pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Análise do poema Sinhá (1864), de Machado de Assis


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Poema Sinhá (ortografia original mantida)

O teu nome é como o oleo derramado. Salomão. — Cântico dos Cânticos.

Nem o perfume que espira/A flor, pela tarde amena,/Nem a nota que suspira/Canto de saudade e pena/Nas brandas cordas da lyra;/Nem o murmurio da veia/Que abrio sulco pelo chão/Entre margens de alva arêa,/Onde se mira e recreia/Rosa fechada em botão;

Nem o arrulho enternecido/Das pombas, nem do arvoredo/Esse amoroso arruido/Quando escuta algum segredo/Pela brisa repetido;/Nem esta saudade pura/Do canto do sabiá/Escondido na espessura,/Nada respira doçura/Como o teu nome, Sinhá!

O poema tem como subtítulo uma citação do livro bíblico Cântico dos Cânticos, atribuído ao sábio rei Salomão. É um verso de forte conteúdo sensual – “O teu nome é como óleo derramado” –, conquanto que os judeus insistam que a menção desse poema lírico seja o enlace de Deus com o povo escolhido.

Os versos seguem, de fato, a mesma ambiência do livro bíblico: em ambos, os motivos são todos campestres – flor, campo, alva areia, rosa fechada, arrulho, arvoredo, canto do sabiá. Não obstante, a semelhança termina aí, já que o livro canônico relata o princípio do amor e do amadurecimento do sentimento, ao passo que o poema machadiano se inscreve nos liames do amor cortês, entendido como um conjunto de regras e disposições a que o homem e a mulher estavam sujeitos. Configurado na Idade Média, era “um amor ao mesmo tempo ilícito e moralmente elevado, passional e autodisciplinado, humilhante e exaltante, humano e transcendente (Newman, 1969)”. Outro ponto a ser ressaltado nessas normas era o transplante das relações de suserania e vassalagem para a esfera privada: o homem deveria prostrar-se diante da amada, assim como um vassalo frente ao suserano. No poema, o título Sinhá já denuncia, senão uma situação social desnivelada (bem ao gosto machadiano na prosa), um ar de respeito e de homenagem.

O livro bíblico é mais sensual: “Como és belo, meu amado, como és encantador! Nosso leito está florido,/de cedro são as vigas de nossas casas, de cipreste, o nosso teto”. Machado, mais recatado: “Nem esta saudade pura/Do canto do sabiá/Escondido na espessura,/Nada respira doçura/Como o teu nome, Sinhá!”. Há, também, a diferença de gênero na voz narrativa: enquanto o livro de Salomão comporta diversas vozes que tomam a palavra, Machado fala na esteira do amor cortês. A figura da mulher aparece encerrada no verso Rosa fechada em botão. A simbologia da rosa, além da beleza fugaz, diz respeito ao amor, já que substituiu o lótus egípcio e o narciso grego como símbolos do sentimento amoroso. Dante Alighieri decanta a rosa como expressão máxima e delicada do amor: “Ao centro de ouro da rosa eterna, que se dilata, de grau em grau, e que exala um perfume de louvor ao sol sempre primaveril, Beatriz me atraiu...”.

Quanto à estrutura, o poema se organiza em duas estrofes, de sílabas poéticas variáveis, mas com apuro na questão das rimas (há rimas ricas, como em suspira e lira). Em ambas, os versos curtos, fortemente descritivos, fornecem uma loa de sabor cortês.


Gilmar Luís Silva Júnior

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