pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

A apreensão do essencial em Hilda Hilst

Se estivesse viva, Hilda Hilst completaria 85 anos. Sua perseverança no combate à ditadura se esbatia em asilo aos elementos subversivos, mas também a uma estratégia simbólica que dinamitava a sociedade da época e todo o corolário preconceituoso que sustentava esse status desigual.


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#poesia #ditadura Hilda Hilst​ nasceu em 21 de abril de 1930 e morreu em 4 de fevereiro de 2004. Seus poemas se enquadram num libelo feminista, mas jamais reduzido a um grito reivindicatório de igualdade. Hilda dizia o desejo de mulher em anos sombrios, os da ditadura militar, na qual se pregava uma moral estreita e se reduzia o conceito de arte a um ufanismo tolo e acrítico. Segundo o geógrafo Milton Santos, "tudo começa com o conhecimento do mundo e se amplia com o conhecimento do lugar, tarefa conjunta que é hoje tanto mais possível porque cada lugar é o mundo. É daí que advém uma possibilidade de ação.” Nesse ínterim, a poetisa paulista trouxe à baila um olhar rebelde ao perpetrado pela violência simbólica da ditadura, que sufocava a crítica e a pluralidade em prol da defesa de uma falsa nacionalidade calcada na existência de um inimigo fictício. Hilda fala da morte, de Deus e do desejo, todos os itens envoltos na visão feminil, daquela que se sabe geradora da vida e que se encontra alijada de conduzir o próprio destino. Logo, essa escrita se faz de fraturas, de contradições, de brigas e de ressalvas. Eis um fragmento dela:

Amada vida, minha morte demora. Dizer que coisa ao homem, Propor que viagem? Reis, ministros E todos vós, políticos, Que palavra além de ouro e treva Fica em vossos ouvidos? Além de vossa RAPACIDADE O que sabeis Da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro E os nossos ossos E o sangue das gentes E a vida dos homens Entre os vossos dentes.

O mundo masculino, embora aparentemente moderno - vejam o uso dos substantivos "ouro, lucro, logro" - é incapaz de se alçar a voos mais subjetivos e que visem a apreender a razão primeira das coisas. Antoine de Saint-Exupéry dissera que "o essencial é invisível aos olhos". Hilda cotejava a busca por essa essência cotejando-a com o universo palpável e, através do efeito de contraste, dirimia a importância do material - mundo sensível - para a magnitude do mundo cognoscível - as ideias. Notemos aí uma retomada platônica de embate cultural.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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