pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Conto: Leite em pó e presunto

Mundo adulto e infância. Qual dos dois é mais livre? Qual dos dois é mais sábio? Quando os dois se encontram, um deles sai certamente humilhado.


presunto_foto_dr1301578a.jpgQuisera voltar ao que eu era! Não posso voltar, borrar o passado e, sôfrego, apagá-lo e redesenhá-lo com a tinta da maestria de agora. Seria mesmo sabedoria o que tenho em mãos? Não outro engano, a ser humilhado por outro desacerto mais hodierno? Se as perguntas me sulcam ora a face, com estros tão assustadores, ora a alma, com lágrimas tão sinceras, é porque nada sei da certeza tão buscada e almejada, por vezes cantada em versos aparentemente sólidos. O embargo de tais pensamentos me inibe a força e a coragem de erguer-me. Eu temo absurdamente. Ei, levante, enfrente a rua, desafie a brisa com um rosto altivo, sorria sem reservas para o mundo... que mundo seria esse digno de tanta reverência? Busquei motivos para me erguer, para vencer a letargia. Não os achei; melhor, se algum encontrei, era por demais débil para me convencer. A voz do otimismo é uma espécie de galho seco, que rebentou numa primavera alheia à finitude e se nega a morrer. Chega, porém, o inverno, com furor revigorado por meses de demora e o carrega consigo, sem reverência: é mais um item de um espólio aparentemente sem sentido. Cheguei a um ponto de mentiras, de postergações e de hesitações que demandam uma atitude. Uma vez, li um texto de um amigo, que tencionava ser escritor. Ele me entregara poucas páginas, as quais contrastavam com seu entusiasmo e fé em minha aprovação para tal obra. Sorri, recolhi-as, inculcando igual exultação. Por que não neguei? Naquela época, minha insegurança exigia de mim explicações diversas, e eu a ignorava solenemente. Ela ria de mim quando me via tolamente buscar outros subterfúgios de simulacro para minha fraqueza. Eu fugia da fraqueza, ela me perseguia, sem alarido, sem sofreguidão. Ela deixava-me correr. Ao cansar-me, ela se sentava comigo, não me dirigia palavra: eu a elogiava, por tamanho empenho e desprendimento de tempo. Tenho todos os dias para te lembrar. Num átimo, não a via; contudo, sabia que, do nada, apareceria exibindo discrição ímpar. Desisti, eu já pensei, mas, a par da fraqueza, a covardia igualmente me acompanha. Os papéis que me foram entregues por meu amigo exigiam a leitura. Eu a fiz, nada divisei de colossal. Eram inúmeras palavras jogadas num tecido sensaborão, que nem o papel se enrugava diante de fatos tão plácidos, tão pacatos e, por fim, tão idiotas. Deveria manchá-los propositadamente, inviabilizar a leitura por meio de uma estúpida xícara derrubada... nada! Era a covardia que silente me segurava a destra. Quando a covardia surgia, a fraqueza nos observava ao longe, mas fazendo-se visível. Texto ruim, um absurdo. Nada se moveu dentro de mim, como pôde? Meu querido, meu tempo em me encontrar fora desperdiçado com linhas que sequer merecem o apodo de mal traçadas... que embuste! Tudo isso com a minha anuência! Não posso, então, fustigar-te, sou igualmente culpado. Somos irmanados nesse lodo invisível, todavia denso, chamado... nem o nome disso eu sei. Tu também não o sabes, senão terias me poupado disso. Posterguei a entrega das folhas. O encontro não seria breve. Ele me inquiriria sobre o texto, forçar-me-ia a inculcar uma ilusão de louros os quais jamais chegariam. Para, meu amigo, cessa tua vontade, guarda tua energia para deixar os olhos abertos e assim suportar os embustes desmascarados. Esse destino talvez sejam caquéticas damas, que compartilham um olho, a tecerem um fio delgado, a percorrer um caminho de parcas subidas, de algumas descidas, mas de incessante morosidade e lassidão. De onde tirei isso? De alguma coisa grega que li. Só adicionei tragédias. São tão bonitas as tragédias, colorem de um viço renovado as banalidades, conferindo-lhes imponência. Pena que até as tragédias nos são emprestadas de outrem, pois a vida humana é acovardada pela fraqueza e pela covardia, outrora mencionadas. Não entreguei as folhas. Decidi por não o fazer. Ele não me cobrava, ciente de minhas pretensas ocupações, temeroso de um julgamento fortemente embasados em teorias até então desconhecidas para ele... que nada mais me importa. Eu estava a perscrutar agora o passado. Em algum momento, cedi à fraqueza e à covardia e, desta feita, as duas me perseguem. Devo pará-las de alguma maneira. Sussurra-me outra personagem, a qual não sei mencionar, que devo sumir, rumar para um reino de eterno sono... suicídio? Ergue-se altiva a covardia, que esboça um sorriso, ou algo similar, combinado a um gesto de desaprovação, um meneio vagaroso com a cabeça. Incontinente, eu a imito... não, matar-me nunca... se, em vida, angario esse tipo de companhia, imagina do outro lado o que me aguardaria com tal desatino? Fechei os olhos. Forcei-os para recobrar um sono profundo, dedilhando o véu da morte, sem nele adentrar. Esforço tolo, mas que, dada sua perseverança, acabou por me exaurir. Dormi profundamente, estendido como numa cruz, a palmilhar a disposição das duas madeiras do afamado símbolo. Caía uma névoa, era uma via descendente, uma descida não muito abrupta, porém perene. Não sabia que tipo de piso pisara. Era retilíneo, sem imperfeição, sem nervuras. A névoa fora se evanescendo, cansada de me tolher a visão. Era uma sala quadrada. Um sofá de três lugares estava disposto rente à parede oposta a uma janela de madeira. Contíguo, na outra parede, um outro sofá, de dois lugares, guarnecia a porta de entrada. Em frente a este, uma estante marrom, com uma televisão antiga, bojuda, com uns adereços brancos. Elefantes, mulheres esguias, potinhos, tudo de cerâmica, brilhava incessantemente. A mãe saiu. Sim, eu vi. Os olhares se entrecruzaram. Vou olhar se eles cruzaram a rua. O carro perdia-se na rua poeirenta, fazia semanas sem chuva parva sequer. Entrou com a testa suada. Vamos? Sim. Correram à cozinha, abriram o armário, tiraram dele um vidro cheio de leite em pó. Destamparam-no, olhinhos ávidos. Primeiro eu. Tomei-lhe o pote, enchi a colher e levei-a à boca. Mastigava o pó, que célere se amalgamava numa pasta branca e molenga, a grudar no céu da boca. Os olhos se fechavam, num prazer inaudito. Minha voz. Tirou-me o pote meu irmão. Também fez o mesmo movimento, com igual fechar de olhos. Rimos. Tapamos e fomos à geladeira. Abrimo-la, na ponta dos pés retirei uma peça de presunto. Ele batia palmas. Depositei o despojo na mesa. Ele trazia a maior faca e tascou-lhe um golpe no inerme objeto. Tirou duas polpudas lascas, que molhavam nossas mãos. Pingavam, dado o calor daqueles dias. Nada disso, contudo, fatigava aos dois. leitepo.jpgTudo guardado em devido lugar, sentamos para ver desenho. Só ouço ruído inaudível, a lembrança começa a fraquejar nas minúcias. A névoa se ergue de um canto ignoto e envolve parcialmente a sala. Esse titubear de detalhes contagia o tempo, o qual se balança num ziguezague tão imprudente, que horas e segundos se misturam e perdem suas propriedades. A névoa baixa novamente, quando a mãe e o pai chegam, abrindo o portão ela, ele dirigindo o velho carro de cor bege. Entram com inúmeras sacolas, depositam-nas na cozinha. A mãe cheira o chão, uns pingos ainda não secos desafiam-lhe o olhar. Vocês comeram o quê? Não haviam almoçado? O pai me pega pelo braço esquerdo e me leva até a cozinha. De novo? Sempre isso. Parecem dois ratos! Que coisa feia! Querem comer? Querem presunto? Ele tira a peça da geladeira. Usa a mesma faca de antes, mal lavada pelos criminosos, e destaca uma fatia ainda maior. Força-me a comê-la. Frágil força infantil, tenciono não digerir aquilo tudo, mas, enfim, cedo. Abro a boca maior que tinha naquele momento, engulo a metade do presunto. Rio, gargalho. Acordo. Suado. Feliz. Fecho os olhos, não quero perder a cena. Infelizmente, eu a perdi. Boto a mão na minha boca, e os dedos estão levemente tingidos de sangue.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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