: “E tu, tu não te abrias,/Ó céu de Roma, à cena degradante!/E tu, tu não caías,/Ó raio chamejante!”.

A terceira estrofe traz o Machado niilista que todos conhecem, aquele crítico mordaz de todo o cientificismo e novidade tomados como verdades absolutas. O niilismo machadiano se faz por meio de um esquema tácito entre autor e leitor, no qual o primeiro espera do segundo o compartilhamento de certo arcabouço cultural para, em seguida, tirar dele o véu da prodigalidade. Di-lo: “Tal na história que passa/Neste de luzes século famoso”. O tempo a que ele se refere não está definido: ora pode ser o século de ouro do Império Romano (I d.C.), ora o século XVIII (o Iluminismo), ora o século XIX (Segunda Revolução Industrial, advento da eletricidade). Independente da época, é a falácia do progresso que ele desdenha.

As próximas quatro estrofes perfazem uma descrição de como se engana um povo, aliando aspecto vistoso, olhar seguro, altivo e penetrante, tal segurança, ostentação tão grande a um propósito torpe – “Tornam em cinzas frias/O amor da pátria e as ilusões dos povos”. Machado se porta como um reduto de anexins (um adagiário atemporal), soando similar ao que Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, afirmou: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.Por fim, o poeta esmorece o tom da ironia e, na última estrofe, roga à musa a proferimento de uma sentença ante tanto descalabro.

Outro ponto considerável é a poesia, digamos, social que Machado desenvolveu, ao par de sua prosa. Até mesmo os expedientes para a crítica mordaz são idênticos. A metodologia para tanto, na poesia, ou se usa o formato tradicional (soneto, écloga etc), ou se vale de temática anacrônica.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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