pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

T. S. Eliot e os românticos ingleses

T. S. Eliot foi um dos maiores poetas de língua inglesa da modernidade. Soube equilibrar o pensamento contemporâneo à riqueza de seus antecessores.


tseliot.jpg T.S. Eliot foi um dos maiores expoentes do New Criticism, um viés da teoria literária surgido nos anos 20 nos Estados Unidos.] O New Criticism (em Português, Neocrítica) pressupõe a separação do texto e do autor, levando em conta a natureza apenas do texto. Ignora o biografismo da crítica de então – os elementos da vida do autor não são levados em conta para a análise dos artefatos literários. T. S. Eliot seria, então, mais um arauto de algum movimento literário. No entanto, não se percebe apenas isso na teoria de Eliot, tampouco em sua produção literária. Em tempo de prosa, o estudioso produziu eminente poesia. E, no âmbito da crítica, não descartou a contribuição dos antigos. Nesse aspecto, é que se distancia da maioria dos pensadores de sua época, tão impregnados de espírito de vanguarda e avessos à fortuna crítica predecessora.   Essa tendência dos vanguardistas pode ser encontrada em vários epítetos dos ismos que pulularam no começo do século XX. Exemplo que corrobora isso pode ser decalcado em Graça Aranha, com um texto de 1924, intitulado Mocidade e estética. Nele, lê-se que “o Romantismo, que forma a literatura dos possessos, dos melancólicos, é dominado pelo espírito moderno objetivo e dinâmico. (...) Se este realismo nos leva ao classicismo, seremos clássicos, (...) íntimos das coisas ”. E, como num expediente que perpassa por todos os panfletos da modernidade, a desvalorização da cultura pregressa se tornara compulsória.   Além disso, as correntes vanguardistas coligiam apreciação estética e viés ideológico, o que conduzia muitas vezes a um discurso panfletário. É o que pregou, de forma ostensiva, o futurismo de Marinetti, o qual, exaltando a máquina e o patriotismo desmedido, levou a menosprezar o fazer poético anterior e a fomentar o mundo de guerras.   De certa forma contrário à maioria, T. S. Eliot reabilita a fortuna poética anterior. Em ensaios polêmicos, como Tradição e talento individual e Os poetas metafísicos, ele afirma que “se os nossos predecessores não podem nos ensinar a escrever melhor que eles, ensinar-nos-ão, com certeza, a escrever pior: sendo que se nós não aprendemos a criticar Keats, Shelley e Wordsworth (poetas de talento modesto mas seguro) então eles nos punirão de suas sepulturas com o flagelo da antologia georgiana ”. Eliot preconiza, a partir dessa provocação, que o poeta candidato a artífice da palavra há de entender os seus ancestrais.   E explica, em seguida, o motivo fulcral de tal juízo: “(...) a maior parte do trabalho de um autor na composição de sua obra é um trabalho crítico; o trabalho de peneiramento, combinação, construção, expurgo, correção, ensaio – essa espantosa e árdua labuta é tanto crítica quanto criadora”. O raciocínio de Eliot conduz ao fato de que uma poesia nova se faz através da apreciação do material disponível ao poeta.   Aí entra um conceito muito caro à sua teoria: o da experiência. Através da leitura e da reflexão, o poeta se habilita a compor dignamente. Numa apreciação de Eliot sobre Ezra Pound, em 1917, o primeiro apregoa que a composição poética se equilibra sobre um gráfico de dois eixos. Um deles é o “esforço consciente e constante do artista para se obter a excelência técnica”; o outro, “o caminho de seu desenvolvimento humano e sua acumulação e digestão de experiência”. Ambas as linhas repousam sobejamente sobre muita leitura e apreciação da cultura pregressa.   Essa reflexão eliotiana atualiza um pensamento romântico inglês. Ao contrário de outros lugares, na Inglaterra o Romantismo não se opôs severamente ao Classicismo, ao menos em seus primeiros entusiastas . William Wordsworth, Samuel Coleridge e Percy Shelley formam a tríade que norteou os princípios do Romantismo anglo-saxão e ofertaram à posteridade um novo modo de encarar o fazer poético. Para os românticos desse calibre, o poeta se distingue dos outros homens “principalmente por uma aptidão maior para pensar e sentir sem uma excitação externa imediata, e por um poder maior para expressar os pensamentos e sentimentos ”.   Além desse pensamento de certa forma metafísico para o ser poeta, os românticos revitalizaram os fatos corriqueiros como a matéria-prima de seu fazer poético. Novamente, Wordsworth toma para si o papel de núncio da nova escola: “escolher incidentes e situações da vida comum, e relatá-los ou descrevê-los (...) numa linguagem realmente usada pelos homens, (...) com um certo colorido de imaginação ”.   Sobre esses dois axiomas do Romantismo, Eliot fixou sua teoria. Quanto à formação do poeta, ele a destitui de explicações metafísicas e suprassensíveis da realidade. No seu conceito de experiência, há a exegese do caráter do poeta. Através de cultura acumulada, as experiências pessoais seriam filtradas e, dessa feita, “impessoalizadas”, podendo assim atingir um estrato superior de compreensão e de alcance. Eliot diz que “quanto mais perfeito o artista, maior distância existirá entre o homem que sofre e a mente que cria, e mais completa será a digestão das paixões que são sua matéria-prima ”.   Enfim, ele inviabiliza um corolário de possíveis temas poéticos, já que a composição demanda trabalho intelectual sobre as impressões do poeta. São conclusões a que alguns poetas simbolistas haviam chegado, sem formalizar alguma teoria de fato. Rimbaud, no texto Alquimia do Verbo, elenca uma série de elementos, todos banais e fúteis, que o impressionam: “eu gostava das pinturas idiotas, das inscrições de porta, decorações, (...) da literatura fora de moda, (...) ritmos ingênuos ”.   Esse jogo intelectual de promover originalidade às emoções comuns tangencia outras correntes teóricas da Literatura, como o Formalismo Russo. Mas, no caso de Eliot, a transgressão da palavra, tão cara aos formalistas, é constantemente vigiada: “(...) só quem tem personalidade e sente emoções entende o porquê do autor querer delas escapar ”.   Quanto à linguagem, Eliot não se dissociou dos pressupostos de Wordsworth, embora tenha dado ao problema menor expressão que a tradição e a impessoalidade da poesia. Chegou a dizer que as palavras devem evocar as sensações do poema, o que deliberadamente exige uma escolha vocabular mais concreta e menos abstrata. Vê-se tal exercício acurado em seus poemas:   “Vamos, então, você e eu, Quando a noite se esparrama contra o céu Como um paciente anestesiado sobre a mesa; Vamos por estas ruas quase solitárias, Por refúgios sussurrantes De noites de insônia no reles hotel diário (...)”   A análise do pequeno trecho do poema A canção de amor de J. Alfred Prufrock é a síntese do pensamento de Eliot. O uso da figura da noite se esparrama sobre o céu geraria interpretação vaga, pois em cada leitor a noite se configura de uma forma dada à diversidade geográfica. No entanto, o autor toma as rédeas do poema, ao comparar o crepúsculo a um anestesiado. Agora sim, o findar do dia se apresenta numa imagem de letargia, tal qual o poeta pensara.   Os objetos elencados – paciente, ruas, insônia, hotel diário – são igualmente corriqueiros, trazendo proximidade e atualidade ao poema. E a presença do “eu” não representa o suicídio do autor/poeta, mas sim a vitória dos pressupostos do autor quanto ao fazer literário.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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