pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

Duas heroínas do diretor mexicano Guillermo del Toro e suas implicações literárias

Duas personagens do diretor Guillermo del Toro mostram similitudes alicerçadas em tradicionais conceitos literários. Descubra as semelhanças entre Elisa e Ofélia.


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Duas heroínas de dois filmes do diretor mexicano Guillermo del Toro possuem um ponto em comum nevrálgico: ambas se encontram menosprezadas na sociedade onde se inserem e conquistam notoriedade após a morte. Ofélia, do filme O Labirinto do Fauno, de 2006, é uma criança sonhadora, que não percebe as escaramuças frequentes ao redor de si. O ambiente belicoso retrata a guerra contra o ditador e general Franco, na Espanha do final da década de 1930. As visões de Ofélia se inscrevem na percepção de um mundo paralelo, com forte alusão ao nonsense (em tradução, sem sentido), desenvolvido primordialmente dentro do universo infantil pelo escritor Lewis Carroll (século XIX). A garota sofre as impetuosidades no dito ambiente real, alicerçado na História (os combates da esquerda contra Franco), e no fantástico, permeado de provações em busca de prestígio. Não se pode pensar em O Labirinto do Fauno como um artefato de literatura no âmbito do maravilhoso, pois esse filão pressupõe a não problematização entre real e irreal, o que não acontece no filme. Essa película se esbate no terreno do fantástico, estudado pelo filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov. Todorov expõe que o fantástico se desenvolve paralelo ao plano real e familiar e tende a reproduzir mecanismos sociais similares à realidade. A retórica narrativa fantástica aponta para uma hesitação entre a explicação científica e o espanto com a irrupção do sobrenatural. Aí que se encontra a obra em questão de del Toro. Ofélia alcança o status de princesa por meio de sacrifício: perde a vida terrena para proteger o irmão do sacrifício humano - ela dialoga tangencialmente com o episódio bíblico de Jacó e Isaac, no qual o primeiro mataria o filho a contragosto por ordem divina. Ofélia não pestaneja, mostrando mais magnanimidade que a personagem bíblica. Já a protagonista Elisa, do filme A Forma da Água, de 2018, também se encontra em desvantagem: é uma reles faxineira em um órgão do governo dos EUA. Novamente, o ambiente é hostil: agora, é a década de 1960, auge da Guerra Fria. Elisa, assim como Ofélia, age alheia a isso, embora sinta as inconstâncias do seu tempo. Enquanto Ofélia tem sua voz menosprezada por ser criança, Elisa nem voz possui: é muda e encontra como confidentes dois arquétipos secularmente preteridos na sociedade - a amiga negra e o amigo homossexual. Ambas - Ofélia e Elisa - são criações de del Toro as quais se imiscuem no herói problemático, uma nova percepção da figura do protagonista que foge do estereótipo romanesco do herói como detentor de grande poder ou força. Elas encerram em si virtudes psicológicas - o herói moderno se vê muito menor que o mundo circundante e carrega dentro de si insatisfação, a qual pode ser pronunciada - como fora em Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes -, ou sublimada - como em Macabéa, de Clarice Lispector. Essa definição provém dos estudos de György Lukács, filósofo e historiador húngaro. As personagens cinematográficas em questão convivem com a insatisfação, ainda que, durante boa parte dos filmes, elas não as exacerbam. A insatisfação assume forma e passa a acionar as virtudes das personagens quando acontecem situações-limite: Ofélia protege o irmão; Elisa ajuda a criatura humanoide a fugir da opressão. A construção das duas personagens se faz com o trabalho pendular do diretor Guillermo del Toro entre o lúdico e o sombrio: a ludicidade promove o terreno das virtudes e o sombrio busca submetê-las à provação e à sanção para obterem o estatuto de heroínas. O sombrio parece vencê-las no final de cada filme; porém, por artimanha da literatura fantástica, elas adentram num mundo paralelo, com regras sociais, mas que as valorizam como seres superiores. Atingem assim o píncaro dos heróis trágicos gregos, conhecidos por fibra intensa diante dos desatinos da moira (destino).


Gilmar Luís Silva Júnior

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