pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Conto: Amarelo

O que seriam as cores senão soldados a avançar sobre algo ou a recuar? Uma analogia com a vida e com as cores.


amarelo.jpg A mão deslizava torpemente sobre a página de letras miúdas, pretas, que mais se destacavam no papel amarelado pelo tempo. A janela aberta logo à frente inundava o livro de brancura frágil, incapaz de dirimir o amarelado da folha. Aquele amarelo parecia pintado a mão, tão veemente que era. Nem mesmo a luz matinal o fustigava. Mantinha-se ali parado, mas ciente de sua força e altivez. Parou a leitura, a mão passou a animar-se. Fincou o amarelo na pauta daquele momento. Quem tingira o livro daquela cor já chamada de covarde por um poeta? Quem seria? Ah, lembrei-me, fora o Drummond. Havia um poema no livro A Rosa do Povo, no qual o poeta mineiro dissera que, sobre os corpos dos covardes, nasceriam flores amarelas... seriam corpos de covardes ou as flores eram as medrosas? Não sei. Não ouso me levantar para ir atrás do livro. O amarelo, ali pungente, fazia-se imperioso para ser admirado. Tudo que o é intensa e fortemente parece chamar a atenção para si. A página amarela estava no seu momento. Virei a página, quase num medo herético. À outra seguia-se o mesmo tom de amarelo. A farta quantidade dessa nuança inspirou-me os dedos a devassar o livro. Não mais interessavam as letrinhas pretas, de um escuro tão ordinário e comum. A cada página avançada, o amarelo se mantinha. Foram cinco, dez, vinte... o livro terminou. Comecei a arfar ansioso. Fechei o livro, o amarelo permanecia até na lombada. Sentado, baixei a cabeça para ter certeza de tal poderio cromático. Não poderia ser a cor covarde, ela se espalhara livro adentro, não deixando espaço para nenhuma outra. A obra era antiga, de uns trinta anos atrás, e o amarelo realizou o trabalho de colori-la a seu bel-prazer. Não havia uma mancha sequer, era o império amarelo. Volveu-me outro pensamento... há os chamados povos amarelos, que são numerosos, lá na Ásia. China, Japão, Coreias, regiões onde a pele amarela prevalece e são verdadeiros formigueiros humanos. Não pode ser realmente a cor covarde o amarelo. A China quer abarrotar o mundo com seus produtos, numa agressividade silente, de trabalhadores cabisbaixos, disciplinados, sem um esgar sequer de tristeza tampouco de alegria. O amarelo se empenha em criar produtos, em colocá-los prontos nas prateleiras. O Japão desconhece os arroubos das paixões: suas ruas asseadas, sem um papel esvoaçante, são feitas para passos meticulosamente contados, de pessoas de olhos pequenos e de olhar visionário e pacato. Os japoneses, também amarelos, espremem-se em casas diminutas, num território exíguo; porém, não se queixam, não se revoltam, não se entristecem. Quando o espaço ínfimo parece açoitá-los, lotam as áreas abertas com árvores seculares. E ali se espremem novamente, sem sinal de desagravo. O amarelo não parece covardia, mas sim uma espécie de paz, um armistício pensado, cerebral, digno de quem o concebeu há séculos e fora aceito por todos sem pecha de dúvida. Ainda esse sossego funciona, a despeito de terem esses povos amarelos entrado no circuito do consumo. Voltei-me para o livro. Ali fechado, o amarelo dentro dele contido, mas não domado. Ele transbordava pelos lados. livro-velho.jpgPeguei-o com as duas mãos. Suspirei, num átimo, deixei-o cair, por querer. Estatelou-se no chão. O amarelo não gritou, não verteu um gemido sequer. Se alguém me deixasse cair, pobre de quem estivesse perto: gritaria, amaldiçoaria, como o fazem as vítimas de alguém que se julga superior. Recolhi-o. Havia o espaço vago na estante. Ali ficou. Peguei o livro contíguo. Abri-o imediatamente. Não estava amarelo. Ainda. Era novo, comprado na semana passada. As páginas se sucediam brancas. Ou melhor, pálidas. Um brilho pousou no olhar, pensei alto: o branco é frágil. Dura tão pouco. Qualquer outra cor, por mais pálida que se mostre, tinge o branco, surrupia-lhe a supremacia e, lentamente, esconde-o até extingui-lo. Assim são também as pessoas mais brancas: à menor exposição de sua tez sob o sol, já se maculam com outras tonalidades. Uma miríade de cores invade a pele branca e a vergasta. Com o tempo, a pele branca, se assim se submeter a constantes invectivas, verga-se a tons frouxos, perde-lhe o viço, arqueja por um pouco de paz e, enfim, renuncia ao brilho para cair numa palidez que é o espaço para qualquer matiz tomar conta. Aí entram as cores covardes, aquelas que não gozam de prestígio, que jamais chamaram para si a suserania de alguma superfície. Cansei da pusilanimidade do branco. Devolvei o livro à estante. O olhar perscrutava o local, a fim de achar outra cor tão intensa e forte quanto o amarelo. Os livros antigos estavam já tomados pelo amarelecimento. Não havia um livre disso, senão os mais recentes, que exibiam a frágil brancura, associada a um aroma que se perde em poucos dias. Ao branco, associavam-se fragilidades. O amarelo, não. Não aceitava concorrentes, inquilinos e coadjuvantes. Amarelo era aquilo que eu sempre esperei da vida: vontade, ânimo e perseverança. Não o contrário. A vida se esvai com os anos; o amarelo conquista com o tempo. Invejei os livros antigos e amaldiçoei a minha pele amorenada e meu sangue rubro.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Gilmar Luís Silva Júnior