pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O Planeta Fome de Elza Soares

O último disco de Elza Soares religa a maturidade da cantora com sua sombra mais intensa: a fome.


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Há quase 70 anos, a cantora Elza Soares decidiu participar do programa Calouros em Desfile, de Ary Barroso, com intuito de arrebatar o prêmio e salvar da fome a família. Elza remendou o vestido da própria mãe, esta com 60kg à época, pois a cantora exibia apenas 32kg, em virtude da situação de penúria. Ary, ao ver a candidata desgrenhada e macilenta, perguntara: "De que planeta você veio?". Elza, sem pestanejar, respondeu: "Planeta fome". No ano passado, a carioca lançou o disco Planeta Fome, reatando sua voz madura aos primórdios de sua carreira. A fome que a artista exibe nesse primoroso trabalho não é apenas por comida: Elza dispara contra toda uma estrutura social injusta e excludente. Porém, a artista não cai no discurso panfletário e francamente realista e seco: as composições aqui trafegam soberanas pelas figuras de linguagem, um artefato disponível na língua descoberto pelos gregos da Antiguidade. São 12 faixas sedimentadas com a unidade da perspicácia de uma artista de quase 90 anos, que superou a fome, mas não esquecera as raízes. As canções dialogam com o plano político-social e fazem um amálgama do rock com as influências africanas na sonoridade brasileira. Uma canção, no entanto, pode ser escolhida para representar os artifícios artísticos presentes nesse disco, sem que seja, de fato, mais importante que as demais: a faixa 3, chamada Brasis. Nos anos 1980, era consenso dizer que o Brasil se mostrava ao mundo como uma Belíndia: riqueza da Bélgica e pobreza da Índia. Com a redemocratização e a posterior atuação livre de pesquisadores, desnudou-se que o afamado "milagre econômico" não passara de um belo conto: a concentração de renda se acentuou, e o Brasil que Elza vira não mudou quase nada. Por isso, ela nomeia a canção em questão como Brasis: uma ode à miscigenação, mas sem enlevo à falsa democracia racial. Para tanto, a música será revista estrofe a estrofe.

Tem um Brasil que é próspero Outro não muda Um Brasil que investe Outro que suga

A primeira estrofe traz a antítese, figura de linguagem que aproxima duas realidades opostas e possíveis em um item (diferencia-se do paradoxo, que define algo por meio de dois conceitos inconciliáveis). Próspero X não muda: o avanço do país não rompe de fato com as estruturas arcaicas; investe X suga: a função do Estado sempre foi primordial em alavancar a prosperidade do país, porém a corrupção causada por distorções entre o privado e o público minam esse poder de investimento estatal. Essa concepção é endossada pelo sociólogo Jessé Souza.

Um de sunga Outro de gravata Tem um que faz amor E tem o outro que mata

A segunda estrofe novamente trabalha com a antítese, mas se vale de outra figura de linguagem: a metonímia (troca de uma palavra por outra quando entre elas há uma relação bem forte de sentido - ele é um bom garfo: ele come muito). As palavras "sunga" e "gravata" são símbolos de grupos sociais que se opõem, à primeira vista, pela vestimenta: o pobre, a quem a praia é o único espaço democrático disponível para o lazer, e o executivo, enfurnado em ternos e outras liturgias. A oposição amor X mata materializa dois sensos comuns ao brasileiro: a licenciosidade (sensualidade, apreço pelo cortejo, pelo flerte) e a belicosidade (fixação por armas, por justiça com as próprias mãos, elegendo assim um inimigo comum, quase sempre o negro favelado).

Brasil do ouro, Brasil da prata Brasil do balacochê da mulata

A curta terceira estrofe trabalha com outra dicotomia (partição de um todo em duas partes, outra herança grega, mais precisamente de Platão): a riqueza natural e a prodigalidade do africano. A palavra balacochê, de origem africana, significa gingado; a mulata exprime a mistura de raças. Portanto, nesse trecho da canção, dois itens igualmente ostensivos são postos em oposição de valoração: a riqueza de um, a pauperidade de outro.

Tem o Brasil que cheira Outro que fede O Brasil que dá É igualzinho ao que pede

A quarta estrofe trabalha com as antíteses, sob dois aspectos. Cheira X fede segue o padrão das oposições nesta música, com o primeiro elemento do par com cariz positivo e o segundo, sob sanção. Novamente, faz-se uso da metonímia: cheirar se vincula ao zelo, possível apenas por quem possui renda; feder é a ausência de cuidados, traduzindo pobreza. Por fim, que dá X que pede mostra os dois estratos sociais clássicos: aqueles com fartura, a qual os permite doar o excedente; e o outro quinhão a quem resta apenas pedir. Porém, embora estejam em pontas opostas na pirâmide social, fazem parte de um único país e são cidadãos brasileiros, iguais em direitos e deveres - na teoria, obviamente.

Pede paz e saúde Trabalho e dinheiro Pede pelas crianças Do país inteiro

Os verbos da quinta estrofe remetem ao sujeito Brasil - que compreende figuras díspares -, o qual ecoa o senso comum de preocupação com o cidadão, já que a solidariedade é o princípio jurídico da nossa Constituição. É a discrepância do discurso oficioso - calcado em um linguajar hermético - e a inoperância dele na esfera pragmática.

Tem um Brasil que soca Outro que apanha Um Brasil que saca Outro que chuta Perde, ganha Sobe, desce Vai à luta, bate bola Porém não vai à escola

A sexta estrofe retrata a violência urbana e os espaços ocupados pela classe pobre: esta apanha da polícia, contudo tem para si a rua - palco de sua tragédia - como seu campo de futebol. Novas oposições são criadas, visto que muitos verbos ali não são antônimos; no entanto, o par opositivo de dominância versus dominado fomenta relações semânticas. Assim, saca se torna antônimo de chuta, pois sacar é ação de quem tem dinheiro e chutar, ação daqueles, sem capital, para os quais único divertimento é o espaço aberto. Ainda chama a atenção para o lúdico que ameniza a violência e o trabalho árduo - "bate bola" suaviza "vai à luta", ainda que a instrução formal esteja ausente - "não vai â escola".

Brasil de cobre Brasil de lata É negro, é branco, é nissei É verde, é índio peladão É mameluco, é cafuzo É confusão

A sétima estrofe reatualiza a outrora propalada riqueza natural brasileira, ao trocar os metais ouro e prato por outros menos nobres, como cobre e lata. A modernidade, em literatura principalmente, despoja de sacralidade a tradição, colocando os elementos prosaicos – supostamente sem valor de refinamento – como artefatos artísticos e conteudísticos. Depois, por uma série de predicados nominais - sem ação propriamente dita -, elenca boa parte das etnias formadoras da população brasileira. Sintetiza esse caldo étnico com o predicado nominal "é confusão". A oitava estrofe repete as etnias descritas anteriormente.

Oh, Pindorama eu quero o seu porto seguro Suas palmeiras, suas feiras, seu café Suas riquezas, praias, cachoeiras Quero ver o seu povo de cabeça em pé

A nona estrofe rememora o nome dado ao Brasil pelos índios tupi-guaranis. Pindorama, para esses aborígenes, significa "espetáculo das palmeiras" e nomeava um lugar mítico, de paz e harmonia. Uma série de substantivos perpassa faces das fases econômicas do país, aliando-as à comumente cantada pujança natural brasileira. O último verso desta estrofe versa sobre ufanismo, na acepção mais literal dessa palavra, que é de orgulho.

As estrofes se repetem, e a mensagem final reitera o ufanismo que se mistura ao desejo de um país autônomo - quero ver o seu povo de cabeça em pé.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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