Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante.
Então vá, faça o que tu queres!

A Quebra de Paradigmas em Breaking Bad

Como o seriado mais aclamado da década mostra o fracasso do American Way of Life, da guerra às drogas e o discurso de hipocrisia da sociedade.


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Na posição de seres humanos inseridos em um contexto social geralmente nos vemos encurralados em situações limite em que é preciso tomar grandes decisões, em que não há mais tempo para pensar, em que algo deve ser feito. Um pai de família que descobre um câncer em estado terminal, com a esposa grávida e o filho de apenas 16 anos que porta paralisia cerebral, muita coisa poderia passar pela sua cabeça, até mesmo produzir metanfetaminas e entrar para o tráfico, certo? Essa é a base do enredo de Breaking Bad, umas das mais premiadas série de TV dos Estados Unidos, incluindo Primetime Emmy Awards, Satellite Awards, Globo de Ouro, e até uma aparição no Livro Guinness dos Recordes como o seriado de maior audiência de todos os tempos. Criada e produzida por Vince Gilligan conta com elenco muito afiado que segura a série do começo ao fim, ao longo de suas cinco temporadas, com destaque para o protagonista Walter White (Bryan Cranston) e seu coadjuvante Jesse Pinkman (Aaron Paul), foi um marco no estilo e produção de séries.

Mas não se deixe enganar pelo suposto roteiro básico de um pai de família com problemas, a série aborda muitas questões contundentes e de forma nada óbvia. Com uma vida medíocre, sendo um professor primário de alunos desinteressados, onde o herói da família é o seu cunhado Hank (Dean Norris) policial do DEA (Departamento de Narcóticos), Walter White vai seguindo, porém poucas coisas podem ser tão libertadoras como a morte e é nesse momento que o seu papel ganha força, que ele se encontra. É na iminência da morte, quando descobre o câncer, que ele perde o seu medo e postura covarde e se lança de cabeça na virada de seu personagem, de coadjuvante para protagonista, na transformação em grande anti-herói da trama.

Muitos acontecimentos pontuam as cinco temporadas que vem a seguir, os personagens são bem desenvolvidos e todos têm uma trama pessoal, Jesse Pinkman, parceiro de Walter White, vive em contradição: ser um cara bom ou ruim, deve se envolver com drogas ou não, Hank de exibicionista e bom policial passa a se ver acuado diante das situações e emboscadas preparadas pelo cunhado, Skyler (Anna Gunn) esposa de Walter de desavisada vira cúmplice. Novos personagens surgem e se vão como o inesquecível advogado trambiqueiro Saul Goodman (Bob Odenkirk), o mega traficante com cara de bonzinho Gus Fring (Giancarlo Esposito) e seu competente e fiel guarda costas Mike (Jonathan Banks) dentre muitos outros que não seria possível citar em um único artigo.

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Em todo caso o mais interessante em Breaking Bad são as questões abordadas ao longo da série, como o fracasso do American Way of Life, da guerra às drogas e o discurso hipócrita da sociedade.

A todo o momento a família é a base do discurso de Walter, a necessidade de deixar uma condição financeira boa para a esposa e filhos. Porém a proposta de ajuda do casal de amigos milionários Gretchen (Jessica Hecht) e Elliot Schwartz (Adam Godley), o qual passaram Walter para trás em um passado não muito distante, é recusada. Assim o personagem desenvolve sua real vocação: a produção de metanfetamina, onde atinge sucesso e resgata todo o seu orgulho ferido de homem mal sucedido através de seu alter ego Heisenberg. A partir daí já percebemos o quão falho é seu discurso baseado na família e em uma boa condição financeira, discurso esse que é a premissa do American Way of Life, e que muitas vezes aprisiona as pessoas em suas ações ou serve de desculpa para outras.

Uma bandeira que é levantada durante toda a série é a guerras às drogas, mostrada pelo policial do DEA Hank o qual se ocupa em capturar os “caras maus” que se envolvem com drogas, mas também fabrica cervejas em sua garagem e bebe nas festas de família. As drogas lícitas sempre aparecem de forma chave a nos questionar essa barreira entre o que pode ou não, estão sempre transitando no ambiente familiar enquanto a ilícita acarreta decadência e violência, porém esta barreira é tênue demais. Até mesmo durante o tratamento de câncer de Walter são mostrados inúmeros remédios com diferentes efeitos colaterais onde sua eficácia nem sempre é certa. Skyler é outra personagem que critica duramente o envolvimento de Walter com drogas, porém não hesita em fumar um cigarro durante a gravidez ou ao lado de sua filha bebê em um momento de estresse. E com isso o discurso da hipocrisia também é delineado ao longo dos capítulos.

Breaking Bad é uma série completa que vai desde uma trama com roteiro muito bem escrito e delineado, o qual leva as questões ao extremo não eximindo os personagens das consequências de seus atos, um ótimo elenco, uma fotografia e trilha sonora com qualidade cinematográfica, e que juntos geram tensão na maioria dos capítulos. Além de todas as qualidades técnicas também é possível encontrar uma grande crítica e reflexão, agrada desde os que procuram uma série de ação quanto os mais atentos ao discurso.


Maíra F. Guimarães

Toma banho de chapéu, não espera o papai noel, porém discute Carlos Gardel, entre outros, além de ser uma metamorfose ambulante. Então vá, faça o que tu queres! .
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