pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Conto Fitar o vazio

Quando se está com alguém, isso não garante que terá companhia. Ter companhia vai além da presença física.


vazio.jpg Eis o nome dele. Graciliano. Ele riu quando me disse. Graciliano. Meu pai homenageou o pai dele. Meu avô, sabe... talvez ganhara o nome por conta do escritor. Não sei, não vem ao caso. Mas que pele macia. Que delícia. Bom de pegar. As mãos de Graciliano investiam decididas sobre meu corpo. Agarrou-me os ombros, foi-me descendo, a frágil vestimenta cedeu àquela força viril. Graciliano tinha os braços peludos, mas eram pelos macios. Roçava propositadamente, para talvez marcar-se como o homem. Minha pele, dissera, era amendoada, macia e lisa. Brutalmente sem sê-lo com palavras, ele se impunha. Tirei-lhe a camisa. Mais pelos. Ele ria com a cabeça abaixada, era uma técnica usada nos filmes de terror. Tal posição conferia ao vilão uma mordacidade atroz. Graciliano queria ser mau. Entendi o recado e me pus deitada na cama. Num átimo, ele agarrou-me as pernas, puxou-me para a beirada da cama, depositou vagarosamente meus calcanhares nos seus ombros. Feito isso, suas mãos arremessaram longe a calcinha branca, que se perdera ao fundo. Não mais servia. O propósito dele era claro. Ele me exibiu o mastro. Era lindo, sem ser comprido, mas portentosamente grosso. Sua mão buscou a minha e a levou até o pau. Fechei os olhos e o segurei forte, o que fez Graciliano abrir um sorriso seguido de um longo gemido. Minha mão brincava com aquele pedaço rijo de carne. Eu estava feliz, ele sorria, os olhos pareciam tremer. Sorri em resposta àquele deleite. vazio1.jpg Na mesma posição, Graciliano se desvencilhou da minha mão e mirou o mastro em mim. Aproximou-se de mim, seu tronco descera quase até o meu, sua boca foi chegando... fechei os olhos, cedi os lábios, esperava um beijo, cuja intensidade me era incógnita. Graciliano não me concedia indícios de como seria em certos momentos: se seria meigo, dócil e compreensivo, ou ávido, cúpido e animalesco. Venceram as maneiras agrestes. O beijo não viera, Graciliano arqueou o corpo, tomou impulso e, novamente ereto, impeliu vigorosamente seu membro para dentro de mim. Não tomou conhecimento de como seria a cavidade que o abrigaria. Pensou em si. Afastei tal pensamento tacanho e me dispus a ceder os espaços necessários para tanto. O olhar dele, outrora de desejo, matizou-se com cores obscuras. O cenho de Graciliano tingira-se de raiva, de cupidez e de um sem-número de matizes que me assustaram. Machucou a entrada desmedida e impensada. Eu suportava a dor, as investidas perenes e insistentes. O que me animava era rever o sorriso de Graciliano. Por que ele não ria? Ele rangia os dentes, emitia grunhidos monossilábicos. Não entendia, não podia pará-lo, suas estocadas surrupiaram meu ar, arrancando-me gemidos sôfregos, os quais voavam até ele e o embebiam num esgar cada vez mais assustador. Minhas mãos, num instinto de defesa, pousaram no peito dele. Graciliano conseguiu emitir algo inteligível então. Aperta meus mamilos. Repetiu três vezes, numa rapidez quase tão veemente quanto seus movimentos corporais. Fiz o que mandara. Ele esboçou um misto de alívio e volúpia. O sorriso, porém, não viera. Entre as inúmeras estocadas, balbucei uma interjeição de dor, quebrando a toada dos gemidos. Graciliano entendeu mal. Atiçou-lhe a vontade de vociferar impropérios contra mim. Ele mal me conhecera, trocáramos mensagens impessoais, de um expondo desejos ao outro. Não havia compromisso, ele tanto frisara. Ali, ele se arvorou no direito de me ofender. Vadia, vagabunda, quer mais dessa vara, não é mesmo? Quer esse macho? Seus olhos eram castanhos, mas agora se manchavam com sangue. O líquido vital sumira-lhe das mãos, do tronco, e se depositara ora no pau, ora nos olhos. Olhos sanguíneos arguiam as minhas intenções de desistência. Graciliano jamais me permitiria sair dali, sem que terminasse sua faina de macho. Ele cerrou-me os dentes, seu gemido foi mais comprido que os anteriores. Gozara, afinal. Ele retirou o pau, desarmou do cenho carregado. Baixei as pernas, ele saíra e quase despenquei. Ele se voltou, vira o que fez. Sorriu forçado. Não me servia isso. Era falso, um sorriso por um descuido comum a homens da estirpe de Graciliano. Quis me ajudar, ergui-me ostentando uma mão que requeria autoridade e respeito. Quase um fora daqui, não preciso de ti, Graciliano. Ah, seu nome o incomoda? Agora que o repetirei à exaustão. Graciliano, por que fez aquilo? Por que não me abraçou quando gozou? Por que não deitou ao meu lado? Por que, depois de quase se esvair em jorros, não perguntou, com sua voz trêmula de macho débil, se eu gozara? Graciliano, por que entrou na minha vida, mesmo eu ciente de que seria mais um de uma única vez? São tantos porquês, Graciliano, que não me importo de imputar-lhe uma culpa que sequer sei o nome. Não sei qual seu crime, Graciliano, mas saiba que é culpado. Por que não sorri para mim, Graciliano? Ele ia botando a roupa vagarosamente, mas via que ia acelerando. As forças voltavam, o sangue desferia uma corrida célere por seu corpo. Aquele tronco, antes avermelhado, tornou-se róseo, coloração comum a homens brancos. Todo o corpo de Graciliano voltou à cor original. O sorriso, contudo, era ausente. Não havia mais chance para vê-lo. Graciliano não sorriria novamente para mim, como fizera ao me despir tão vigoroso. Ele se despediu. Você me acompanha? Não, é só apertar um botão ao lado da porta da rua. Ah, sim... Não esqueça de batê-la, senão ela fica aberta. Sim, pode deixar. Fitei o vazio. Já estava sozinha e vazia. A saída dele foi só para eu ter certeza de que, nesta tarde, estivera apenas isto: sozinha e vazia.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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