pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Machado de Assis: um realista?

Machado de Assis desafia análises e se nega a ser incluído em uma única estética literária. Entenda por que ele está além do Realismo.


machadoz1.jpgChega a ser redundante a explanação da importância de Machado de Assis no panorama da literatura brasileira e, quiçá, dos escritos latino-americanos. Na ânsia de valorizá-lo, a crítica literária tradicional deposita Machado como o deflagrador da estética realista no Brasil. Isso, de tanto ser repetido (faz lembrar Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, que afirmara: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”), acabou por tomar foros de axioma, quase um mandamento. Dizer que Machado é o introdutor do Realismo no Brasil é um conceito que merece ser revisto. Em primeiro lugar, o que seria Realismo? O filósofo húngaro Georg Lukács apregoa que a obra de arte em si é realista, excluindo tudo aquilo que se desvincular disso. Para ele, a literatura em especial possui um liame íntimo com o cenário político, cuja conseqüência cardinal seria fazer ruir falácias sociais ou exacerbar contradições igualmente sociais. Em miúdos, literatura é o que fomenta contestação. Nesse ínterim, a caracterização da personagem em um romance, por exemplo, atende a um anseio de “desvelamento” de cortinas/falácias sociais erigidas pela ótica capitalista (Lukács é um pensador marxista). Para tanto, Lukács fala a existência das tipologias “típico” e “médio” no tocante às personagens: “[O típico seria] a encarnação concretamente artística da particularidade. (…) Apresenta-se aqui a escolha: o modelo para a caracterização artística deve ser a estrutura normal do típico ou a do médio? O princípio desta escolha implica, em resumo, o seguinte: se a forma da caracterização parte da explicação ao máximo grau das determinações contraditórias (como no típico), ou se estas contradições se debilitam entre si, neutralizando-se reciprocamente (como no médio). Aqui não mais se trata de saber simplesmente se uma dada figura é média ou típica, no que diz respeito ao conteúdo de seu caráter, mas trata-se, ao contrário, do método artístico (acima indicado) da caracterização; ele possibilita – isto ocorre frequentemente – que artistas de valor elevem um homem médio à altura do típico, colocando-o em situações nas quais a contrariedade das suas determinações se manifesta não como ‘equilíbrio’ médio, mas como luta dos contrários, e apenas a vacuidade dessa luta, a queda no torpor, caracteriza a figura como figura média. É igualmente possível – isto ocorre também muito costumeiramente, sobretudo na arte mais recente – que a representação do que é em si típico seja rebaixada ao nível estrutural do que é médio, o que acontece quando a contrariedade das determinações não é abandonada ao seu livre curso e os resultados são já aprioristicamente estabelecidos. No primeiro caso, vemos como a verdade da forma, que desenvolve o seu conteúdo médio de acordo com as proporções da vida real, engendra movimento e vitalidade no que é em si rígido; no segundo caso, vemos que o modo da realização formal na representação é muito mais pobre do que a realidade empírica imediata” (LUKÁCS, 1968, págs. 271-282). A boa literatura – que seria a de cariz realista, sob a batuta de Lukács – seria aquela permeada pela figura do típico, já que “o tipo vem caracterizado pelo fato de que nele convergem, na sua contraditória unidade, todos os traços salientes daquela unidade dinâmica na qual a autêntica literatura reflete a vida” (LUKÁCS, 1965, pág. 33). A obra realista traria em seu bojo, portanto, o germe da contradição da sociedade capitalista e os artefatos necessários para que fosse criticada e, se possível, modificada. Esse é o aspecto suprassensível da obra realista, isto é, o método de se pensar o engenho artístico. Falou-se na tipologia da personagem e na estruturação da obra realista ante a realidade circundante. Há um outro lado que pode, de certa forma, abalar todo o edifício da verossimilhança e da garantia do Realismo como a obra documental de uma era. Trata-se da arte de narrar. O crítico inglês James Wood ludicamente fala da narração: “A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. (…) Na verdade, estamos presos à narração em primeira e terceira pessoa. A ideia comum é de que existe um contraste entre a narração confiável (a onisciência da terceira pessoa) e a narração não confiável (o narrador não confiável na primeira pessoa, que sabe menos de si do que o leitor acaba sabendo). De um lado, Tolstói, por exemplo, e de outro, os narradores Humbert Humbert ou Zeno Cosini, de Italo Svevo, ou Berrie Wooster (WOOD, 2011, pág. 19)”. A escolha da narração em 1ª ou 3ª pessoa apresenta um falso senso comum: quando se fala em primeira pessoa, é um narrador pouco confiável, ao passo que a terceira pessoa tem sobre si o gáudio da confiabilidade. Wood graceja com tal convicção: “até o narrador que não parece confiável costuma ser confiavelmente não confiável”. Olhemos para os narradores Bentinho e Brás Cubas: o último, por mais insólito que seja – a começar por falar de “outro mundo”, visto que narra como morto – consegue maior poder de convencimento que o primeiro, de posição social similar, mas roído por ciúmes, por remorsos e por desconfianças. Brás Cubas – o narrador motejador – afiança uma crítica virulenta, por implodir a vida burguesa como burguês que fora. Agora, Bentinho titubeia nas rememorações e evidencia pusilanimidade frente a uma mulher mordaz e inteligente, a afamada Capitu. Aliando os ditos de Wood e de Lukács, Brás seria o típico narrador realista; Bentinho soaria numa esteira mais impressionista. Por conseguinte, vê-se que englobar Machado de Assis como um autor eminente realista não pode ser um axioma. Os manuais de literatura, ao trazer esse pressuposto como dogma, acabam por reduzir a obra machadiana em sua diversidade. Além desse aspecto, há algo que também assombra: a indiferença à face poética de Machado, cujo legado tem sido igualmente subestimado, pois há quem o enquadre como representante do Parnasianismo (o crítico Cláudio Murilo Leal, na edição de 2008 de toda a obra poética de Machado de Assis, cita outro crítico, o poeta Péricles Eugênio da Silva Ramos, quando este afirmara que “por sua pregação crítica e pelo exemplo de sua poesia, Machado de Assis é não apenas um traço de união entre Romantismo e Parnasianismo, mas um legítimo precursor da segunda corrente (LEAL - org., 2008, pág. 14)”.


Gilmar Luís Silva Júnior

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