pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O pobre-diabo atualizado: o anti-herói no romance Pilatos, de Carlos Heitor Cony

O romance Pilatos, de Carlos Heitor Cony, merece uma leitura detida. Crítica do regime militar, desaforo ao modelo de herói consagrado na literatura, o livro de Cony maneja com maestria tabus como sexo, liberdade e repressão, dosados com o óleo amenizador do humor e com a tinta da picardia. Conheça um pouco dessa indispensável obra!


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Quando se menciona a palavra “herói” em um romance, logo se materializa alguém dotado, se não de superpoderes (pois se vincularia à ficção científica ou ao fantástico), de vontade pertinaz ou de valores excelsos. Isso se deve ao valor conferido ao caráter atemporal das epopeias, os primeiros textos a serem produzidos na literatura ocidental. São salutares nesse sentido A Epopeia de Gilgamesh, compilada no século VII a.C., e Ilíada (VIII a.C.). nessas obras, a figura do herói personifica uma comunidade, pouco estratificada socialmente, mas a qual deposita em suas figuras heroicas valores que enformam a ideia de povo ou nação.

Essa íntima relação entre herói e comunidade vincou diversos artefatos literários, os quais são em bom número para corroborar esse viés: os cavaleiros da Távola Redonda, em plena Idade Média, séculos depois dos textos-fundadores, é outro exemplo de peso. Quem primeiro percebeu esse cotejo foi o pensador húngaro Georg Lukács, em sua obra A teoria do romance, escrita na época da Primeira Guerra Mundial. Lukács chama a atenção para a morte de Deus no romance moderno e, por conseguinte, o herói passa a titubear em sua faina:

“Aquiles ou Ulisses, Dante ou Arjuna [um dos heróis do épico hindu Mahabharata] – precisamente porque são guiados por deuses em seus caminhos – sabem que esse guia pode vir a faltar, que sem tal auxílio estariam eles impotentes e indefesos perante inimigos superiores. A relação entre mundo objetivo e subjetivo é mantida assim em equilíbrio adequado: o herói sente na exata medida a superioridade do mundo exterior com que se defronta; apesar dessa modéstia íntima, ele pode triunfar ao final, pois sua força, em si mais fraca, é conduzida à vitória pelo supremo poder do mundo, de modo que não apenas as relações de força imaginárias e verdadeiras correspondem uma à outra, mas também as vitórias e as derrotas não contradizem a ordem de fato nem a do dever-ser do mundo (LUKÁCS, 2009)”.

No romance moderno, sob os auspícios de Lukács, há uma mudança íntima do herói. Este passa de uma percepção mais estreita da própria alma frente ao mundo para o contrário, uma alma que se julga mais ampla que seu derredor. Esse movimento conduz, muitas vezes, ao naufrágio das intenções dessa personagem, majoritamente protagonista, que se vê diante de dois destinos: a ruína física e/ou psicológica total ou a inserção na pequenez. Esse último viés confeccionou uma espécie de herói-protagonista que angaria um importante espaço na literatura brasileira: o herói pobre-diabo.

O crítico literário José Paulo Paes informa que a expressão “pobre-diabo” fora utilizada pela primeira vez por Moisés Velinho, quando este analisou o protagonista do romance Os Ratos, de Dyonélio Machado. Dizia Velinho: “[Naziazeno é] um infeliz que se consome sem heroísmo, à procura de dinheiro para pagar a conta do leite (…). Na narração de um só dia de sua vida, sequência de pequenos fracassos, detalhes sem cor nem relevo, incidentes medíocres em si mesmos, mas que se projetam sobre o desfibrado ânimo de Naziazeno como sombras duras e aplastantes, o romancista só podia mesmo valer-se de um estilo baço e incolor” (PAES, 2000, pág. 40).

Paes ainda frisa que o primeiro artefato ficcional a erigir um pobre-diabo fora O Coruja, de Aluísio Azevedo, em 1887. Com um quê de Quasimodo hugoano (a fealdade do protagonista André, a despeito de sua dedicação aos livros e, por conseguinte, de erudição ímpar, valeu-lhe o apodo de “coruja”), o livro de Aluisio traça um paralelo entre o desairoso pobre-diabo e o belo Teobaldo, este filho de classe média, mas desprovido do tutano intelectual. André vive à sombra das migalhas de atenção de Teobaldo, que se serve do conhecimento do “Coruja” para angariar benesses. Eis um fato da vida nada fácil do protagonista:

“André atravessava numa ocasião o pátio do recreio, quando ouviu gritar atrás de si 'Ó Coruja!" Não fez caso. Estava já habituado a ser escarnecido, e tinha por costume deixar que a zombaria o perseguisse à vontade, até que ela cansasse e por si mesma se retraísse.Mas o Fonseca, vendo que não conseguira nada com a palavra, correu na pista de André e ferrou-lhe um pontapé por detrás. O pequeno voltou-se e arremeteu com tal fúria contra o agressor, que o lançou por terra. O Fonseca pretendeu reagir, mas o outro o segurou entre as pernas e os braços, tirando-lhe toda a ação do corpo” (AZEVEDO, 2008).

Na literatura brasileira, a confecção do pobre-diabo manteve o item basilar da definição: alguém alijado de algum componente físico ou social, o qual lhe imputa uma trajetória claudicante no decurso da narrativa. André, embora feio, possuía inteligência e, consoante ao excerto exposto acima, uma invejável força física. Naziazeno, seu consorte na galeria dos pobres-diabos, era um medíocre funcionário cuja renda estava aquém do sustento de sua família: suas peripécias atrás de dinheiro se esbatiam na limitação que a sociedade lhe impunha. Há uma atualização observada nos liames econômicos: em O Coruja, as relações econômicas parecem ficar à sombra dos contatos aristocráticos de uma sociedade ainda pré-capitalista. Já em Os Ratos, o proletariado se torna emblemático na trajetória trágica do protagonista (é um dia o que Naziazeno possui para solucionar seus problemas, tempo idêntico ao das tragédias gregas clássicas), sendo o pobre-diabo a descrição concreta de uma sociedade desigual e insensível.

Um outro protagonista pobre-diabo, sobre o qual paira uma profusão de contingências sociais e culturais, está no livro Pilatos, de Carlos Heitor Cony. Na curva ascendente da dinamização de uma sociedade capitalista, que vinha com André de O Coruja, passando por Naziazeno de Os Ratos, Cony edifica um pobre-diabo que toca o humor, a ironia, a apatia, a mediocridade e a esperteza. Nas personagens anteriores, uma dessas características era realçada, o que permitia a classificação dos protagonistas. André era o apático por natureza; Naziazeno, o medíocre magistral. Já em Pilatos, o protagonista, cujo nome nos é informado apenas no meio do romance e uma única vez – Álvaro Picadura, apresenta-se como um desvalido físico, mas de algo incomum: num atropelamento, ele fora recolhido por um hospital supostamente de caridade e lhe amputarem o pênis e os testículos. Com um destino ora risível, ora trágico, Álvaro saí do hospital com uma estranha promessa: não se separar de seu membro viril, acomodado num vidro de compota.

A sina do protagonista é desvelar a sociedade brasileira na época da ditadura militar. Cony parte do particular – a sobrevivência de Álvaro no Rio de Janeiro – para uma crítica mordaz ao regime ditatorial, a qual se constitui quando o pobre-diabo consegue inserir-se num grupo heterogêneo, igualmente com caráter metonímico, ou seja, representativo de diversos estratos sociais.

O primeiro amigo a ser conquistado é um homenzarrão chamado Dos Passos, cuja história é apresentada no início do livro, numa técnica chamada in media res (no meio da coisa – um acontecimento impactante é inserido fora da ordem cronológica, a fim de alardear o desavisado leitor). Dos Passos é o oposto de Álvaro: absurdamente sexualizado, conta com um membro enorme, é falador, criativo e altivo, não se deixando abater pelos percalços do destino. Ele guia o protagonista numa série de aventuras, relacionadas, muitas vezes, ao pênis na compota. A primeira parte do livro é toda centrada no falo de Álvaro: o papel no cinema, a contemplação pela baixinha da casa de penhor. A supremacia do falo enforma o cariz machista da sociedade brasileira e sugere o que o filósofo francês Michel Foucault enxerga como repressão sexual em favor da emergência de uma ótica burguesa. Foucault explica que:

“A crônica menor do sexo e de suas vexações se transpõe, imediatamente, na cerimoniosa história dos modos de produção: sua futilidade se dissipa. Um princípio de explicação se esboça por isso mesmo: se o sexo é reprimido com tanto rigor, é por ser incompatível com uma colocação no trabalho, geral e intensa; na época em que se explora sistematicamente a força de trabalho, poder-se-ia tolerar que ela fosse dissipar-se nos prazeres, salvo naqueles, reduzidos ao mínimo, que lhe permitem reproduzir-se? O sexo e seus efeitos não são, talvez, fáceis de se decifrar; em compensação, assim recolocada, sua representação é facilmente analisada” (FOUCAULT, 2010).

O fato de se mencionar o sexo – o apetite voraz de Dos Passos e a apatia de Álvaro – torna o romance libertador. A liberalização sexual, na época da ditadura, fez-se no cinema: as pornochanchadas, um gênero cinematográfico que mesclava situações vulgares com o prosaísmo do cotidiano – foram um catalisador desse desejo libertário. Outro contraponto que define o protagonista Álvaro é o total esvaziamento ideológico que se realiza confrontando-o com outros personagens. Dos Passos dizia-se fascista, embora sem delimitar certamente o conceito de tal corrente. Opunha-se aos militares; mas aproveita-se das brechas da opressão usando sua astúcia inventiva e seu portentoso membro viril.

O jovem Otávio, que aparece como companheiro de cela de Álvaro e de Dos Passos, além de novas personagens agregadas, representa a juventude subversiva, contrária à ditadura. Álvaro aceita a prisão, a opressão e as surras e “quase” pede para os cúmplices de cela calarem-se a fim de evitar novas maçadas. Esse “quase” formaliza a não realização das ações de Álvaro: é, majoritariamente, Dos Passos quem o guia. O destino de seus “quase” amigos de cela – O Grande Arquimandrita, Otávio, Sic Transit – é narrado por Álvaro com uma descrição “quase” jornalística. Com a insistência do “quase” em diversas ações de Álvaro – por exemplo, quando ele se depara com o velho Sic Transit estatelado no chão após o atropelamento deste – é que se explica o título do romance. Pôncio Pilatos foi um político que governou a Judeia na época da crucificação de Jesus Cristo. Mesmo não vendo culpa formal em Jesus, Pilatos deixou-se levar pela insensatez da turba raivosa e “lavou as mãos”, deixando Cristo à mercê das arbitrariedades. Forçado em situações de veemente carestia, Álvaro prefere não se pronunciar sobre as agruras do mundo:

“(…) Aos poucos, nos conformávamos com uma vida menos miserável mas lastimável, porque nos dava perspectiva para julgá-la. Cada vez que lavava as mãos pensava nisso. E me absolvia” (CONY, 2001). Até mesmo quando o romance – a partir da metade da segunda parte – recrudesce para uma crítica mais incisiva ao regime militar –, o pobre-diabo Álvaro não coteja mudança ou engajamento em algum momento. Diz o narrador e anti-herói por natureza:

“Durante o trajeto, principalmente nas curvas, fôramos jogados uns contra os outros. Carnes e ossos que não haviam sido moídos durante a viagem, o foram na hora da descida, quando os policiais nos bateram com vontade e prazer. Tão logo nos vimos numa cela mais ou menos grande, ocupada apenas por nós cinco, parecia que chegáramos a uma espécie de paraíso. Em comparação com o cárcere da delegacia, equivalia a uma suíte de hotel” (CONY, 2001). É sintomática a posição reiterada de conformismo de Álvaro (sobrenome Picadura – verdadeiro ou ironia do autor?), pois ela conduz facilmente à associação de que a nova conformação do herói pobre-diabo está na apatia. Mas não. Por meio de um novo cotejo, agora com o destino das personagens, pode-se perceber o quanto esperto é o protagonista: Dos Passos fora assassinado; Sic Transit, atropelado; Otávio, alvejado por tiros, Grande Arquimandrita, colaborador do regime e traidor. A despeito da pobreza que o caracteriza por todo o livro, Álvaro combina o “jeitinho brasileiro” com a pulsão da vida.

O “jeitinho” é explicado pela filósofa Fernanda Carlos Borges como sendo uma atitude de revelia do brasileiro, cujo código de conduta era baseado em relações estritamente pessoais (daí outro conceito aplicado a esse aspecto, agora de Sérgio Buarque de Hollanda, do “homem cordial”, aquele que se deixa mover pelo coração – cors em latim – em detrimento da razão), ao ser confrontado com o mundo industrializado, que despersonaliza as relações pessoais. Essa maneira de agir contrária ao mundo industrial – dotado de regras rígidas – fomenta o abuso de subterfúgios para se conseguir algum objetivo, ainda que minimamente.

O ensejo de se burlar as regras pode ser explicado por algo inerente ao ser humano, clarificado na citação de Márcio Seligmann Silva, no prefácio da obra de Sigmund Freud, O mal-estar da cultura:

“(…) o desejo é insaciável e, além disso, sua aparição automaticamente dispara o aguilhão da culpa no homem de cultura aparelhado com sua consciência moral. Para esse homem, o simples pensamento ou qualquer outra manifestação do desejo já traz o espectro da figura do pai castrador com a tábua das leis de conduta” (FREUD, 2012). Essa ânsia de se saciar o desejo conduz a duas atitudes: integrar-se ao mercado e consumir para tanto, ou estar à margem e valer-se da esperteza para obter o mínimo para esse desejo. As personagens do romance portam-se no segundo viés, à exceção do Grande Arquimandrita, que se integra ao regime. O jeitinho se torna mais aguda no protagonista, o herói pobre-diabo do livro de Cony: Álvaro se despe de tudo que possa indispor-lhe contra o governo, mas não se junta ao “cidadão de bem”, com emprego fixo, com família constituída. A perda do pênis do anti-herói simboliza o homem castrado, não digno de sua masculinidade, estando, portanto, apartado de voos maiores na esteira social. Ele cogita morrer, quando estava internado no hospital de freiras. Logo se arrepende de tal ideia, quase num instinto primitivo de sobrevivência:

“Foi então que decidi ir embora. De uma hora para outra, poderiam me servir chá – e eu, que tanto clamara e reclamara pelos meus colhões, iria acompanhá-los no balde das placentas” (CONY, 2001).

O pobre-diabo – seja no romance de Álvares, seja no de Cony – possui uma ligação com a vida de forma instintiva. Novamente, a teoria freudiana oferece uma pista para explicar isso: é a chamada pulsão da vida ou Eros. Eros era filho de Afrodite, a deusa grega do amor; por conseguinte, ocupar-se-ia de flechar os homens para dotá-los da capacidade de amar e de desejar alguém. Esse constante movimento seria responsável por aquilo que os filósofos indagariam a razão de viver. A pulsão estaria relacionada a esse fato, pois se define como algo abstrato a impelir o homem a alguma direção. Dentro dessa pulsão de vida, há o quinhão mais primitivo, as pulsões do eu, responsáveis pela busca compulsória da sobrevivência presente em todo o ser humano (alimentação e abrigo, em suma, a autoconservação de si mesmo).

Álvaro, o pobre-diabo e anti-herói na ótica clássica, busca apenas isso: autoconservar-se. Já não era um homem completo de fato, dada a importância incômoda que se dá ao pênis na nossa sociedade machista, mas render-se ao destino e aguardar a morte contrariaria a ordem natural das coisas. O crítico Otto Maria Carpeaux arremata a fatura do romance, ao salientar que “quem tiver lido Pilatos estará melhor informado: sentindo toda a infelicidade de nossa condição humana e desumana. E o que se pode esperar mais de uma obra de arte?”.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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