pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O retrato de si e do tempo

O poema RETRATO, de Cecília Meireles, além de famoso, possui uma pecualiaridade: traz as linhas-mestras do pensamento da poetisa em três curtas estrofes.


cecilia-meireles.jpg Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: — em que espelho ficou perdida a minha face? retratocemei.jpg O poema, conhecido por muitos, chama-se O RETRATO e pertence à escritora Cecília Meireles. A temática de sua poesia é a precariedade da vida humana e a supremacia do tempo como unidade digna de respeito. O tempo, esse item, é o fio condutor dos versos de Cecília. Nada subsiste a ele: portanto, não adianta lutar contra a morte e contra a perda de algo. A transitoriedade das características do eu lírico no poema acima revela o modus operandi da nossa escritora: sua poesia parece ansiar por atingir um mundo atemporal e imaterial, em que a relatividade não existe, e tudo é absoluto; daí o desprezo pela matéria como algo que impede a perfeição e a ascese espiritual, ou seja, a plenitude da alma. Cecília possuía uma íntima ligação com a filosofia oriental, ao introduzir subliminarmente conceitos como samsara (ciclo de vida e morte, rompido apenas com a iluminação - liberdade da ligação com a matéria - ou Nirvana).

Os recursos estilísticos do poema começam pela repetição do advérbio ASSIM. Atua, nesse verso, como advérbio de intensidade, funcionando como uma partícula exclamadora, com forte sentido de perplexidade. A conjunção NEM, presente nos versos da primeira estrofe, corroboram o espanto com o quadro decrépito atual do eu-lírico. O pronome demonstrativo ESTE - e suas variações -, presente nas três estrofes, fomenta uma tomada de consciência calcada no tempo presente. Na última estrofe, a presença dos dois pontos fazem o outrora monólogo lançar-se para o leitor. Há um questionamento a fechar o poema, o único momento em que o eu-lírico se porta como alguém incapaz de responder à iminente decadência física e psicológica de si.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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