pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Poema Visio, de Machado de Assis: crítica

A beleza da mulher descreve um movimento pendular: sacralidade e tentação. Neste poema de Machado de Assis, ele resgata esses dois polos de maneira sutil.


mulhervisio02.jpg Eis o poema Visio, presente no primeiro livro de poemas do egrégio escritor Machado de Assis:

Eras pálida. E os cabelos, Aéreos, soltos novelos, Sobre as espáduas caíam... Os olhos meio cerrados De volúpia e de ternura Entre lágrimas luziam... E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiam...

Depois, naquele delírio, Suave, doce martírio De pouquíssimos instantes, Os teus lábios sequiosos, Frios, trêmulos, trocavam Os beijos mais delirantes, E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes...

Depois... depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquele sonho desperto, Olhei... silêncio de morte Respirava a natureza — Era a terra, era o deserto, Fora-se o doce transporte, Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira: Tudo aos meus olhos fugira; Tu e o teu olhar ardente, Lábios trêmulos e frios, O abraço longo e apertado, O beijo doce e veemente; Restavam meus desvarios, E o incessante cuidado, E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria Tão outra estás da que eu via Naquele sonho encantado! És outra – calma, discreta, Com o olhar indiferente, Tão outro do olhar sonhado, Que a minha alma de poeta Não vê se a imagem presente Foi a visão do passado.

Foi, sim, mas visão apenas; Daquelas visões amenas Que à mente dos infelizes Descem vivas e animadas, Cheias de luz e esperança E de celestes matizes; Mas, apenas dissipadas, Fica uma leve lembrança, Não ficam outras raízes.

Inda assim, embora sonho, Mas, sonho doce e risonho, Desse-me Deus que fingida Tivesse aquela ventura Noite por noite, hora a hora, No que me resta de vida, Que, já livre da amargura, Alma, que em dores me chora, Chorara de agradecida ! mulhervisio01.jpg Neste poema, Machado de Assis vale-se de um expediente muito caro à representação da mulher em Gregório de Matos. O poeta baiano do século XVII se notabilizara pela aproximação do cariz secular (tentador) da figura feminina com a religiosa da feminilidade como detentora de beleza angelical . A palidez de heroína romântica é usada na primeira estrofe; à revelia de fragilidade, exalta uma nuance sensual, já que os cabelos caem-lhe sobre os ombros. Na segunda estrofe, entretanto, a representação feminina do poema o aproxima do caráter sensual do lirismo de Castro Alves, pois a mulher se dota de impulso e de propósito – “ao teu seio me cingiram [os braços entrelaçados]”. A terceira parte insiste nos oximoros (aproximações de palavras de sentido oposto, a fim de reforçar a expressão). São os pares sequiosos-frios, anjos-almas palpitantes, por exemplo, que corroboram uma personagem paradoxal representando um universo quase onírico de sensualidade. A quarta estrofe promove um deslocamento do onírico – sensual – para a crueza do desafeto. Utiliza-se a natureza para incrementar o quadro de desencanto. Não há a austeridade de Wordsworth: a moldura natural se apresenta tal como a viam os gregos antigos. Para estes, a natureza: [conhecida por ‘physis’] tinha um sentido dinâmico, traduzia uma força latente de tipo germinativo, sem que houvesse uma distinção nítida entre o animado e o inanimado. Múltiplas forças vinham percorrê-la, e essas forças representariam, afinal, uma divindade na medida em que dela participavam (GUIMARÃES, Fernando (prefácio e tradução). POESIA ROMÂNTICA INGLESA. Ed. Relógio d’água.1992).

O uso de elementos abstratos – solidão, tristeza, sono desperto – atende à escolha de um entre dois níveis de concretização dos esquemas narrativos: o temático e o figurativo. Este é mais concreto que aquele, uma vez que emprega substantivos e adjetivos concretos, nomes próprios e seres animados dotados de inteligência racional ou que nela estejam imersos. O esquema temático busca classificar a realidade, ordená-la ou interpretá-la; o figurativo tenciona construir um cenário palpável de personagens. O temático, portanto, é usado nessa guinada do poema em questão . O programa narrativo continua nas próximas estrofes. O poeta executa, nos versos subsequentes, uma passagem do figurativo para o temático, pois enumera as mudanças de atitudes da amada em função da ausência de ações afetivas que desapareceram. As últimas duas estrofes cotejam ora com o figurativo, ora com o temático. Em termos de temporalidade, não mais avançam: refestelam-se no senso comum do amor romântico, calcado na inacessibilidade da mulher amada.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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