pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O clichê na arte

Quando a repetição de ideias se torna clichê? O que é ordinário e medíocre em arte? Tentemos organizar essas ideias neste artigo.


Atualmente, as palavras MEDÍOCRE e ORDINÁRIO carregam consigo uma forte conotação pejorativa. A etimologia de medíocre remete ao Latim: mediocris, na língua de Cícero, dizia respeito a algo equilibrado, médio ou mediano – em suma, o que não era excessivo. Os poetas neoclássicos, ao trazerem das tumbas a cultura e a inspiração greco-latinas, cunharam um termo: aurea mediocritas (aura medíocre – na acepção latina, isto é, um ar sem excesso, comedido). Ordinário também surgiu do Latim ordinarius, aquilo que está em determinada ordem. Possui, assim, um certo vínculo semântico com mediocris – aquilo que não foge à norma, que não se derrama à toa. cliche.jpg

Com o decurso do tempo, medíocre e ordinário alçaram o patamar de xingamentos. Qualificam aquilo cuja qualidade é duvidosa. Quando uma peça artística se esgueira pelo normal, pelo padrão, pelo comedimento, certamente há quem a chame de ordinária. Para medíocre, é um passo. Essa idéia “ordinária” e “medíocre”, ao ser reproduzida indefinidamente, vira o que comumente se chama clichê. Esse termo, oriundo do Francês, nomeava uma matriz (fonte) metálica, com a qual se reproduziam imagens e textos a bel-prazer. Diante desse estatuto de alta reprodutibilidade da mesma “coisa”, clichê designa também algo comum, tolo, sem inspiração. Os detentores do cânone – palavra de origem grega, κανών (vara de medida), a qual define o conjunto de peças artísticas dignas de admiração – tacham de clichê tudo aquilo que repete uma idéia, até a exaustão e tal pensamento se esvaziar de qualquer impacto.

Há aí, porém, um paradoxo – outro presente do Grego, nomeando duas ideias ou situações que se excluem mutuamente, sendo, dessa forma, impossível colocá-las lado a lado. A existência do cânone – conjunto de regras para o bom gosto e a excelência da arte – pressupõe que esses postulados sejam copiados. Pode haver algum acréscimo de detalhes inéditos; entretanto, essa miríade de novidades escassear-se-ia, acontecendo, então, a reprodução do já conhecido. O cânone tenta evitar o clichê, o medíocre e o ordinário; entretanto, forma terreno para que tais apodos existam.

Um cientista norte-americano chamado John Horgan, no seu livro O fim da ciência, reverbera o que eu dissera no parágrafo anterior. Horgan assevera que as bases gerais do conhecimento já são de todo conhecidas; acrescentar-se-iam elementos pontuais, os quais trariam progresso, mas sem a quebra de paradigma que uma descoberta ocasiona. O insigne pensador, portanto, apregoa que a era das novidades chegou/chega/chegará ao fim. O professor da UFRGS (Universidade Fedeal do RS) Ivan Isquierdo torna esse raciocínio mais palatável ao dizer: “(...) descobriremos novas partículas subatômicas, mas não o átomo, porque este já foi descoberto”. Isso se estende às manifestações do intelecto humano, inclusive a arte.

Um exemplo mais contemporâneo aparece nas críticas sofridas pela película A Forma da Água, do diretor mexicano Guillermo Del Toro. A figura do monstro-protagonista rememora outros filmes da década de 1950 – O Monstro da Lagoa Negra (1954) e a continuação A Revanche do Monstro (1955), ambos do diretor e ator norte-americano Jack Arnold. A paixão entre uma humana e uma criatura bestial dialoga com A Bela e a Fera (1946), do poeta e intelectual surrealista francês Jean Cocteau. O próprio filme de Cocteau adapta para as telonas um conto francês de 1740.

Havia, levando em conta tais peças artísticas (não esqueçamos o filme King Kong, da década de 1930, o qual também fomenta o intercurso amoroso de um ser selvagem com uma humana), A Forma da Água seria um clichê, pois repousaria em material fartamente divulgado e conhecido pelas audiências de várias épocas. Todavia, façamos justiça: a protagonista-humana não serve para “bela”. O plano político – a disputa entre EUA e a extinta URSS – é retratada poeticamente, com a emergência de estereótipos sim – o malévolo coronel Richard Strickland, performado por Michael Shannon, mas bem dosado na trama amorosa. A perspicácia de Del Toro é enlaçar o amor de dois rejeitados com a disputa tecnológica que ditou a Guerra Fria. Essa é a novidade sobre o já combalido assunto de monstros vítimas do amor por alguma mulher, que garante ao filme do diretor mexicano um lugar de novidade a tal temática.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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