pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Conto: Bicicleta

Juventude: frescor de novas sensações. A descoberta, muitas vezes, pode chegar num descuido ou num gesto simples.


bici02.jpgA vó buscou com os olhos alguém na sala mergulhada em penumbra. Era dia, mas os prédios ao lado da antiga casa minguavam os raios de sol, chegando alguns poucos à casota de madeira. A janela totalmente aberta era quase um grito, um clamor por claridade. Maria passou correndo debaixo da janela, sem ser vista, mas fora ouvida. - Maria, venha aqui, falou a vó, tencionando erguer-se da poltrona, sem êxito. A garota era grande, cabelos saltitavam mais que o corpo em si. Maria completara 18 anos, mas era filha única do único rebento da vó igualmente Maria. A vó torcia um rosário enquanto esperava pelo retorno da neta. A menina corria do portão para os fundos, numa brincadeira solitária. Completamente absorta, não ouviu a avó. - Maria, aqui, a velhinha larga o rosário, os olhos se amiudam a perscrutar o vão entre a casa e um prédio. Quis erguer-se, o calor e a massa dos anos impediram-na. Mariaaaaaa, deixou a voz áspera, metálica, encompridando o a até o parco ar dos pulmões se esvair. A menina estacou. O corpo volveu rapidamente, a corrida foi para a porta da sala. Oi, vovó, algum problema?, falou ofegante, o braço direito buscou a parede como descanso. Sim, Maria, a vó aconchegou-se melhor na poltrona, desanuviando do rosto resquícios de contrariedade. A neta talvez não percebera, continua sorrindo, sorriso que medrava quando o ar entrava cálido nas narinas dela. Maria, vai ao mercado para mim? Mas não a mercearia do seu Manoel, muito sovina. A idosa fez menção de levantar-se, Maria, a jovem, saiu em socorro. Sim, vovó, aonde irei então?, a neta, na flor da juventude, ergueu a avó sem muito esforço. Abriu bem as narinas, sorveu o aroma da avoenga. Parecia que a avó não suava, o corpo dela entrara numa letargia consentida pelos anos. Pouco suor, parco calor despendido, apenas um bom banho diário mantinha-a agradável ao toque e ao olfato. Havia pouca areia no pêndulo da avó: era preciso poupá-la. Venha, minha filha, terá de ir de bicicleta. É um pouco longe, sabe... sabe andar? A vó levou a neta aos fundos da casa, abriu um antigo quarto, tomado por baldes, vassouras, rodos, potes de cheiro acre e uma bicicleta azul com um cesto à frente. Polvilhada por inúmeros pontinhos brancos, a bicicleta foi tomada pelas mãos curiosas de Maria. Vovó, posso ficar com ela? É linda. De quem era?, a guria interpelava a avó atabalhoadamente. Era do seu avô. Eu a limpava quase sempre, agora as pernas decidiram ranger mais que de costume, larguei a pobrezinha aí no quarto, mas ainda presta. Seu avô andava muito, ia a todo canto e..., faltou um pouco de ar, a idosa sustou o restante da frase, o rosto se fechou, o que aprofundou um vinco na testa dela. Sim, vovó, onde é esse lugar?, a menina não percebera o martírio súbito da senhora. A vó se recompôs incontinente. Bem, são umas... os dedinhos enrugados, a pedido de uma memória que lutava para ser vivaz, instavam um cálculo há muito soterrado na bruma dos anos. Umas oito quadras. As compras, coloque-as na cestinha... tenho a lista em mãos. Desembrulhou um papel amarrotado, ornado com uma caligrafia cuidadosa, uma letra espaçosa, desenhada a contento de ser entendida por qualquer um. Maria pegou cuidadosa a folha, dobrou-a, a avó se emocionava com os gestos delicados e calmos da neta. Os dedos branquinhos, de pele delgada, pareciam encher os olhos da velha de água. Esquecera as dores nas pernas, perdeu-se em perquirir a juventude da neta, dilatou as narinas a fim de senti-la. Era uma profusão de eflúvios, a garota exalava vida em laivos de diferentes matizes de cor, de aroma e de toques. Montou na bicicleta, girou as pernas num círculo tímido e movimentou-se pelo corredor. A vó deu-lhe antes a chave do portão e ficou imóvel na porta do quartinho. Tomou a rua, à revelia do trânsito adulto e insensível, abriu um sorriso, guiando a bicicleta próxima à calçada. Deteve-se num canteiro. Apenas carros passavam, não havia pedestres derredor. Arrebatou uma rosa. Subiu na bicicleta, a rosa na mão esquerda, voltou ao curso. Dividia a atenção entre a rua e a rosa, para não fustigar a última. Queria dá-la à avó. bici01.jpg Entre o desvelo com a rosa e consigo, Maria topou com um buraco na rua. Era uma cratera bojuda, daria uma boa piscina se chovesse. A bicicleta entrou nele, a garota esmagou a rosa diante do susto. O corpo ergueu-se com o choque e, em poucos segundos no ar, as mãos firmes e medrosas no guidão, voltou ao assento com ímpeto. Ao chocar-se contra o banco, foi como se deslizasse o entrepernas velozmente. O atrito desacelerou a queda. As mãos afrouxaram-se, o medo sucumbira diante de um novo sentimento. Havia uma sensação pós-queda, que fez Maria esquecer a rosa. A flor jazia na mão, as pétalas se perderam tais quais grãos de areia em mãos gigantes. Não havia beleza que comovesse a garota naquele instante. Maria parou a bicicleta. Levou a mão ao meio das pernas. Sentiu umidade. Seus dedos, outrora prudentes e até pachorrentos, estavam vivos: esquadrinhavam cada esconderijo. O corpo de Maria estava repleto deles. Eram áreas para as quais não havia nome, utilidade ou menção. Urgia conhecê-las. A menina, com a bicicleta modorrenta aos pés, erguia saia em plena avenida. Os transeuntes, a princípio, olhavam curiosos. Foi-se avolumando o fluxo. Pequenos regatos em torno dela tomaram a proporção de uma arena. Que horror. Como pode? Alguém a pare..., o falatório, antes em sussurros pouco audíveis, prosperou e beirou a assuada. Os olhares curiosos cederam espaço para gestos, mãos à boca, olhares medrosos, que se desviavam dos toques de Maria, mas que logo voltavam a eles, como mítica hipnose. Parem essa menina, vejam o que ela faz, que falta de vergonha... O alarido tornou-se tão alto, a multidão se aproximou tanto de Maria, que ela abriu os olhos e retirou as mãos das intimidades num átimo. Outrora esboçando um frágil sorriso, confundido com luxúria pura e frívola, ela se assustou. As mãos, em abrutalhado movimento, tencionavam dissuadir a plateia de estar ali. Em vão. Os olhares reprovativos pareciam alimentar-se dos gestos anárquicos da menina. Não mais se aproximavam aqueles estranhos, a vozearia não cessou. Maria prostrou-se de joelhos, as mãos viram no chão o anteparo ideal. Suspirou, olhou alto, buscou um retalho de azul do céu, refugiou-se nele. Era um azul como vira nas propagandas de cruzeiro, parecia pintado a guache com esmero. Como é lindo o mundo, murmurou. A natureza não pode ter sido feita pelas pessoas, falou num tom mais alto. As pessoas se calaram. Maria ergueu as mãos, parecia suplicar por algo. Seus lábios se tremiam, faziam movimentos desconcertados, os dedos em riste para o alto, imóveis. O público cedia espaço em torno dela. Consternado, temoroso, chocado? Ao certo, confundiam-se sentimentos. Absorta, Maria criava um fosso entre si e os curiosos. Descobrira, inconsciente, que seu próprio mundo era-lhe um inconteste refúgio. Aos poucos, a imobilidade da menina, seus supostos queixumes inauditos, seu pertinaz monólogo sopraram a indiferença nas pessoas. Maria perdeu o prestígio de tresloucada, de insolente. Tornara-se banal, apenas uma louca. Tal qual pó numa tarde ventosa, a plateia se dissolvera. Cada qual seguira sua vida, haveria hoje história para contar, um desconhecido para julgar, uma moral para se pregar. Maria esquecera tudo e todos. Saiu do transe, os olhos não sabiam ficar calados. Eles tagarelavam, sem que alguém lhes desse atenção. obra-de-arte-ou-bicicleta.jpgQuis alçar voo, percebera que não tinha asas, apesar de sentir-se leve. Tocou na bicicleta azul, imóvel desde a queda e a descoberta. Sua sincera imaturidade revelava-se agora. Ora avançava a mão no guidão da bicicleta, ora a recolhia, rindo-se do que classificava como medo. Enfim, movida pela propalada fraqueza de carne, e a saudade da sensação urgia tomada de decisão, tomou a bicicleta, empoleirou-se nela e pôs-se a pedalar. Andava diferente agora. Acelerava menos, não olhava para os prédios, para os pedestres, para os carros. Tampouco o azul do céu a interessava. O assento suava, Maria se esfregava nele com parcimônia. Conhecera aí o medo da perda. Sorria a cada esfregadela, mas sem arrulhar. Sentiu-se egoísta pela primeira vez. Envergonhou-se da corrida infantil da manhã. Esqueceu a lista do mercado da avó. Murmurou, num misto de espanto e de orgulho, sou mulher.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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