pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Análise do poema Musa Consolatrix, de Machado de Assis

O primeiro livro de poemas de Machado de Assis se chama Crisálidas e é aberto com um poema chamado Musa Consolatrix. Neste, o egrégio escritor brasileiro adota uma postura que mistura Classicismo com o Romantismo ainda vigente nas letras nacionais.


Prefácio - 8 + Musa consolatrix - 1.JPG

Que a mão do tempo e o hálito dos homens/ Murchem a flor das ilusões da vida, / Musa consoladora, / É no teu seio amigo e sossegado / Que o poeta respira o suave sono./ // Não há, não há contigo, / Nem dor aguda, nem sombrios ermos; / Da tua voz os namorados cantos / Enchem, povoam tudo / De íntima paz, de vida e de conforto. / // Ante esta voz que as dores adormece, / E muda o agudo espinho em flor cheirosa, / Que vales tu, desilusão dos homens? / Tu que podes, ó tempo? / A alma triste do poeta sobrenada / À enchente das angústias; / E, afrontando o rugido da tormenta, / Passa cantando, alcíone divina. / // Musa consoladora, / Quando da minha fronte de mancebo / A última ilusão cair, bem como / Folha amarela e seca / Que ao chão atira a viração do outono, / Ah! no teu seio amigo / Acolhe-me, — e terá minha alma aflita, / Em vez de algumas ilusões que teve, / A paz, o último bem, último e puro! ///

Existem poemas, embora grandiloquentes, que se entregam ao leitor de forma explícita e indubitável. É o caso da veemente Ilíada, atribuída a um rapsodo chamado Homero (o qual – não se sabe se foi um poeta ou vários – fomentou a ideia de um povo grego antigo), em cujas linhas primeiras vaza o assunto tétrico e plangente sobre o qual falará:

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida/ (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus/ e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades,/ ficando seus corpos como presa para cães e aves/ de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus),/ desde o momento em que primeiro se desentenderam/ o Átrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles./

Musas1ajabhaha.jpg

À guisa de Homero, se bem que com menor pretensão póstera, Machado de Assis abre seu livro Crisálidas (1864) com um poema emblemático: Musa consolatrix (Musa consoladora). A partir do título, ele realiza uma opção de composição: há alguma entidade sobre a qual o poeta deposita sua fé. À primeira vista, lembra o ideal clássico igualmente presente em Ilíada, onde Homero convoca o auxílio das musas (as filhas do deus Apolo, detentoras da inspiração nas artes) para dotá-lo de engenho (técnica, do grego tekhnikós, relativo à arte, à ciência e a um saber) e, assim, concluir a tarefa egrégia de prover a antiga Hélade (Grécia) de um espírito comum e unificador (apesar de as cidades-estado viverem em constante hostilidade).

O programa narrativo do primeiro poema do livro machadiano em questão é a dicotomia. Os filósofos gregos Aristóteles e Platão nos legaram um pensamento dicotômico, uma constante contraposição de conceitos-chave, um dos quais gozando de primazia sobre o outro. Platão, por exemplo, enxerga o mundo em dois níveis: o das ideias e o sensível (COTRIM, 2002). Esse último é como a maioria das pessoas entrevê as coisas ao seu redor; uma visão calcada tão somente nos sentidos humanos. O primeiro nível se vincula à depuração dos enganos constantes promovidos pela sensibilidade à flor da pele dos homens, conduzindo o conceito de verdade a um estatuto de apuro intelectual, possível apenas pelo fazer filosófico. Para melhor ilustrar esses preceitos, Platão construiu o mito da caverna, na seção VII do afamado livro A República: em suma, a maioria dos viventes veem as sombras de uma luz ainda inacessível a eles, pois se encontram prisioneiros dos próprios sentidos.

O pensamento dicotômico em Musa consolatrix é o próprio programa narrativo do poema: Machado justapõe a maledicência do mundo real (quem sabe sensível, tal qual Platão preconizara) com a possibilidade de algo (entidade, ideia, personagem – tentaremos desvendá-los) a servir como refúgio ou como baluarte da razão. As figuras do sossego e do sono, presentes no penúltimo e no último versos da primeira estrofe, consubstanciam, por movimento metafórico, a serenidade dos sentidos para melhor apreender as vicissitudes e as limitações da vida humana e talvez vislumbrar uma possibilidade de acesso ao mundo das ideias.

A segunda estrofe desdobra o programa narrativo deflagrado. Nem dor aguda, nem sombrios ermos: elementos que promovem uma poesia solar – luz entendida como ciência e razão – solicitam um fazer poético sem olvidar sentimentos ou caminhos trilhados pelo vate. Há um excerto de Jean Cohen, em Estrutura da Linguagem Poética, o qual explica o exposto: “Nada no fato poético em si se opõe a priori a uma tentativa de observação e descrição científica (…) O próprio Valéry [Paul Valéry foi um poeta simbolista francês, cujos experimentos instaram certos pressupostos das vanguardas estéticas do século XX, como a íntima ligação entre poesia e música, além de ser um esteta para outro afamado francês, o filósofo Jean Sartre] dizia: 'indefinível entra na definição (COHEN, 1980)”.

A terceira estrofe – Ante esta voz que as dores adormece... – intensifica a presença de uma entidade dotada de plena racionalidade. É o combate aos excessos do ultrarromantismo – no Brasil, personificado na figura adolescente de Álvares de Azevedo (Quero em teus lábios beber/Os teus amores do céu,/Quero em teu seio morrer/No enlevo do seio teu!). Entre ambos se pode mensurar uma espécie de gradação das linhas-mestras das novas ideias que o Romantismo enquanto estética literária encampou. J. Guinsburg assegura que:

"As matrizes filosóficas da visão romântica, que legitimam, dentro de uma nova constelação de princípios, a originalidade e o entusiasmo, são o caráter transcendente do sujeito humano e o caráter espiritual da realidade, que quebram a uniformidade da razão e a consequente forma de individualismo racionalista, ao mesmo tempo que a concepção mecanicista da Natureza (GUINSBURG, 1988).

Entre Machado e Álvares, como dissera, existe uma gradação na filosofia romântica. O Romantismo se caracteriza como o primado do idealismo, entendido como a excelência do sujeito sobre o objeto. Percebe-se nessa terceira estrofe do poema de abertura de Crisálidas o ensejo dado aos termos abstratos – dores, desilusão –, concomitante aos versos de Álvares – amores do céu, enlevo. Contudo, cessa nesse ínterim a proximidade entre ambos, já que Machado dirime o desvairo lírico com a presença já mencionada da racionalidade. Corrobora o exposto a palavra que fecha essa estrofe: alcíone, uma espécie de ave, de canto triste e dolorido, considerada pelos gregos como de bom agouro, pois voava apenas quando o mar estava calmo. A escolha de tal termo não se faz ao acaso: há as agruras da vida – talhadas como espinhos nos versos –; entretanto, a verve do poeta suporta essas sugestões por meio de um porto-seguro, proporcionado pela calmaria de alma – metaforicamente, a alcíone.

O poema fecha com uma estrofe cujo mote tangencia a estética barroca – a fugacidade da juventude –, sem, no entanto, enveredar-se pelas conjecturas cultista (exagero nas figuras de linguagem) ou conceptista (agudeza de raciocínio). Quando da minha fronte de mancebo/a última ilusão cair: atenta-se para a imitação da natureza, uma transferência de ações do ambiente natural para a esfera humana, característica cara ao Barroco, no que concerne à existência de uma realidade exterior e, conforme abona Dante Tringali, “admite-se que todo conhecimento começa pelos sentidos (…). Vem daí o sensualismo barroco (TRINGALI, 1994)”. Basta recordar as insistentes remissões barrocas ao Sol e às flores, como rosas, para anunciar a efemeridade da vida (vide Gregório de Matos, cujos versos seguintes aludem a esse viés: “Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa/De que importa, se aguarda sem defesa/Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?”. Todavia, novamente Machado suprime os excessos: o fim das desilusões não é o envelhecimento ou o fenecimento da matéria, mas sim a paz de espírito.

A abertura de seu livro com tal poema ainda enceta um caráter didático do poeta sobre o fazer literário. Musa consolatrix pode ser encarado, ainda, como um metapoema, ou seja, um pequeno tratado de como se procede o ato de inspiração e de como o poeta pode encontrar o caminho mais seguro para suas composições. Soa, diante da comparação com o primeiro grande épico da literatura ocidental, a Ilíada, com um viés clássico, sendo este matiz reforçado pela relação equânime com os sentimentos pessoais do escritor. Essa figura da musa, que ora inspira e que ora consola o poeta, torna abstrato e universal a temática da inspiração em poesia.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Gilmar Luís Silva Júnior
Site Meter