pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Análise do poema Caridade, de Machado de Assis

O escritor romântico inglês Percy Shelley apregoa que "a poesia imortaliza tudo o que há de melhor e de mais belo no mundo". Ainda que tal pensamento esteja preso ao conceito de beleza do mundo romântico, não se espanta que os temas sonoros e dignos de vista - como os olhos da amada, os suspiros de amor e a caridade - estejam entre os mais procurados pelos poetas a fim de avultar seus versos. Machado de Assis realizou tal tarefa em diversas oportunidades. Eis um momento dele em que canta a caridade, trazendo a cultura cristã como pano de fundo.


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A CARIDADE (1864)

Ela tinha no rosto uma expressão tão calma / Como o sono inocente e primeiro de uma alma / Donde não se afastou ainda o olhar de Deus; / Uma serena graça, uma graça dos céus, / Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar, / E nas asas da brisa iam-lhe a ondear / Sobre o gracioso colo as delicadas tranças. / // Levava pelas mãos duas gentis crianças. // Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto. / Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto / Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada / À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada / A infância lacrimosa, a infância desvalida, / Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida. // E tu, ó caridade, ó virgem do Senhor, / No amoroso seio as crianças tomaste, / E entre beijos — só teus — o pranto lhes secaste / Dando-lhes pão, guarida, amparo leito e amor. //

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O poema se esbate na religiosidade; contudo, opera numa união do transcendente à questão das obras. O livro bíblico do apóstolo Tiago, no Novo Testamento, diz: “Meus irmãos, que interessa se alguém disser que tem fé em Deus, e não fizer prova disso através de obras? Esse tipo de fé não salva ninguém”. Machado de Assis realiza a percepção em forma de versos da máxima que apregoa: a fé sem obras é morta.

Para tanto, o poeta traz a imagem da mulher como provedora, em clara alusão à Virgem Maria. Na história das religiões, percebe-se um deslocamento de gênero na gênese do mundo. O mitólogo americano Joseph Campbell dividiu em quatro grupos os mitos conhecidos da criação, correspondendo estes grupos às etapas cronológicas da história humana. Na primeira etapa, o mundo seria criado por uma deusa-mãe sem auxilio de ninguém. Na segunda etapa, o trabalho primordial fora feito por um deus andrógino ou um casal criador; já na terceira, um deus macho toma o poder de uma deusa ou cria o mundo sobre o corpo da deusa primordial. Na quarta, por fim, um deus macho criaria o mundo sozinho, sem intervenção feminina, o que representaria a passagem para o patriarcalismo (CAMPBELL, Joseph. AS MÁSCARAS DE DEUS – MITOLOGIA OCIDENTAL. Ed. Palas Athena. 2004).

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O poema, sem deixar a posição relevante de um deus masculino, coloca nas mãos de uma mulher – como geradora de filhos e como amamentadora – a premissa de ofertar caridade a quem necessita. No caso, a figura frágil é a infância. Segundo Philippe Ariés, a concepção sobre a criança teria começado a se formar com o fim da Idade Média, sendo inexistente na sociedade desse período. No Medievo, a criança era um adulto em miniatura, ou melhor, nas palavras do medievalista James Schultz, “um adulto imperfeito”. Foi com a ascensão definitiva da burguesia que a infância passou a ser objeto de preocupação do poder público e, por conseguinte, de demandas capitalistas: a educação universal para crianças e toda uma penca de produtos vistos sob a batuta de “infantil".

O poema enceta, logo, um ensejo que vinha sendo construído, de auxiliar à faixa etária agora vista como primordial no desenvolvimento humano. A figura da mãe – cujo maior simbolismo é a Virgem Maria, que povoa o ideário ocidental como mãe extremosa – é encarregada de trazer os desvalidos para junto de si.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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