pílulas da literatura

Um mundo onde as palavras vivem

Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado.

O rouxinol brasileiro

Existe similaridade de divas entre o Brasil e a França: as estrelas Edith Piaf e Dalva de Oliveira exibiam não apenas paridades vocais, mas também vicissitudes muito convergentes na vida.


dalva01.jpg Nos anos 30, a vida cultural brasileira fora agitada, especialmente, pela emergência do romance de 30. Essa tendência atualizou o projeto romântico de identidade nacional, ao perscrutar os rincões do País em busca de uma similitude entre palavra escrita e conteúdo programático. Numa analogia semelhante ao que ocorrera entre a fotografia e a pintura – quando a primeira, valendo-se do epíteto espelho do real, permitiu à segunda reflexões de vulto que desembocariam em vanguardas do século XX –, a literatura deu às outras artes a possibilidade de se imiscuírem por caminhos menos calcados na verossimilhança.

Na canção, ao lado do samba e da marchinha, a valsa brasileira, já dotada de letra a partir do início do século XX, atinge o auge de popularidade nos anos 30. O ritmo, de caráter lento, abusava das letras de lirismo exacerbado. Terceiro ritmo mais gravado no Brasil na década de 30 (1.080 fonogramas, ou 16,24% do total gravado), perdendo apenas para o samba e para a marchinha, a valsa brasileira foi enriquecida em sua fase mais pródiga, 1935-1940, por uma série de obras-primas, das quais várias se tornaram clássicas .

Dentre as cantoras que se aproveitaram do manancial ofertado por compositores como Orestes Barbosa, Lamartine Babo, Cândido das Neves etc., uma se destaca pela maneira com que imprimiu a vida pessoal no modo de cantar: Dalva de Oliveira. Apelidada de Rouxinol, sua trajetória é similar ao de outro ícone da música, em cujo vibrato muito se assemelham: Edith Piaf (Edith “Pardal”, apelido dado em 1935, quando fora descoberta por Louis Leplée, dono de um cabaré ). A cantora francesa, nascida Edith Giovanna Gassion, dotou as canções as quais interpretou do mesmo fulcro sentimental que Dalva fizera.

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Contemporâneas de vida (e de sucesso, na década de 30 até a de 50), Dalva e Edith não podem ser classificadas em um único gênero musical. Isso se deve à emergência de diversos padrões musicais. Em âmbito mundial, ritmos como fox trot tornavam-se onipresentes nos salões; havia também a emergência do bolero, do tango e da salsa. Nos EUA, o jazz originou o swing, o qual consolidou o estilo comumente conhecido por Big Bands. Nesse intercurso de estilos, ambas não se filiariam a um apenas. Edith, no entanto, ficaria conhecida como uma cantora de chanson, o estilo francês para as danças de salão, ritmo alegre, com toque de picardia e de temática cotidiana. Dalva, embora desse primazia às canções de amor, apropriou-se do que havia na época.

Nasciam as duas cantoras na década de 1910. De famílias humildes, tiveram suas vozes reconhecidas apenas na década de 1930. Casamentos fracassados, amores não correspondidos, as intérpretes escolheram canções a dedo, as quais traduziriam não apenas um estilo de lirismo comum à época, mas sim a biografia de ambas. Edith viu o amor de sua vida, o pugilista Marcel Cerdan, morrer prematuramente. Dalva sofreu com as traições do primeiro marido e integrante da banda Trio de Ouro, Herivelto Martins. Separaram-se, mas ela jamais o esqueceu.

Edith mostrou entusiasmo com o amor na bela canção Hymne à l’amour (1949): “Le ciel bleu sur nous peut s'effondrer O céu azul pode cair sobre nós

Et la terre peut bien s'écrouler E a terra bem pode desmoronar

Peu m'importe si tu m'aimes Eu não me importo se você me ama

Je me fous du monde entier Eu não me importo sobre o mundo”

O trecho acima serviu para que aqui houvesse uma versão, na voz de Dalva de Oliveira. Amargurada pelo amor perene ao ex-marido, Herivelto Martins (com quem havia formado o Trio de Ouro em 1937), e aos solavancos com o segundo casamento, ela traz para cá a canção de Piaf, no mesmo estilo balada, mas com letra de cariz mais triste:

Se o azul do céu escurecer E a alegria na terra fenecer Não importa, querido, viverei do nosso amor

Se tu és o sol dos dias meus Se os meus beijos sempre foram teus Não importa, querido o amargor das dores desta vida Um punhado de estrelas no infinito irei buscar

E aos teus pés esparramar Não importa os amigos, risos, crenças e castigos Quero apenas te adorar Se o destino então nos separar Se distante a morte te encontrar Não importa, querido, porque morrerei também

Quando enfim a vida terminar E dos sonhos nada mais restar Num milagre supremo Deus fará no céu eu te encontrar

Ambas as intérpretes se assumem narradoras da desdita das canções. É a primeira pessoa que canta e que também sente cada percalço das letras. É a melancolia que as assola, tal qual Victor Hugo a definira na obra Do grotesco e do sublime. Segundo o escritor francês, fora o Cristianismo, com a idéia fixa de paraíso perdido (título da obra de um grande poeta inglês), que instaurara o sentimento de melancolia, aquela ausência da perfeição a permear a toada da vida: “[o Cristianismo] põe um abismo entre a alma e o corpo, um abismo entre o homem e Deus”.

Enquanto Piaf se explanava em suas canções, Dalva abriu um leque vinculado à característica principal da cultura brasileira: a miscigenação. Além de baladas, a paulista cuja voz ia de contralto a soprano gravava canções dos estilos presentes no Brasil dos anos 30 aos 50. Pode-se dizer que Dalva fora rainha nessa época, já que seu canto “excessivo” não encontrou respaldo no movimento bossa nova, que passaria a ter hegemonia da classe média a partir da metade dos anos 50.

A análise do repertório de Dalva de Oliveira dá uma ideia dos estilos que grassaram pelo gosto do público brasileiro médio, numa época de ouro do rádio. O bolero, estilo hispano-americano, possui uma grande vitalidade, já que se tornou muito ouvido e cantado no Brasil, além de fornecer subsídios para a criação de estilos brasileiros, como o samba-canção, e outros latinos, como o mambo e a salsa.

Eis um trecho de um belo bolero cantado por Dalva, chamado Que Será:

Que Será Da Minha Vida Sem o Teu Amor Da Minha Boca Sem Os Beijos Teus

Da Minha Alma Sem o Teu Calor Que Será Da Luz Difusa do abajur lilás Se Nunca Mais Vier a Iluminar Outras Noites Iguais

A letra, de Marino Pinto e de Mário Rossi, perpassa pelo tema agridoce do amor, sem rebuscamentos. Havia no Brasil dos anos 30 dois caminhos para se retratar a temática sentimental: ora com letras rebuscadas (vide a canção Ontem ao luar, de Catulo), ora com linguagem acessível. Dalva se imiscui no último e põe seu poderoso vibrato a essa tendência.

Do primeiro casamento de Dalva, donde fora lançada ao estrelato, há a bela música Ave Maria do Morro, de autoria de seu primeiro marido, Herivelto Martins, em 1942:

Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura Lá no Morro, barracão é bangalô Lá não existe felicidade de arranha-céu Pois quem mora lá no morro já Vive pertinho do céu Tem alvorada, tem passarada ao alvorecer Sinfonia de pardais anunciando o anoitecer E o morro inteiro, no fim do dia Reza uma prece "Ave Maria"

E o morro inteiro, no fim do dia Reza uma prece "Ave Maria"Ave Maria... Ave...

E quando o morro escurece Eleva a Deus uma prece Ave Maria...Ave Maria... Ave Maria... E quando o morro escurece Eleva a Deus uma prece Ave Maria...

Esse samba – desde a época de Sinhô, o estilo samba é essencialmente urbano – coloca em evidência o sincretismo religioso presente no País. Além disso, reabilita a visão do morro como um lugar mais próximo do céu e uma comunhão de classe. Eis um paradoxo da arte do samba: a temática, muitas vezes, abarca as classes mais humildes e a música é consumida pela classe média.

Ratifica a presença da religião de cariz africano o fato de Dalva ter-se casado com Herivelto em cerimônia de umbanda. O barracão de zinco alude à casa do terreiro, onde ocorrem os cultos afro-brasileiros. E é bangalô, ou seja, a construção de melhor aspecto do morro, composto de habitações humildes. Esse resgate da síntese religiosa atingirá o apogeu com Clara Nunes.

De ritmo mais ligeiro, o samba A Bahia te espera, composto por Herivelto Martins e Chianca de Garcia, corrobora o lado sambista de Dalva, mesclando temática africana a um canto sofisticado de soprano. Uma máxima em voga na Bahia diz que Salvador possui uma igreja para cada dia do ano; daí o caráter religioso do povo de lá. Eis um trecho da música:

Oh Bahia da magia, dos feitiços e dá fé Bahia que tem tanta igreja E tem tanto candomblé Para te buscar Nossos saveiros já partiram para o mar Iaiá eufrásia, ladeira do sobradão

Já tá formando seu candonblé Velha damásia da ladeira do mamão Tá preparando acarajé

Nos anos 40, o samba-canção, tributário da valsa brasileira e do bolero mexicano, encontra em Dalva grande intérprete. O samba-canção Fim de Comédia, de Ataulfo Alves e Américo Seixas, traz o pandeiro e o tambor do bolero, com o violão e o teclado do samba tradicional. Tudo isso envolto no canto plangente de Dalva, que marcava a primeira fase do samba-canção, de jaez melancólico e trágico :

Este amor quase tragédia Que me fez um grande mal Felizmente esta comédia Vai chegando ao seu final

Já paguei todos os pecados meus E o meu pranto já caiu demais Só te peço, pelo amor de Deus Deixe-me viver em paz E eu não quero me fazer de inocente Porém não sou tão má como disseram por aí Eu quero é meu sossego tão somente Cada um trate de si

Terminado o casamento com Herivelto, Dalva segue carreira solo, com êxito até o advento da bossa nova. Se Francisco Alves era o Rei da Voz, a rainha surgira: Dalva de Oliveira arrebatou o epíteto para si. O término de sua banda restringiu-lhe o estilo; no entanto, a cantora se especializa no samba-canção, aproximando-se novamente de Edith Pìaf, no que concerne à estreiteza entre arte e biografia. O segundo casamento não lhe trouxera o acalento sentimental. A letra da canção Tudo acabado, de 1950, traduz o espírito que nortearia a carreira dela:

Tudo acabado entre nós, já não há mais nada Tudo acabado entre nós hoje de madrugada Você chorou e eu chorei, você partiu e eu fiquei Se você volta outra vez, eu não sei

Nosso apartamento agora vive à meia luz Nosso apartamento agora já não me seduz Todo egoísmo veio de nós dois Destruímos hoje o que podia ser depois

A carreira dela entra em decadência com o estilo bossa-nova, cujas canções exibiam economia instrumental, vocal menos expansivo e letras em sincronia com o laivo desenvolvimentista que acometia o Brasil . Entretanto, Dalva, nos anos 50, viaja para Europa e para Argentina. No país platino, ela se encontra com artífices do tango, como Francisco Canaro, e grava canções por lá.

Nas apresentações ao vivo, ela sempre frisou que “não possuía fãs, mas sim amigos ”. Atingira um grau de empatia que, muitas vezes, dirimia os escândalos pessoais, como a bebida. Ela morreu em 1972, sem perder os exageros vocais que a notabilizaram.


Gilmar Luís Silva Júnior

Uma criatura hiperativa, que teme procurar ajuda médica com receio de ser internado..
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