pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Análise do poema Horas Vivas, de Machado de Assis: aproximações com o Romantismo

O poema Horas Vivas, do primeiro livro de poemas de Machado, Crisálidas, encerra a valorização do sono como princípio ativo de anseio por uma vida melhor. Atende aos pressupostos do Romantismo, que via o homem alijado da paz, e tangencia até mesmo Freud. Descubra mais nesta análise.


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Abaixo, o poema Horas Vivas, de Machado de Assis:

Noite: abrem-se as flores... Que esplendores! Cíntia sonha amores Pelo céu. Tênues as neblinas Às campinas Descem das colinas, Como um véu.

Mãos em mãos travadas, Animadas, Vão aquelas fadas Pelo ar; Soltos os cabelos, Em novelos, Puros, louros, belos, A voar.

— “Homem, nos teus dias Que agonias, Sonhos, utopias, Ambições; Vivas e fagueiras, As primeiras, Como as derradeiras Ilusões!

— Quantas, quantas vidas Vão perdidas, Pombas mal feridas Pelo mal!

Anos após anos, Tão insanos, Vêm os desenganos Afinal.

— “Dorme: se os pesares Repousares, Vês? – por estes ares Vamos rir; Mortas, não; festivas, E lascivas, Somos – horas vivas De dormir!” –

Sonhar-com-morte-de-mae.jpg Poema leve, de estrutura diversa, quase cantarolante, encerra, contudo, a discussão acerca de duas categorias implícitas sobre o conceito de Romantismo: a psicológica e a histórica. Assevera J. Guinsburg, na obra O Romantismo: "A categoria psicológica do Romantismo é o sentimento como objeto da ação interior do sujeito, que excede a condição de simples estado afetivo: a intimidade, a espiritualidade e a aspiração ao infinito, na interpretação tardia de Baudelaire. (...) A primazia da vertente alemã (de 1796 em diante), a primeira a empregar, numa conotação crítica e histórica, a palavra ‘romântico’, e que selaria a fortuna teórica desse termo, o qual passou desde então a significar um estado de poesia e uma atitude em relação à literatura, resultou de uma ascendência intelectual; pois que ligada ao classicismo de Weimar (Goethe e Schiller), e particularmente sensibilizada pela problemática schilleriana da poesia ingênua dos antigos e da poesia sentimental dos modernos, a escola germânica nasceu no clima universitário estimulante de Iena, de uma geração posterior ao Sturm und Drang, ao mesmo tempo que o idealismo pós-kantiano".

Esse momento do poema – a aspiração ao infinito – afilia-o ao Romantismo à Casimiro de Abreu, em especial no poema Assim, a seguir posto:

Viste o lírio da campina? Lá s'inclina E murcho no hastil pendeu! - Viste o lírio da campina? Pois, divina, Como o lírio assim sou eu! Nunca ouviste a voz da flauta, A dor do nauta Suspirando no alto mar? - Nunca ouviste a voz da flauta? Como o nauta É tão triste o meu cantar! Não viste a rola sem ninho No caminho Gemendo, se a noite vem? - Não viste a rola sem ninho? Pois, anjinho,

Assim eu gemo, também! Não viste a barca perdida, Sacudida Nas asas dalgum tufão? - Não viste a barca fendida? Pois querida Assim vai meu coração! sonhos-21.jpg Em ambos os versos – de Machado e de Casimiro – assiste-se à quebra da relação clássica entre natureza e eu, no que concerne ao fato de que, no Classicismo, as leis gerais da natureza se imiscuíram na regência de toda a vida humana. Isto é, havia uma maneira peculiar de comunicação entre os mundos exterior e interior do homem, promovendo um achatamento do sujeito, “encaixado como sujeito universal do conhecimento, a uma Natureza cuja ordem e cuja regularidade se prolongam na ordem e na regularidade dos discursos científico, religioso, estético, jurídico e político do século XVIII (Guinsburg, 1988).

O princípio romântico intenta, por conseguinte, romper essa similitude de regularidades, por meio do rompimento das características imutáveis dadas pelo Classicismo aos elementos constituintes do Universo. No poema machadiano, o substantivo Noite se encontra personalizado tal qual uma mulher presente na primeira estrofe – Cíntia – ressurgindo o antigo simbolismo de deificação do elemento noturno:

"Para os gregos, a noite (nyx) era a filha do Caos e a mãe do Céu (Urano) e da Terra (Gaia). Ela engendrou também o sono e a morte, os sonhos e as angústias, a ternura e o engano. As noites eram frequentemente prolongadas segundo a vontade dos deuses, que paravam o Sol e a Lua, a fim de melhor realizarem suas proezas. A noite percorre o céu envolta num véu sombrio, sobre um carro atrelado com quatro cavalos pretos, seguida do cortejo de suas filhas, as Fúrias, as Parcas. Imola-se a esta divindade ctônica uma ovelha negra (Chevalier, 2012)".

A segunda estrofe é o enlace pueril dos casais apaixonados – “Mãos em mãos travadas/Animadas,/Vão aquelas fadas/Pelo ar;/Soltos os cabelos,/Em novelos,/Puros, louros, belos,/A voar”. Aproxima-se do lirismo de Casimiro, no tocante à presença do tom infantil nas ações, totalmente desprovidas de conteúdo sensual.

Similar ao poema de Casimiro exposto acima, a terceira estrofe discorre sobre as agruras do destino do homem. Mais uma vez, a circunspecção do tema não resvala para o niilismo tão caro a Machado tampouco para os devaneios ególatras da segunda geração romântica, o afamado Mal do Século. Às agonias contrapõem-se os sonhos e as utopias, ainda que tais elementos não sejam suficientes para sanar os percalços: sonhos e utopias se esfumaçam com o passar do tempo. Os poetas, no entanto, dirimem a gravidade disso. Na quarta estrofe, as vidas perdidas pelo desengano são comparadas a pombas malferidas. A simbologia da pomba submete-se a um vigoroso sentimento religioso. No Novo Testamento, a pomba representa o Espírito Santo, um dos elementos da Santíssima Trindade. Na mitologia grega, a pomba era a ave que Afrodite trazia próxima a si e espelha a realização amorosa que o amante oferta ao objeto de desejo. Pureza e desejo são as linhas de tensão presentes na pomba; o poema, porém, não alude ao quinhão sensual, visto que os adjetivos elencados carecem desse apelo: vivas, fagueiras, louros, puros. O poema se fecha valorizando o sono como saída para os óbices da vida, retomando a figuração da função onírica como espaço para a expressão ou a realização de um desejo reprimido, na visão freudiana.

Machado aspira, nesta estrofe, à valorização do sono como um anseio de retomada de um estado puro anterior e dota o ato de dormir com componente ativo, chamando-o de horas vivas.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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